Capítulo 2

A MINHA VIDA ATÉ LONDRES

 

- E assim começaram os teus emails ao cantor, não é? Depois de muitos emails conheceram-se pessoalmente e depois houve uma confusão engraçada…depois o rompimento e mais tarde, tu, que eras fascinada pelo mundo da música, decidiste entrar nesse mundo…

- Sim, é verdade. Ah, esqueci! Sucedeu uma coisa na Irlanda, em Dublin, naquelas viagens que referi há pouco e que esqueci de te contar!

- Conta-me!

- O combóio tinha chegado de madrugada e os hotéis próximos, os mais baratos, já estavam todos lotados. Então pegámos nos sacos cama e fomos, éramos aproximadamente cinco pessoas, para um canto escondido junto à estação dos caminhos de ferro, dormir. O meu saco cama era amarelo com cenas de banda desenhada em tons pretos intensos, laranja baço e muito amarelo eléctrico!

- O que sucedeu de interessante?

- Estava eu a dormir quando subitamente acordo. Tiro a cabeça dentro do saco cama e vejo, perto de mim, um polícia vestido de preto parecendo ser das forças especiais. Ele tinha uma espingarda com mira telescópica apontada a mim! Como se não bastasse, havia mais parecidos a este lá adiante próximo de uns arbustos.

 - Acordaste num cenário de rodagem de um filme, certo?

- Não, aquilo era mesmo real! Disse, em tom baixo, aos outros no saco cama ao lado, tentando estar o mais imóvel possível não fosse aquela gente pistoleira ser nervosa e começar a disparar: “Acordem…ACORDEM!”. Mas todos eles continuavam a dormir…um até ressonava! “Temos ARMAS APONTADAS A NÓS!”- gritei entre dentes. O sono estava realmente a pesar-lhes.

- Continuaram a dormir?!

- Sim. Eu olho para o polícia com cara de atónita e sorrio-lhe enquanto eu pensava: “O mundo está enlouquecido! Apontarem armas telescópicas a mim?! Grande aparato policial! Existe algum terrorista aqui?” Eu mirava os polícias perto dos arbustos: “Essas pequenas árvores devem-vos proteger do perigo, não? Escondam-se mais atrás dos arbustos para eu não vos ver, pode ser? Vocês estão a assustar-me! Agora estão a sair dos arbustos e a dirigirem-se para aqui?! Não perceberam o que eu vos disse?! Para detrás dos arbustos, já! Este grupo a dormir dentro dos sacos camas é perigoso! O meu saco cama com estes tons abundantemente amarelo elétrico pode-vos sugar o cérebro e transformar-vos em zombies!”

- Mas o que é tu e os outros fizeram para terem esse aparato policial todo?!

- Não sei! Eu nem estava a acreditar no que estava a ver! Os das forças especiais estavam a caminhar em direção a mim com as armas telescópicas bem apontadas, tendo eu sido a única do grupo que tinha acordado espontaneamente. Mas eles agora aproximavam-se dos outros que dormiam e ordenavam-lhes, em inglês, que se levantassem.

- E depois?

- Depois percebemos que a polícia suspeitava que dentro dos sacos camas estivessem engenhos explosivos e não pessoas. Explicaram-nos que era perigoso ficarmos ali pois, tinha rebentado um engenho explosivo na estação, dias atrás. Embora sem gravidade, fazia com que a polícia estivesse especialmente prudente e cautelosa. Levaram-nos, para passarmos a noite em segurança, à esquadra da polícia.

- Qual foi a sensação de estar numa esquadra da polícia para dormir?

- Foi estranha. Quando lá chegamos vimos que a sala tinha um vidro da janela com um orifício, estalado radialmente, parecendo que tinha sido baleado.

- Os polícias das armas telescópicas eram jeitosos?

- Eu estava ensonada, assustada e achava aquilo tudo um absurdo…não reparei muito bem neles. Estás a beber? Parece que ouço tu a beberes…

- Estou a beber um cálice de vinho do Porto. Mais alguma história?

- Histórias há sempre…uma engraçada sucedeu-me na Grécia ao visitar uma pequena ilha. No vale havia imensas lojas de aluguer de motas e todos nós alugamos uma. Eu nunca tinha conduzido uma mota. O senhor do aluguer disse que era simples e informou existirem somente duas opções na condução: ou se acelerava ou se travava, exemplificando como tal se fazia. Depois cada um na sua mota e todos juntos, subimos até ao topo da ilha! Tínhamos a tarde toda para isso! O terreno era íngreme, um pouco árido, avistavam-se poucas árvores e também terrenos não cultivados agora com erva seca pelo verão e acima de tudo, havia muito vento. Esse vinha do mar ou do ar ou sei lá de onde!….

- Detestas vento?

- Se for vento frio, detesto. Mas aquele era morno. Chegamos ao topo da ilha e observamos a paisagem em redor, incluindo o mar azul bonito! Passado algum tempo, o grupo começou a inverter a marcha iniciando a viagem de regresso em direção à loja que nos tinha alugado as motas. Agora era sempre a descer! Após ter arrumado umas coisas na minha mochila constato que os outros já se tinham ido. Eu ainda os conseguia ver mas estavam a afastar-se. Peguei na mota e lá ia eu também a descer. Eu ficara isolada.

- Tiveste portanto tranquilidade para apreciar a paisagem em redor…

- Sim. Observava a paisagem, a mota fazia curvas e mais contracurvas, a estrada era estreita e deserta. Eu ia sentindo um vento forte e fresco na pele que fazia a roupa do corpo quase voar por cima da minha cabeça. “A onde é que vocês todos se meteram? Não vos estou a ver! Aceleraram, não? Estou a descer e o homem tinha dito para acelerar ou travar. Como quero adquirir velocidade para vos alcançar, vou acelerar!”- pensava eu.  Olha: o declive na descida era mesmo acentuado…

 - A onde é que a tua mota foi aterrar com a aceleração que lhe deste?

- A mota arrancou a toda a velocidade, foi sempre em linha reta, nem sequer fez as curvas e voei para cima de um campo em frente! Caí em posição de deitada com parte da mota também deitada sobre mim e a roda dianteira ainda a girar.

- Magoaste-te?

