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Capítulo 4

P3Encontro

 

Data: Sábado,  22 Maio 1999    14:29h,  *Assunto: “Umbigo”

Numa conversa entre amigas, uma delas dizia que as mulheres não são menos que os animais: “Por exemplo, nunca se viu uma abelha a pavonear-se provocantemente  em frente ao macho para o conquistar!  Portanto,  quieta!  Ele que tome a iniciativa!” 

Visualizando a imagem até tem graça... uma abelha de batom, em saltos altos, usando lingerie e as antenas (não têm cabelo) soltas no ar e ainda... a pavonear-se (esta palavra tem origem na palavra pavão, acho eu).

Eu estou, em casa: calças, top e umbigo à  mostra.

O rádio está ligado. Esta música é  boa!  Estou a dançar e a abanar o traseiro! Estou a dançar em frente ao espelho. Pretendo ver ao espelho, apenas uma particularidade: o meu umbigo. Coloquei nele uma granada sangue vermelho. Parece que se segura sem cola. Se cair, porei cola de colar unhas postiças.

Se te for possível, escreve alguma coisa. Não estou à espera que me queiras conhecer pessoalmente já…penso que estejas em Portugal (por uma entrevista que deste a uma revista portuguesa cá). O teu tempo está cronometrado e talvez andes a dormir depressa, em todo o caso se puderes escreve-me. Abraço

 

Data: Quinta-feira,  27 Maio 1999    11:55h,  *Assunto: Re: “Umbigo”

O meu tempo continua de facto cronometrado. No entanto subsiste a vontade de te

conhecer.  Escreves como ninguém. Os teus textos são momentos de raro prazer ao fim da noite. Porque não vens à cidade, ao meu estúdio de música, esta semana?

 

Data: Quinta-feira,  27 Maio 1999    20:35h,  *Assunto: “Ida à cidade”

Olá!

Durante a semana fica complicado para mim pois trabalho…e a tua cidade não é tao perto assim…poderá ser sexta-feira à noite? 22h, é possível? Como saio do emprego ao final da tarde, preciso de tempo para me deslocar até aí e antes, preciso de ir a casa mudar de roupa, por isso seria mais conveniente ser às 22h… Ou então sábado ou domingo. a qualquer hora –não trabalho.

No teu estúdio de música? Ok. Tenho a morada. Pesquisei na internet.

O que penso fazer é ir até ao centro da cidade e aí apanhar um táxi para o destino, caso contrário, terei de parar o carro constantemente para pedir “orientações” a transeuntes casuais, ficando eu assim, dependente da atenção que me queiram dar pois, não estou familiarizada com essa cidade. Abraço

 

Data: Quinta-feira,  27 Maio 1999    23:19h,  *Assunto: Re: “Ida à cidade”

Às 22h, amanhã, sexta-feira, no meu estúdio de música. Serve?

 

 

 

Data: Sexta-feira,  28 Maio 1999    0:04h,  *Assunto: Re: Re: “Ida à cidade”

Ok. Está combinado

 

Data: Sábado,  29 Maio 1999    02:54h,  *Assunto: “Mail”

....não sou calada a escrever, mas hoje, receio que sim.

Acabo de chegar do teu estúdio de música. Adorei conhecer-te! Pediste-me para te escrever algo quando eu chegasse a casa. Elogias-te a minha beleza…És um pouco exagerado, não achas?…eu não sou bela…tenho cicatrizes no rosto pois em tempos tive um acne horrível e ficaram marcas. Tu és o máximo! Foi muita emoção e esta continua a correr-me nas veias! Quando vieres outra vez a Portugal, avisa-me! Ok?

 

Data: Segunda-feira,  31 Maio 1999    00:12h,  *Assunto: “30 junho”

Olá!  

Estou muito bem disposta! Para te dar ânimo, para que tudo te corra bem na preparação do teu novo CD, vou escrever-te todos os dias até ao dia 30 Junho...em plena época de exames, mas eu arranjarei tempo para te escrever! Quero contar-te coisas!

Espero que o teu trabalho no CD se esteja a desenrolar ao ritmo que planeaste.

Agora…o que irei fazer antes de dormir? Talvez observe o teto do meu quarto que é de madeira, pode ser que encontre uma traça a tentar roê-lo.

Desejo-te um bom trabalho! Abraço, até amanhã!