- Por sorte não fraturei osso algum, apenas tinha os braços e as pernas bastante esmurrados devido à aterragem. Alguns segundos depois reparei que os joelhos sangravam. Senti o que antes não havia sentido! Sentia agora que o vento transportava grãos pequenos de areia que pareciam agulhas a furar a parte da minha pele que estava esmurrada bem como a outra parte que estava a sangrar e inflamada.

- Conseguiste retomar a viagem na mota nesse estado?

- Esforcei-me e consegui: pus a mota em pé e retomei a descida na montanha. O vento estava a dificultar-me a viagem pois com a mota a adquirir velocidade, senti-o agredir-me a pele que sangrava. Parei a mota.

- O teu grupinho onde estava?

- Sei lá! Não os via em lado algum. Tirei as meias de algodão dos pés…

- Tiraste as meias dos pés para quê?! Deixa-me beber um pouco mais de vinho de Porto porque, misturar histórias que envolvem armas telescópicas em Dublin com tirar meias dos pés numa ilha grega após uma queda aparatosa, é simplesmente demais!

- Tirei as meias de algodão dos pés e esvaziei um saco plástico…

- Olha, preciso mesmo de esvaziar o cálice de vinho! Ela tira as meias e esvazia um saco plástico!!…Posso saber para quê?!

 - Se me deixares contar a história saberás…as meias pu-las em cima de cada um dos joelhos que sangravam imenso e a quem o vento forte magoava bastante. Com tiras feitas a partir do saco plástico, envolvi a meia em torno da ferida com um nó. Também envolvi outras tiras de plástico nos braços onde a pele estava muito esmurrada. E assim fui eu, em cima da mota, com as tiras de plástico a esvoaçar nos joelhos e braços! Passado algum tempo vinha o meu grupinho à minha procura…vinham a subir.

- O que te disseram eles quando te viram?

- Perguntaram-me porque tinha eu ficado para trás e que exibicionismo era o meu, com tantas tiras de plástico esvoaçante nos joelhos e braços? Ironizaram dizendo que os motoqueiros usavam uma única tira à volta da cabeça e não várias tiras de plástico dum saco de compras, todas mal cortadas, em joelhos e braços! Eu retorqui: “Caí!” Eles não perceberam o que eu disse pois eu não tinha parado a mota. Eu mantive-me em movimento. “O QUÊ?” –gritaram eles. Eu rodei a cabeça na direção deles e nada disse. Eu estava a afastar-me. Depois lembrei que a mota estava ligeiramente amolgada e na possível reação do dono...

- A minha Ninfa numa trotinete…sexy seria se fosse uma Harley Davidson e um motoqueiro jeitoso…

- De facto teria sido bem melhor…Andei o resto do dia, e da noite, a caminhar visitando o centro turístico da ilha, a parte mais citadina, com as meias enroladas no joelho e com tiras de plástico! As pessoas reparavam em mim! À noite lembrei-me que podia ter passado por uma farmácia e ter feito um curativo, mas já estava no hotel, na cama! Estava na cama com os joelhos a arder, estava dorida e a tentar adormecer.

- Eu acho que devias ter ido à farmácia imediatamente! Uma curiosidade minha e voltando à questão já colocada: como descobriste o tal músico do estúdio de gravação das tuas canções, dado que não conhecias ninguém ligado à música?

- Relato isso no capítulo três. Foi engraçado! Foi através das páginas amarelas. Aparecia lá uma editora discográfica, de música popular, numa pequena cidade distanciada da minha casa apenas 20 quilómetros! Fiquei muito admirada! Fiz uma pesquisa na internet e não vi qualquer referência à tal editora mas, inferi que eles conhecessem músicos. No entanto, a música popular não era o meu género musical. Todavia, durante os dias seguintes, um pensamento persistente massacrava-me: “Telefona à editora!” Eu retorquia mentalmente: “Para quê?! Não é o meu género musical!” Mas a voz insistia comigo: “Telefona!”

- Como classificas o teu género musical?

-Eu classifico-me como sendo predominantemente rock embora, haja quem me rotule de modo diferente. Eu insistentemente perguntava ao músico do estúdio qual o meu género musical, pois eu tinha temas que iam do pop, passando pelo rock, alguns blues e até alguns lembrando “world music”. O músico do estúdio respondia dizendo que eu tinha mais perfil de rock. Em Londres, muitos dos que responderam ao meu anúncio para formação da banda, definiam-me como “eletro pop”. Por sua vez o promotor do concerto de 7 de decembro anunciava-me, na sua rede social via internet, dizendo que a cantora portuguesa que iria atuar era um cruzamento entre, a doçura da cantora pop francesa Vanessa Paradise e, a voz da cantora punk alemã Nina Hagen. Alguns anos antes quando o tema “Aha sim Gato”, do projeto “Incenso, apareceu na rádio, houve quem me classificasse de gótica quanto à minha imagem e de  “MPA” quanto ao género musical.

- O que é isso de “MPA”?

- Eu não o sabia e o músico do estúdio também não. Pesquisei na internet e vi que era uma sigla “nova” e que significava “Música Pimba Alternativa”!

- Isso é bom! Não há consenso em relação ao rótulo a dar-te! Tu és tu! Tu és a “Ninfa Artemis” –eis o nome que te definirá um dia!

- Voltando à editora de música popular: telefonei-lhes e o dono da mesma, um senhor dos seus setenta anos, em tempos idos tinha sido um cantor, principalmente na comunidade portuguesa espalhada por esse mundo fora, explicou que a sua editora apesar de pequena, fazia covers de todos os géneros musicais e, em várias línguas. Ia desde o espanhol, passando pelo inglês, francês, italiano e acabando no árabe!

- Fabuloso!…

- Esse senhor conhecia músicos! Fantástico! Disse para eu lhe levar a cassete com as minhas canções cantaroladas! Ouviu-as e disse que tinha um músico muito competente e versátil, que dominava vários géneros musicais, a trabalhar com ele na editora. Fiz saber que não pretendia fazer parte como artista da editora e passei para o estúdio do músico que ele recomendou, como artista independente. Custeei e supervisionei todo o meu projecto! Intrometi-me nos arranjos musicais e nas misturas das minhas canções… estive sempre ao lado do músico em todas elas.

- Assim também ias aprendendo…

- Sim, é verdade. Mas a dada altura apeteceu-me estar em casa pois estava cansada de tantos meses de viagens. O músico contra-argumenta: “Convém que você esteja aqui…Sabia que o gado à beira do dono engorda? Esteja aqui porque assim se houver algo que queira mudar, faz-se logo a alteração nesse mesmo instante além de que, aprende por observação do meu trabalho técnico feito aqui no estúdio!” Andei oito anos em estúdio!

- Os outros artistas do estúdio também tinham essa rotina de presença assídua no estúdio de gravação?

- Os outros artistas poucas vezes estavam presentes! Gravavam a voz e poucas vezes lá iam. O músico ficava como responsável único, e total, de todo o trabalho musical. Eu gostava de dar ideias para o meu trabalho: desde a escolha do tipo de bateria, passando pela execução da guitarra…e demais arranjos musicais.

- Gostaste do trabalho de gravações no estúdio?

- Adorei! A minha primeira gravação foi feita em agosto de 2003, no estúdio do músico, poucos dias após eu o ter conhecido. O meu primeiro projeto “Incenso” foi gravado em poucos dias –foi tudo muito rápido. No ano seguinte insisti com o músico para serem feitos melhoramentos aos arranjos musicais e entrei novamente em estúdio de janeiro a março. Depois de finalizada a gravação, informei-me de como poderia obter um código de barras para ser impresso no CD. Simultaneamente, contactei uma fábrica de duplicação de CD´s e mandei fazer duas mil cópias uma vez que, era quase ao mesmo preço da quantia mínima, que era de quinhentas cópias.

- O que fizeste a tantos CD´s? Vendeste-os?

- Não os vendi. Enviei para as rádios portuguesas, um pouco por todo o país e os CD´s que sobraram deixei-os empacotados debaixo da minha cama!

- Tiveste sorte com o envio às rádios?

- Tive sorte com uma rádio nacional que fazia bastante divulgação de música independente de bandas portuguesas de garagem que cantavam em inglês –eu tinha um bom palpite quanto a esta rádio embora eu estivesse a cantar em português e não estivesse inserida numa banda. Passados três anos surgiu, nessa radio, um programa que passava música cantada em português que eles achassem “engraçada”. Se sim, então eles faziam humor crítico procedendo ao gozo: ou era a imagem do artista sujeita a paródia ou era letra ou a forma de cantar ou etc. Eles engraçaram com a canção “Aha sim gato!” O Cd tinha sido enviado à rádio 3 anos antes e eu já tinha esquecido esse meu envio. Foi através daquela rádio que as pessoas ficaram a saber que eu existia.

- Claro que existes! Não precisas que os outros te digam que tu existes, para tu existires, pois não?

- Claro que não! Nessa altura, considerei que talvez tivesse chegado o momento de eu ter uma banda!

- Conseguiste formar a banda?

- Não. Pus anúncios mas, é sempre difícil formar banda dessa maneira…funciona melhor, e mais rapidamente, por conhecimentos pessoais. Queria tanto ter uma banda que, até aluguei uma sala de ensaios num centro comercial na cidade. Esse centro tinha sido um fracasso, tendo muitos lojistas o abandonado por falta de clientes -talvez pela má localização do referido centro comercial. Então as salas que seriam para lojistas passaram a ser alugadas ao mês, pela gerência do centro comercial, a bandas que não tinham local de ensaio. Aluguei uma para mim e comecei a limpá-la.

- Deram-te a sala com lixo?!

- O ocupante anterior tinha sido um contabilista. Deduzi isso pelos vidros da loja que estavam cheios de autocolantes contabilísticos. Também havia muito entulho formado por muitos discos de vinyl espalhados pelo chão, além de uma máquina de fax e outro lixo. O chão estava todo manchado; parecia que tinham andado a entornar cafeteiras inteiras de café no chão e deixado secá-lo! Trouxe um balde de casa, detergente e uma esfregona. Ia à casa de banho daquele piso, ficava no extremo oposto, despejar e encher o balde com água limpa para retomar a limpeza das manchas. Quanto ao lixo, como a loja era no terceiro piso superior, eu tinha de vir à rua coloca-lo no contentor tendo o senhor do café, logo à entrada do centro comercial, me pedido para ficar com a máquina de fax.

- Fizeste mal em não guardar os discos de vinyl. Hoje em dia são preciosidades para colecionadores. Eram muitos?

- Bastantes. Seja lá o que estivesse na loja, foi tudo para o lixo. Apenas fiquei com uma estátua bizarra de quarenta centímetros de altura feita em mármore, com um relevo embutido em bronze dourado. Em casa lavei-a e olhei melhor para o relevo. E nem acreditei no que vi!

- Está visto que foi algo de cariz erótico…

- Eu por vezes sou distraída sabes? Acreditas que eu comprei uma t-shirt na feira que tinha umas frases engraçadas escritas nas costas? Em casa decidi lê-las. Era a única peça do género, entre as muitas outras peças à venda. Talvez tivesse sido uma t-shirt modelo de uma fábrica mas que não fora usada como modelo de duplicação…Sabes o que essa referida t-shirt dizia nas costas?

- Eu quero sexo e estou de pernas abertas para ti?

- Olha, não era tanto mas quase. Nas costas junto ao pescoço dizia: “Mãe de puta louca!”; a meio das costas: “Filha bastarda louca!” e num canto inferior direito da mesma “Viva a puta da vida louca!”

- A vida é mesmo uma puta louca! O que viste no relevo da estátua?

- O relevo no bronze tinha anjinhos, sabias?

- Mas havia algo mais, certo?…

-Sim….Eram anjinhos bébés, todos nús com as asinhas abertas; nas mãos seguravam coroas de folhas de louro e pareciam correr uns atrás dos outros. Era visível que eram todos do sexo masculino. Um deles estava mais próximo de outro e de tão próximo que estava parecia querer ter sexo anal com o outro da frente. Parecia estar a segurá-lo já pela anca e a projetar a zona pélvica para a frente!

- A sério?!

- Eu fiquei mega pasma com aquilo! Possivelmente aquilo foi liberdade criativa do autor… talvez pretendesse chocar os mais púdicos.

- Ou talvez dizer que a inocência não existe…As mensagens subjacentes e implícitas às coisas artísticas sempre me irritaram! Eu gosto das coisas explícitas! Não gosto de dar uma dezena de possíveis interpretações diferentes a uma mesma coisa! Conseguiste formar banda?