 

Data: Terça-feira,  01 junho 1999    02:01h,  *Assunto: “Adoram-te!”

De vez em quando leio o teu guest book. As “gatinhas” adoram-te! Como te podes sentir só? Duvido

 

Data: Quarta-feira,  02 junho 1999    00:55h,  *Assunto: “Ciúmes”

É sempre bom ouvir as tuas músicas... têm sempre um efeito fantástico em mim! 

Até amanhã

 

Data: Quinta-feira,  03 junho 1999    19:20h,  *Assunto: “Fiambre”

Olá! Estive a correr. Soltei o nosso outro cão. É ainda jovem. Gosta de mostrar os dentes às pessoas que passam no caminho junto à vedação da casa (gosta de fingir que é mau para os estranhos). Também não gosta de estar preso. Ele circula em liberdade pois o terreno à volta da casa está vedado, e inclui um jardim, mas ele considera que está preso! Costumo soltá-lo de manhã cedo. Abro a porta da vedação e deixo-o correr para os campos.

Ninguém cá em casa solta aquele cão pois dá uma trabalheira danada convencê-lo a regressar a casa! Sou eu que o solto e portanto sou eu que o tenho de o obrigar a regressar a casa!

Por vezes, quando estou quase apanhá-lo pela coleira, ele diz-me: “Apanha-me se fores capaz nhé-nhé!” –diz isto com ar desdenhoso, zombeteiro e de convencido de que eu o adoro! Então começa a minha correria! “Anda cá!” –digo eu. “Não, não vou!” –diz ele. “Para de correr pelos campos, estou cansada de correr atrás de ti!” –digo eu. “Não, não paro! Eu adoro correr! Eu sou incansável! Lá-lá-lá!” –diz ele.

O que vale é que eu tenho sempre fiambre guardado no frigorífico. Correr dá-me calor! O fiambre é para eu me refrescar! Porque quando mostro o fiambre àquele cão danado, ele facilmente me segue até casa e não preciso de correr mais!…isso é refrescante para mim! Posso finalmente parar de correr!

Não faço a mínima ideia sobre o que te escreverei amanhã Abraço

 

Data: Sexta-feira,  04 junho 1999    19:25h,  *Assunto: “Perde o juízo”

...Escreve sobre o que te passa pela alma, pelo coração, pelo corpo...

Não corrijas! Mostra-me o que escreveste, não te detenhas!... Até amanhã

 

Data: Sábado,  05 junho 1999    23:28h,  *Assunto: “. . .”

Rouba-me... o quê? Sei lá…

 

Data: Domingo,  06 junho 1999    01:02h,  *Assunto: “Fogueira”

Sou uma feiticeira.

Dançar nua de cabelo compridos soltos à volta duma fogueira, serve como prova?

 

Data: Segunda-feira,  07  junho 1999    00:22h,  *Assunto: “Hei...”

Hei...chega aqui...é só  para dizer que esta semana deixei um comentário no teu guest book.  Disfarcei-me mas reconhecer-me-ás. Fui atrevida.

Ontem andei a arrumar e a limpar, muito bem, a casa. Deu-me para isso: limpezas rigorosas. Que canseira!! Cinco horas em limpezas! Os olhos vislumbram, aparentemente, poucos feitos mas na verdade trabalhei bastante. Comecei pela casa-de-banho, tendo despejado detergente líquido por ela toda. Com a mangueira do duche borrifei muita água para as paredes de azulejo e agora? Esfregar! Paredes, chão, lavatório etc. tudo! Limpezas! Tu não fazes limpezas lá em casa, pois não?

Não me atrevi a fazer estas limpezas vestida normalmente: ficaria com a roupa molhada e manchada de detergente a secar-me no corpo!...fiz a limpeza em roupa interior apenas!

Odeio as segundas feiras! Está  tudo bem contigo?

 

Data: Terça-feira,  08  junho 1999    00:47h,  *Assunto: “Silicone”

Tenho silicone no ouvido há  já quatro horas. Na natação, uso sempre tampões de silicone para os ouvidos. Fiz asneira. Não sei como, empurrei o silicone para dentro do canal auditivo. Espero conseguir dormir com isto no ouvido, a não ser que comece a causar-me dores. Amanhã de manhã, tenho de conseguir um otorrino nas urgências do hospital, o mais rapidamente possível! Boa-noite, até amanhã.

 

Data: Quarta-feira,  09  junho 1999    00:59h,  *Assunto: “Buzinar”

Olá ! Já  estou com o ouvido desentupido. Que alívio! Tive sorte nas urgências, foi rápido. Apenas aguardei  2 horas!

E após isso o que me sucedeu?!

 O meu carro, nas curvas e contra curvas, e somente aí, buzinou completamente sozinho, sem intervenção minha.

Por razão desconhecida passou a existir uma ligação eletrónica entre a buzina e o volante no momento em que este rodava para realizar as curvas e contra curvas.

O condutor à minha frente dava-me expressões interrogativas através do retrovisor, seguidas de expressões super interrogativas por não perceber as explicações gestuais que eu lhe estava a dar.

Após trinta e cinco minutos e, após mais do quadruplo do número de curvas realizadas,  o carro começou a buzinar sem se calar.

Desesperada com a barulheira e farta dos olhares dos condutores, parei o carro, saí do mesmo, cruzei os braços e pus-me a olhar para ele com cara de “quando te cansares calas-te”. 

Passado pouco tempo, um camionista e dois carros ligeiros pararam.

Agora éramos 4 pessoas caladas a olhar para um carro que buzinava sem se calar! Os ouvidos e os nervos quase a explodirem!  Até que um deles desligou a buzina. Obrigada! 

 

 

Diálogo 6 * colega de trabalho * Quarta-feira,  09 Junho 1999    21:00h

- Olá bombom famoso!

- Olá bonitona!

- O que me contas anjinha querida? Eu não te pedi, mas sei que me trouxeste mais novidades textuais, não é verdade?

- Trouxe-te...mas não sei se as tuas interpretações irão pôr em acordo entre si as contradições que começaram a acontecer.

- Ela hoje está um bombom à moda poética!

- E também um bombom que ontem se livrou de dois problemas: silicone no ouvido e uma avaria no carro que fazia buziná-lo cada vez que eu rodava o volante. Aliás, o carro está com a buzina desligada! Tenho de ir à oficina. Já viste?!  Se  eu quiser  buzinar,  não  posso!  É um perigo.

- Pois…não podes buzinar para alertar outro carro! És um bombom mimado! Tu queres buzinar mas o teu carro não te deixa e isso chateia-te! Tu e o fulano cantor já se buzinaram um ao outro? Já se encontraram?

- És uma curiosa...

- Querida, eu estou bem! Eu, ando na maior, ao contrário de ti! Tenho alguém com quem fazer loucuras, vou vivendo a vida e não sonhando a vida, o amor ou outra merda qualquer. Há que estar na ação e não na fantasia. Dei uma saltada rápida à praia este fim-de-semana. Fui com um tipo que conheci há dois meses atrás. Está a ser um recorde este relacionamento: dois meses!

- O mar estava bonito?

- Sim...pretendíamos apenas passear um pouco pela areia mas, acabámos ficando horas deitados no areal. Como eu estava um pouco branca, despi as calças. Fiquei apenas em cuecas e t-shirt a ver o mar. Não levei biquíni pois parecia que ia chover mas depois o tempo ficou impecável. Como poderia ter adivinhado que seria um dia fantástico de praia?! De manhã, ao acordar, andamos naquilo que tu sabes...sexo duro! Ficam-te bem as calças de ganga justas com o casaco de couro de fechos laterais! Hoje é só para tomarmos um copo juntas, não é verdade? Já jantaste, não?

- Sim. Tu?

- Jantei uma coisa rápida: batatas fritas e hamburger. E tu?

- Sopa e arroz com muitos legumes…Quem cozinha na maioria das vezes é  a minha mãe. Diz ela que estas comidas modernas não dão saúde a ninguém! Como temos legumes nos campos a minha mãe põe-nos na comida: “Fazem-te muito bem! Põem-te muita vitamina no sangue!” -diz ela.

- Muito bem! És um bombom vitaminado!

- Ficámos neste café desta zona do centro comercial ou vamos para aquele  ali mais adiante?

- Por mim, serve este...acho que vou pedir um cafézinho, um copo de água e talvez um sumo de laranja. Preciso de me vitaminar, já que não ando a comer sopa! Acho também que vou estrear este maço de cigarros que acabei de comprar... Não te preocupes bombom, vou tentar soprar o fumo o mais alto que eu conseguir para não intoxicar os teus pulmões de anjinha!...