- Cidades pequenas e sem contactos pessoais…não o consegui. Ao fim de 3 meses, desisti da sala de ensaio! Fui quase obrigada a isso!

- Foste obrigada?!

- Sim. Apesar de eu pagar as mensalidades do aluguer atempadamente, um dia o gerente do centro comercial telefona-me: “Você não tem usado a sala. Pôs um tapete e cadeiras –consegui ver através do bordo inferior do vidro da loja que não ficou totalmente tapado pelo papel dourado vermelho, que pôs para tapar os vidros. O tapete é bonito, as cadeiras também mas, a sala tem de ser usada! Vem aqui uma equipa dum programa de música de um canal televisivo estatal, com boas audiências, filmar e entrevistar as bandas que por aqui ensaiam. Têm vindo aqui muitas bandas à procura de sala de ensaio! É por isso estou a telefonar-lhe: peço-lhe que subalugue o seu espaço a uma banda ou desista do mesmo.” Eu tinha ainda o mês pago, faltando ainda três  semanas para o término do mesmo mas, no dia seguinte enviei-lhe pelo correio as chaves da sala e duas garrafas de bebida espirituosa com votos de felicidade para ele e, para as futuras bandas que ocupassem a minha sala.

- Desististe depressa da formação da banda… devias ter insistido! Perdeste uma oportunidade de adquirir experiência!

- Acredita que tentei formar a banda mas estava complicado. Há muita gente mentalmente doente por aí, que tenta passar a sua doença aos outros. Imagina que houve um fulano, o anúncio indicava o meu website onde constavam as canções e o meu contacto telefónico, que me disse que eu devia de estar louca além de que as canções não eram o género dele. Era quase 1h da madrugada quando ele me telefonou.

- Louca porquê?! A ti sucedem-te coisas engraçadas…

- Ele parecia ganzado, pela forma como arrastava a voz enquanto falava ao telefone. Como fiquei triste ele disse: “Olha, não fiques assim! Tá-se bem à mesma! Tens de te habituar a ouvir umas críticas! Deitam a minha música abaixo ao soco e eu faço o mesmo com os outros, neste caso contigo! Quantas bandas já tiveste? Tens experiência? Eu acho que não, além de que tens de melhorar as tuas canções!”

- E tu o que lhe disseste?

- Nada. Mas considerei que ele tinha razão na necessidade de eu melhorar as canções. Decidi-me por regressar, uma vez mais, ao estúdio e regravar todas as canções do projeto português “Incenso”. Depois avancei para uma versão espanhola “Incienso” do referido projecto. Depois, como eu andava toda entusiasmada com o processo criativo, avancei para a concepção de vinte e nove  canções em inglês. Quando dei por ela, tinham passado 8 anos consecutivos de gravações em estúdio! Tinha gravado um total de cinquenta e cinco canções!

- Suponho que a gravação de canções no estúdio seja caro, não?

- De facto é caro… Cada hora de trabalho no estúdio custava-me quase a metade do preço de uma consulta de uma especialidade médica! Uma única canção gasta muitas horas…Adorava fazer e criar mais canções mas, não tenho mais dinheiro além de que tenho agora, uma grande dívida para com o estúdio.

- Quando tu te tornares famosa vais ter dinheiro para fazeres quantas canções tu quiseres! Para já, concentra-te na conclusão do teu livro. Como foi a história dos vídeos para o cantor britânico do capítulo 3?

- Olha, foi uma avaria na aparelhagem de gravação de voz de ensaio aqui em casa que me deu essa ideia. Estando eu farta de esperar pela reparação da mesma, pus-me a escrever algumas letras de canção em inglês destinadas a esse cantor. No capítulo 3 apresento os textos dos vídeos que fiz para que ele soubesse da minha existência e, tomasse conhecimento das referidas letras para canção. Uns meses depois reparei que ele passou a usar o seu blog como veículo principal de comunicação com os seus fans. Havendo aí para os fans um espaço de resposta. No Verão de 2011, nesse blog, fiz uma última tentativa para que ele soubesse da minha existência. As minhas mensagens ainda lá estão!

- O que diziam as tuas mensagens?

- Diziam coisas simples... Eu queria desesperadamente que algo sucedesse na minha vida. Estava farta do meu stress emocional por não saber o que fazer à minha vida quando terminassem as gravações no estúdio. Decidi então, para me acalmar, fazer desporto e entretanto deixar algumas mensagens no blog desse tal cantor britânico.

 - Qual o desporto que praticaste?

- O meu desporto foi cortar todo o mato de uma bouça que o meu pai tinha perto de casa. Em breve o Verão estaria aí e, para evitar incêndios, o mato teria de ser cortado. Disse ao meu pai para deixá-lo para mim, que eu sozinha limpava a bouça toda. Mato, ramos secos caídos pelos vendavais de inverno, folhas dispersas de eucalipto- foi tudo limpo! Sabes o que tinha feito dois anos antes nesta bouça?

- Sexo ao ar livre?!

- Tu muito gostas de brincar comigo! Dois anos antes plantei nessa mesma bouça 100 árvores. Estavam em promoção no hipermercado do centro comercial em cujo parque automóvel eu escrevo dentro do carro.

- Tu escreves a onde?!

- Dentro do carro no parque automóvel do centro comercial! Não consigo estar em casa entre quatro paredes!

- Tu precisas é de arranjar um homem! Que diabo de sítio! O barulho dos carros a estacionar, a arrancar e o CO2 não te incomodam?!

- O parque onde estou é aberto lateralmente e o CO2 dissipa-se. Quanto ao barulho dos carros, este parque tem música ambiente vinda de colunas. Emite desde música pop a rock! Voltando às árvores: comprei aquelas com pior aspeto, aquelas que pareciam que iriam morrer se ficassem naqueles vasos minúsculos mais alguns dias! Parecia que me gritavam: “Socorro!”

- Ninfa! A salvadora de árvores!

- Penso que saberás que o nome ninfa vem da mitologia grega, sendo uma divindade das montanhas, florestas, fontes e animais…

- Quero que me digas qual o conteúdo das mensagens que deixaste no blog desse cantor britânico, podes dizer?

- Claro que posso! As minhas mensagens indicavam o endereço www.ninfa-artemis.com como o sendo o meu website e salientavam que aí ele encontraria os vídeos que fizera para ele. As mensagens também informavam eu estar disponível para trabalhar com ele, prometendo eu que eu só receberia honorários pelas canções se elas se tornassem um êxito estrondoso! Às mensagens eu acrescentava a ideia de que se ele quisesse pessoas criativas, ou originais, ele deveria procura-las entre as pessoas anónimas como eu pois, as pessoas importantes com quem ele trabalhava não trariam novidade alguma, por serem já conhecidas pelo trabalho que desenvolviam. Terminava a mensagem com um singelo elogio à boa equipa dele que o acompanhava em gravação de canções e em digressão. Numa dessas mensagens eu dizia ser possível pensar somente em trabalho pois, eu não tinha grandes airbags (mamocas) e não era nenhuma beleza de Hollywood portanto, seria mesmo só trabalho não havendo distrações!

- Tu és engraçada! E a mesma ingénua de sempre… Eu acho que é muito difícil chamar a atenção das pessoas famosas sobre nós anónimos. Uma vez vi na internet, um vídeo filmado por uma fan, através do seu telemóvel. Um cantor famoso ia dar uma conferência na qual responderia a algumas questões dos jornalistas presentes, relativamente ao lançamento de um novo álbum seu. Para aceder à mesma, o famoso tinha de passar primeiro por um corredor demarcado por um gradeamento cuja função seria separá-lo fisicamente dos fans aí presentes, que o aguardavam. O famoso entra em cena e ao passar pelo tal corredor, uma fan tenta colocar-lhe no bolso do casaco um CD, possivelmente uma maquete dela. Mas ele ia em passo acelerado e ela não o conseguiu. O CD cai sem que ele sequer se tenha apercebido da tentativa da fan. O segurança que ia atrás do “famoso” apanhou de imediato o CD do chão e devolveu à fan. Esta recusava-se em aceitá-lo insistindo para que fosse entregue ao cantor famoso. No entanto, o segurança manteve a sua decisão de devolução do CD à dona. Como vês…é tanta gente a chatear os famosos com pedidos ou, adulação!

- O estarmos a falar em famosos, lembra-me Hollywood! E tal fez-me lembrar uma coisa que me sucedeu tempos atrás: eu tinha pedido a um músico em Los Angeles, que fez a masterização das minhas canções cantadas em inglês (enviei-as pela internet), para me fazer a revisão dos textos que eu iria colocar nos vídeos dedicados ao tal cantor britânico. De início disse-me que estava muito ocupado, mas eu insisti: “Nem que um grupo de extraterrestres invada o seu estúdio exigindo-lhe que também faça a masterização das canções deles, arranje por favor um tempo para ler os textos que lhe envio para correção de eventuais erros gramaticais, ou outros….” Ele respondeu-me dizendo: “Eu, rei dos extraterrestres, vou satisfazer a sua vontade e rever os textos!” Quando me devolveu email com as ditas correções disse-me o que tu às vezes me dizes: que a minha vida dava um filme! Fiquei tão emocionada! Um músico de Los Angeles, a terra onde fica Hollywood, a dizer-me aquilo!

- Imagina o que ele te diria se soubesse toda a tua história! Já fizeste o registo dos direitos autorais das canções?

- Claro! Fiz o registo em Portugal e nos Estados Unidos da América. Sabias que a tradutora deste meu livro, é luso-americana de Nova Iorque, com licenciatura em inglês e bacharelato em Teatro tirados lá? Mudou-se para Portugal! Sabes como a conheci?

- Contigo as coisas são sempre fora do normal…como a conheceste?

- Eu andava à procura de tradutores em escolas de línguas na cidade do músico do estúdio, já que era para lá que me deslocava muitas vezes. Eu procurava alguém cuja língua materna fosse o inglês embora o que eu queria mesmo, era alguém natural dos Estados Unidos da América. Mas eu achava isso impossível de conseguir! Contatei à hora de almoço algumas dessas escolas. Uma delas informa-me que de facto tinham professores de nacionalidade inglesa mas que eu só os encontraria à tarde. Nesse mesmo dia, tinha contatado uma escola mas ninguém tinha atendido o telefone. Ao contactar à tarde a tal escola dos professores ingleses, para confirmar se eu poderia então deslocar-me até lá, não sei como, remarquei no telemóvel, não a escola que tinha os professores ingleses mas, a escola que não tinha atendido. O senhor disse que não estava a perceber a minha pergunta; dizia que deveria de haver algum engano pois tinha apenas uma professora e, a língua materna embora fosse o inglês, ela era luso americana recém chegada de Nova Iorque! Eu respondi: “Perfeito! Passo já por aí!” Incrível, não achas? Uma norte americana em Portugal, tal como eu ambicionava!

- Tu és cheia de sorte e cheia de coisas incríveis!

- Contatar essa tradutora para este livro foi novamente algo incrível! Na mesma noite que cheguei a Portugal fugida de Londres, enviei-lhe um email a inquirir sobre a sua disponibilidade para a tradução de um livro autobiográfico meu. Os dias passaram-se e não obtinha resposta. Passado um tempo enviei-lhe outro email e a situação repetia-se: ausência de resposta! O meu amigo do tarot também me andava a evitar; os músicos de Londres meses antes, após um mal entendido, tinham-se ido embora; a segunda banda londrina levou-me a querer fugir da sala de ensaio…e agora a tradutora que me ignorava! Eu dizia mal da minha vida: “Isto é um pesadelo! As pessoas que eu conheci não existem, andam todos estranhos, seres extraterrestres apoderaram-se do corpo delas e sugaram-lhes a alma! Os filmes de ficção científica que relatam isto são verdadeiros! Estou só neste mundo! Que mal fiz eu para merecer isto?”

- Querida: nem sempre quem nos caga em cima nos está a prejudicar e nem sempre quem nos ajuda quer o nosso bem! Conheces a história? Um passarinho estava a tremer de frio, quase a morrer, num dia rigoroso de inverno perto de uma vaca que lhe caga em cima. O passarinho de início ficou ofendido mas depois viu que a bosta quente o mantinha vivo. Um gato que por lá passava viu-o enterrado em merda e tirou-o de lá. O passarinho achou que o gato era simpático pois este até o estava a ajudá-lo a limpar-se da bosta. Mal ele acabou de se limpar, o gato comeu-o!