- Já agora, vê se evitas que eu fique com o cabelo e a roupa a cheirar a tabaco, bonitona! O teu fumo de cigarro…pareces uma chaminé.

- A tua paixão tonta por esse fulano cantor… Para quê? Um dia ninguém mais ouvirá falar dele. No mundo artístico é tudo tão efémero…Mas esta conversa nós já tivemos antes, correto? Mas nada do que eu possa dizer te irá convencer, pois não? Andas noutro planeta, na lua... sei lá!

- Ou ando em Vénus ou sou um satélite ou afogo esse teu cigarro ou faço-te uma careta ou favas... Queres ver os textos?

- Claro! (...) Isto é que são novidades! Patins em linha! Atirar facas a uma tábua! Chamar nomes ao cantor do tipo “Magnético e Diferente!”, acho que ele gostou. Gostas de ver filmes pornográficos?  Podemos ver uns em minha casa, o que dizes?

- A que propósito vem isso dos filmes?! Tu tens umas mudanças bruscas de assunto…

- Porque não?! Era capaz de ser divertido. Ok, voltando a esse fulano cantor…diz ele aqui neste texto que cresce a curiosidade dele em te conhecer. Já se conheceram, não é? Conta-me coisas, querida!

- Sim conhecemo-nos, três meses e meio após essa coisa da curiosidade dele. Eu pensava que ele estava no estrangeiro mas a minha mãe tinha-o visto numa curta entrevista num programa televisivo em direto feito cá em Portugal e, tive então a ideia de “forçar” o encontro. A minha mãe acha que escrever-lhe é uma grande maluquice que irá dar em nada e, só eu é que não vejo isso. Segundo ela, um homem daqueles tem muitas mulheres e a nenhuma fará feliz. Também considera que cantores do género dele regulam mal da cabeça devido aos muitos pulos que dão em palco pois, tal fará com que cérebro se desloque um pouco dentro da caixa craniana.

- A tua mãe questiona a tua atitude que consiste em excessos de atenção para com a pessoa dele sob a forma de emails e eu também questiono isso…até ele próprio se deve questionar! Diz-me: o que pretendes? Achas que ele é homem para ti? Ele é a solução que procuras para seres feliz? Querida, vais dar-te mal…muito mal.

- Falando agora da demora dele em marcar o referido encontro…Sempre atribuí a causa dessa demora a uma possível estada, temporária, dele no estrangeiro ou a uma falta de tempo por o novo disco estar a sair em breve. Eu aguardava... De vez em quando, por estar desejosa de saber coisas acerca dele, consultava o guest book do site dele e, embora nunca desse muita importância ao que lá lia, havia uma ou outra coisa que eu ia apanhando com base nos comentários lá deixados. Lembro-me de uma mensagem datada de fevereiro, em que uma tipa dizia ter adorado ter estado com ele e indicava o local do encontro –era aqui em Portugal. Havia também uma mensagem em francês, de uma outra, a insultá-lo, datada do início do mês de maio. Esta perguntava como era possível ele cantar o amor se ele nem sabia o que isso era, que ele era bruto e que ela o conhecia muito bem…

- Olha, o que eu acho é que ele está apenas alguns dias no estrangeiro e a maioria das vezes por cá… Penso que ele, quando não está nas gravações no estúdio de música, andará no engate na internet ou por onde calha! Querida, tu estás a ser tonta, é o que eu acho. Também acho que ele mente para impressionar as garotas. Vai dizendo que está em Paris, Londres, Nova Iorque ou outro sítio qualquer! Ele até pode ser um mentiroso compulsivo, sabe-se lá! A verdade é que tu não o conheces. Toma cuidado porque há quem se queixe dele: de vez em quando aparece um comentário desfavorável no guest book dele que depois é apagado por quem gere o site…alguém vai eliminando certos comentários. Porque ando preocupada contigo, vou lendo o tal guest book dele. Não sei até que ponto ele será de confiança, além de que acredito que também dará atenção a garotas bem jovens bastando elas terem a idade mínima legal para praticarem sexo com um adulto… Algumas parecem tê-lo conhecido de uma forma bastante íntima, tendo em conta as insinuações que por lá pairam, por parte de algumas fans ainda teenagers... Cuidado com esse fulano, tu não andas à procura de diversão, tu queres algo mais sério. Ele está numa onda totalmente contrária à tua, estou a avisar-te.