- A história que contaste é interessante…principalmente a forma como o passarinho se conservou quente. Essa primeira parte da história eu já a vivi, a segunda parte é que dispenso vivê-la.

-Mal vejas sinais de as pessoas serem de mau caráter, foge!

-Eu precisava mesmo de uma tradutora e então decidi fazer mais uma tentativa. Desta vez via telefone para a casa dos pais. Por sorte, há seis anos atrás, eu tinha memorizado no meu telemóvel o número do qual ela me ligou uma vez dos Estados Unidos da América a partir da casa dos mesmos. Telefonei para esse número. Atendeu o pai que me disse que a filha estava em Portugal e deu-me o contato dela. Enviei uma mensagem escrita para o telemóvel da tradutora, a perguntar novamente sobre a sua disponibilidade –eu já me sentia mal com tanta insistência minha. Ela respondeu dizendo que já me tinha enviado email tempos atrás a confirmar que poderia fazê-lo. Nunca recebi o referido email –vi até na caixa de spam e nada! Imagina se eu não tivesse guardado, após tantos anos, aquele número de telefone da casa dos pais dela nos EUA? Teria pensado que ela se recusava fazer-me a tradução!

- Que barulheira é essa aí?! Gatos a miarem e cães a ladrarem?!

- Tenho quatro gatos e quatro cães aqui na casa de campo dos meus pais! Quando estou a comer, todos eles querem provar seja lá o que for que eu esteja a comer! Os cães embirram com os gatos: querem-nos fora da cozinha. Os gatos por sua vez sobem para cima da mesa da cozinha e tentam cravar as unhas no focinho dos cães se eles se aproximam de mim. Entretanto se me distraio os gatos tentam roubar-me comida do prato... É quase impossível comer em paz!

- A tua vida é mesmo engraçada!

- Eu acho que até em demasia…Prosseguindo então a narração das minhas aventuras no mundo da música: nessa mesma altura em que deixei as mensagens no tal blog do cantor britânico, enviei para uma fábrica de duplicação de CD´s um com vinte canções que resultavam da compilação de canções em inglês dos meus vários álbuns e singles. Os CD´s seriam para ser enviados a várias rádios independentes universitárias espalhadas pela Europa, Austrália, Canadá e EUA.

- Veio alguma coisa boa daí?

- Os que acusaram a receção foram simpáticos e deram feedback positivo no entanto, tal não me levou a lado algum. Os artistas locais têm prioridade, além de que até para esses artistas é complicado a promoção, ou porque as rádios são pequenas e não dão visibilidade suficiente ou porque, algumas rádios apesar de locais comportam-se como grandes rádios e requerem que a promoção seja paga! Tudo isso exige imenso dinheiro. Eu já tinha gasto muito a fazer a duplicação dos CD´s e, em portes de envio, além do dinheiro das mensalidades na amortização da dívida ao estúdio de gravação. Sabias que há artistas, e bandas, que gastam um dinheiro extra para colocarem o seu CD numa embalagem chamativa, personalizada, acompanhada de panfletos igualmente atraentes, para se destacarem de entre os milhares de embalagens de CD´s que vão parar à estação de rádio? Eu já não tinha dinheiro para tal…

- Não existem submissões gratuitas online em sites de música?

- Sim, existem. Contudo as submissões de maior prestígio e as mais promissoras, tais como envio de música para filmes, são pagas.

- Fizeste algumas submissões?

- Sim, submeti algumas canções minhas para fazerem parte da banda sonora de filmes mas nunca se sabe até que ponto o júri que avalia as submissões, e que afirma ter contatos no mundo cinematográfico, tem-nos na verdade. O poder de decisão está com os “music supervisor” dos respetivos filmes.

- Esse júri é formado por músicos?

- Sim. No website onde se fazia a submissão, eles faziam o pedido mais ou menos assim: “Música do género X parecida à do cantor/banda Y e parecido com as canções deles Z1, Z2, Z3 e Z4”. Muitas vezes indicavam o que a letra da canção deveria abordar e as palavras-chave que ela deveria ter em função do tema do filme.

- Porque não vão buscar as canções directamente aos artistas/bandas que querem que o artista/banda que eles procuram se pareça?

- Porque fica muitíssimo mais caro! São bandas/artistas famosos daí serem uma referência! Muitos filmes têm um orçamento limitado. Um artista anónimo fica quase de graça! Quem é músico, e tenha forma de gravar com qualidade mínima as suas músicas, pode criar intencionalmente uma canção com as características pedidas e submete-la para apreciação. Outros submetem as canções que têm, como no meu caso! O feedback que o júri por vezes me dava, referia-se à minha dicção, outras vezes era a letra que não era adequada ao que pretendiam, noutras era o género musical que estava desenquadrado. Eu comecei a pensar: “Já que a maioria de vocês, júri, é composto por músicos, façam-nas vocês mesmos!” Sabes qual foi a crítica que me fizeram à letra da canção “Love” que lhes submeti para um anúncio publicitário, que segundo eles envolveria crianças, família e amor incondicional?

- Estou curiosa…qual foi?

- Eu pensei que o meu tema “Love” poderia servir mas disseram-me que não. Parece que a minha dicção dificultava a perceção das palavras -eu tinha batalhado imenso para aperfeiçoar o inglês em todas as canções, ouvindo as frases das minhas letras no áudio de tradutores automáticos de texto online na internet, além de insistir comigo para regularmente ver filmes norte americanos mas parecia que não tinha sido suficiente. Além da dicção, alegaram que o género musical da canção em causa, não era adequado e que a letra era egoísta!

- Eles revelaram quem tinham selecionado de entre as várias submissões?

- Nunca o revelaram. Mudando de assunto, já visitaste o meu website?

- Claro! O teu website ficou bonito, foste tu que o fizeste não foste?

- Sim, fui eu. O músico do estúdio considerou o meu website demasiado hippie e mostrou-me como um bom exemplo de um website de um artista/banda, o do seu filho. Este estudava na universidade tendo a música como atividade paralela. O filho do músico tinha uma banda de rock/metal e no seu site constava um vídeo sobre a gravação de uma canção no estúdio do pai, ainda um outro vídeo com extratos de atuações ao vivo, além de links para outros websites da banda e para críticas positivas que lhes tinham sido feitas por alguma rádio ou, revista de música.

- Fiquei a saber que o teu grupo sanguíneo é O Rh positivo! Está no bordo inferior do teu website!

- Fartei-me de pôr o meu grupo sanguíneo em websites de música destinados à minha apresentação/biografia: “O meu nome é Ninfa Artemis. Sou autora e compositora de todas as canções que interpreto. O meu grupo sanguíneo é O Rh +”.

- É habitual um artista apresentar-se dessa maneira?

- Não. A norma costuma ser uma biografia em que o artista cita a sua experiência musical, bem como indica nomes de bandas/artistas com as quais se identifica musicalmente além de mencionar locais onde já atuou etc. Chegou o momento de te falar dos anúncios que me levaram até Londres, queres ouvir?

- Claro! Finalmente a história de Londres!

- Ah! Esqueci-me de te contar umas coisitas ainda muito antes de Londres! Meses após o rompimento com o cantor do capítulo 4, eu enviei à editora multinacional que o representava, as letras do projeto “Incenso”. A editora disse que me iriam contatar muito em breve mas, nunca o fizeram. A editora faltou ao prometido.

- Alguma vez soubeste o porquê?

- Não. Olha, ainda bem que a editora saiu de cena porque assim tive liberdade para fazer o quis e conforme quis! Muitas canções! Em espanhol e inglês! Avancei mais que o tal cantor! A editora multinacional agora já nem tem sede em Portugal! A crise de vendas é tanta que muitas multinacionais fecharam os escritórios, incluindo a editora dele! Ainda bem que não assinei contrato com essa editora! Assim conservo os meus direitos autorais, faço a gerência da minha carreira musical conforme quero e avanço na direção que aponto para mim mesma. Tenho liberdade! Não preciso de aprovações!

- És totalmente independente! Sabes que há dias dei comigo a rir sozinha na rua, quando ia do trabalho para casa? Não sei como, lembrei-me duma coisa que me contaste anos atrás!

- De que é que te lembraste? Tem a ver com música?

- Não, mas fez-me rir. Uma vez contaste-me que uma colega tua no emprego te perguntou se havia alguma coisa passível de ser adicionada a um copo de água que permitisse pôr o marido a falar enquanto este dormia, pô-lo em hipnose…lembras-te?

- Sim lembro. Fiquei pasma com pergunta dela pois eu nada sabia do assunto…

- Depois ela disse-te que alguém lhe confidenciou que se ela pusesse o dedo mindinho na boca dele enquanto dormia, isso bastaria para ele responder a todas as questões dela! Ela chegou a fazer isso?

- Não sei…Ela era estranha e muito desconfiada! Ela já não trabalha, demitiu-se do emprego! Dizia ela que não precisava de trabalhar, muito menos ter um emprego chato! O marido era um empresário de sucesso, ele tinha dinheiro para ela gastar! Sabias que nos tempos do cantor do capítulo 4, eu comprava champôs em promoção?

- E desde aí nunca mais compraste champôs em promoção? Trauma?

-Não gozes! Uma vez apanhei diversas promoções de champôs num hipermercado: estavam 50% mais baratos. Dado que tenho cabelo comprido, gasto imenso champô e portanto, considerei que seria bom poupar dinheiro aproveitando essa promoção. Entusiasmei-me de tal maneira que quando dei por mim tinha comprado, num mês, 100 champôs de 500 ml. Pensei: “Este champô todo vai dar para 50 meses ou seja, quatro anos e dois meses! Nessa altura será que a minha vida estará fantástica? Mágica? Fenomenal? Acho que sim!” Tantos anos após ter gasto esses 100 champôs…olha só onde eu estou! Aqui no meio do nada e do vazio!

- Achas que estás no “nada”?! Tens imensas canções feitas e um livro quase pronto! Tu estás a pôr-te no mundo! Uma canção influencia um momento e um livro influencia uma vida; uma canção tem poderes e um livro tem super poderes! Tu estás-te a colocar no centro do mundo!

- Há uma poeta dentro de ti!

- Tu estás no bom caminho. Tenta manter a calma e assim que te for possível arranja um homem: bom, sensível, amigo, autoconfiante e de caráter vincado que te possa apoiar em momentos difíceis da vida. E ainda te quero dar mais um conselho! Quero que prestes bem atenção ao que te vou dizer: o cantor do capítulo 4 há muito tempo que já desapareceu da “fama” e os seus “contatos” internacionais não o salvaram do esquecimento a que veio a ser votado. Ele anda por aí. Relativamente aos músicos de Londres, esses também andam por aí e ninguém sabe sequer que eles existem. Toda esta gente te subestimou e ainda bem que o fizeram pois, não precisas de gente como aquela por perto, só te dariam azar! No entanto quero-te aconselhar a que na próxima vez não sejas tão ingénua na forma de lidar com as pessoas: não dês a conhecer o que te vai na alma…nem que estejas a ser trespassada por mil espadas cortantes. Se estás num posto de liderança tens de ser forte! Sorri sempre na adversidade para que te julguem forte e te respeitem. Não podes deixar que te leiam a alma. Que te sirva te lição o que tu viste!

- Eu não lhes quero mal…eu vi que a vida de músico não é fácil…

- Querida: não podes perdoar o que te fizeram. Além do mais qual é a vida que é fácil? Até os ricos têm preocupações tais como matar o tédio ou fugir dos falsos amigos!

- Eu nunca te contei um sonho que tive poucos dias depois de ter rompido com o cantor do capítulo 4…Esse sonho era estranho. Creio que me anunciava uma mudança de vida através da morte de tudo o que eu havia conhecido antes e que eu, teria um longo tempo de espera até a nova vida chegar... Eu estava num cemitério…

 - Vais contar-me um sonho em que andaste sonâmbula por um cemitério vestida de estilo gótico, pálida, longo cabelo preto e lábios pintados de vermelho?

- Onde foste buscar essa ideia?!

- Não sei…posso pedir-te um favor? Só mais um poema daqueles que excluíste do capítulo 5, um que seja super estranho e sensual, antes da cena do cemitério!

- Já estou arrependida de ter excluído os poemas mais bizarros! Deixa-me cá ver por entre os poemas…ouve este: “Eu estava sem cuecas quando vesti as calças de ganga e puxei o fecho éclair. Algo de mim ficou entalado nesse fecho metálico. Doeu que se farta, gemi e depois vários palavrões disse. Tu estavas na casa de banho a barbear-te. Aproximei-me de ti com a calça de ganga justa e rabo empinado. Deste-me uma palmada no traseiro!”

- E depois?

- Não há depois…terminou o poema!

- Parece aquele poema dos papagaios que pousaram no capot do teu carro! O bizarro está na forma como terminas os teus poemas! Tinhas de dar continuidade! Neste caso podia ser algo do género: “Deste-me uma palmada no traseiro. Paraste de te barbear. Olhaste para mim com apetite. Desapertei o fecho éclair e tu chegaste atrasado ao trabalho!”

- Já agora podias ter prosseguido e acrescentado: “Chegaste atrasado ao trabalho. O teu chefe perguntou a razão do teu atraso. Disseste: sexo! Ele respondeu: você é um brincalhão! Foi o trânsito nesta maldita cidade, certo?”

- O poema não acaba aí e prossegue: “É verdade que houve trânsito mas também acordei, tive sexo, fui para o duche e agora estou a aturá-lo a si, chefe!”

- O chefe responde: “Hoje não estou para gracinhas! Vou descontar-lhe no ordenado este atraso ao serviço e vai trabalhar até um pouco mais tarde!”

- Ele responde: “Chefe! Vá se foder!” Conta então o teu sonho no cemitério…

- Nesse sonho eu via um vulto que sabia ser eu. Não obstante, não lhe conseguia ver o rosto por ele estar de costas voltadas para mim. Ele vestia um longo sobretudo preto até aos pés. Eu estava num canto escuro atrás dele mas afastada e, de tão escuro que estava não conseguia ver sequer o meu corpo. O céu era de total escuridão e abaixo dele a destruição era avassaladora apenas restando uma cidade fantasma: pessoas não havia, vegetação não se avistava. Nenhuma planta, nenhum animal, nenhum ser vivo e o dia não existia. Apenas um céu negro que toda a luz absorvia. O vulto parecia ser o único ser vivo ali e ele parecia sabê-lo. Esse vulto imóvel permanecia e de cabeça levantada, observava aquela cidade que lembrava um cemitério. A cidade estava cheia de cúpulas de catedrais que se elevavam a partir lá do fundo do abismo até aos níveis dos olhos do vulto. A cidade reerguia-se tão lá do fundo, que era rodeada por uma neblina negra que deixava somente visíveis as referidas cúpulas de pedra de cor branca manchada de um cinza defunto. Somente essas cúpulas emanavam claridade, tornando-se visíveis a elas mesmas e sobejando ainda para eu poder ver o vulto à minha frente. Esse vulto tudo contemplava com muita quietude. Ele, o único ser vivo ali presente, continuava imóvel... Andei anos a matutar porque é que esse vulto permanecia imóvel! Não parecia sequer ter medo! Só há bem pouco tempo percebi porque ele permanecia imóvel e contemplativo naquele cenário apocalíptico! Paciência e fé! Percebes?

- Amém! Ou talvez esse vulto imóvel estivesse simplesmente à espera que tu chegasses a Londres! Conta-me essa cena dos anúncios em Londres…

- Ok, eu conto-te. Em setembro de 2010, conforme te contei há bocado, quando eu conduzia para o estúdio de gravação e me interrogava sobre o que fazer quando as gravações ficassem todas concluídas, eis que uma voz me sussurra: “Londres”! Desde esse instante eu vaticinava, quase diariamente, ao músico do estúdio de gravação que eu iria atuar em Londres. Ele sempre pensou que fosse um devaneio meu mas mudou de ideias em março de 2012. Eu estava decidida a pôr em prática um plano de ação para ir de encontro à minha ideia fixa que ele ouvia, quase diariamente, há já dezoito meses. Inquiri-o sobre o conteúdo do texto, e a melhor abordagem à temática, para o meu anúncio à procura de músicos em Londres que seria feito através de websites especializados. Ele sempre se esquivava respondendo: “Depende.”

- Depende de quê?

- Era isso que eu lhe retorquia. “Depende…pois cada caso é um caso único” -acrescentava ele. Eu ficava a saber o mesmo que instantes antes.

- Fizeste pesquisas na internet para esse teu plano de acção que consistia em anúncios?

- Sim. Fui à internet pesquisar websites britânicos que alojassem anúncios relativamente à procura de músicos. Acabei por utilizar aquele que surgiu no topo da listagem relacionado com as minhas palavras-chave na busca: “anúncio online, procura de músicos ou bandas, Londres”.

- Quantos responderam ao teu anúncio?

- Ninguém. O anúncio tinha sido colocado em Abril e um mês após continuava sem qualquer reacção: ninguém tinha respondido. Eu deduzi que deveria de haver algum problema na forma como eu expunha a minha situação no mesmo. Eu pedia uma banda completamente formada que não se importasse, de paralelamente às suas próprias canções, de aprender algumas minhas e atuar comigo ao vivo. Eu até dizia que não me importava que eles cantassem algumas das suas próprias canções, com o seu vocalista de banda, no mesmo espetáculo que eu mas, ninguém respondeu.

- Qual foi a solução que encontraste para essa ausência de candidatos?

- O músico do estúdio sugeriu-me a dispensa da presença de uma banda ao vivo e a optar pelo recurso à utilização da versão instrumental gravada. Assim bastava-me cantar por cima da mesma. Mas ao pesquisar locais de “música ao vivo” em Londres, constatei que eles não admitiam tal, sendo o termo “ao vivo” tomado à letra. Decidi então, vasculhar os anúncios lá colocados no website. Enviei emails a alguns músicos que eram professores a oferecerem os seus préstimos a eventuais alunos; enviei emails a bandas de covers que se ofereciam para tocar em festas; enviei a bandas completas que tinham anúncio à procura de um músico para substituir um que tinha saído…Eu fartei-me de lhes expor a minha situação. Apesar de todos os meus esforços, eu continuava sem resposta! Havia agências profissionais de músicos em Londres cujos serviços eu poderia contratar mas, as quantias monetárias envolvidas eram elevadas para as minhas posses económicas.

 

Copyright © 2017-2021 NINFA ARTEMIS