- Achas que ele é assim tão vulgar?!

- Querida, ele é homem, é artista e é super vulgar! Embora ele fale bem, abusando de palavras eruditas ao dar uma entrevista numa revista qualquer, e mostre toda a sua cultura geral de família abastada onde ele foi criado, talvez ele seja vulgar…talvez ele goste de chafurdar na merda.

- Será?! Bem…aquela francesa que deixou lá o comentário além de lhe chamar egocêntrico e arrivista, caracterizava-o também como um homem que vivia apenas para o seu próprio prazer e prosseguia: um egoísta, um fingidor e finalizava dizendo: “Como te atreves a cantar o amor se tu não sabes o que isso é! És falso!”

- E?

- Sim?!

- Querida, há mais alguma coisa nessa história que não me estejas a contar? Eu conheço-te…

- Comecei a corresponder-me com essa francesa!

- A sério?! Falas francês?! Não sabia.

- Eu percebo mal o francês…tive de recorrer a um tradutor automático de texto online para perceber exatamente o que a francesa estava a querer dizer no tal guest book. Ela tinha deixado o seu próprio email, caso alguém quisesse escrever-lhe para saber algo mais. Eu escrevi-lhe em inglês a perguntar se ela conseguiria expressar-se comigo nessa língua. Ela respondeu dizendo que conseguia entender mas tinha dificuldade em expressar as ideias em inglês. Então eu disse-lhe que ela me poderia escrever em francês e eu a ela escreveria em inglês e assim foi!…Eu conseguia perceber o francês dela e ela o meu inglês! Quando havia mais dificuldades usávamos um tradutor de texto online…

- Muito bem! Tens ideias!

- Apresentei-me como uma simples fã mas muito bisbilhoteira. Eu não magoei ninguém com esta brincadeira por isso estou de consciência tranquila… Ela estava mesmo muito ressentida com ele.

- E que mais sabes acerca dela?

- Ela era recém licenciada e trabalhava numa empresa multinacional. Dava para ver que também era orgulhosa e nunca me quis revelar a razão do ressentimento para com ele mas, simpatizou comigo. Disse-me que tinha cá família em Portugal e que os avós tinham emigrado para França há muitos anos atrás. Ela vinha cá todos os anos com os pais mas os avós já haviam falecido. Disse-me que conseguia perceber o português mas que fala-lo era-lhe muito difícil por falta de hábito: em casa falava em francês com os pais. Também me revelou que se interessava pela adivinhação do futuro através do tarot, até me lançou as cartas para mim e disse-me o que via!

- E o que viu?

- Coisas do costume: encontros e desencontros…

- No guest book dele também havia comentários em outras línguas, além de português, francês e espanhol. Era alemão, sueco, finlandês e sei lá que mais. Elas diziam que o conheceram no aeroporto, no hotel… Olha, sabes com quem te estás a meter anjinha?! Se ele tiver namorada, diz-lhe que não conhece nenhuma dessas fulanas, que é tudo invenção delas! Ele pode ser mentiroso, manipulador, um agressor psicológico ou outra coisa qualquer. Acerca dele nada sabes! Eu acho que me ando a repetir contigo nos alertas acerca dele!

- Quem sabe se ele não anda perdido, cansado de tudo? Ele queixou-se de falta de inspiração a mim quando eu o conheci pessoalmente…

- Coitadinho!… Falta de inspiração!… Que vá cavar terra! Um pouco de contacto com a realidade fazia-lhe bem. Não penses que és especial para ele…outras fulanas também andarão interessadas nele e ele interessado em dar-lhes atenção. Não quero que sofras um dia por causa  dele.  Ele   não  te merece! Estás a ouvir-me?!

- Não te preocupes. Eu sempre peço a Deus que transforme na minha vida, o mal em bem. Se toda a minha história com ele der para o torto…algum bem virá daí.

- Que Deus também te dê flexibilidade, quer de alma quer na tua cisma por ele!

- Mas tu não és ateia?!

- Sou querida mas é altamente provável que haja uma força maior. Se se chama Deus ótimo. Só espero é que Ele exista e te ajude. Estás a caminhar para o abismo querida. És forte mas também muito frágil…és muito impulsiva, não tens controle sobre as tuas emoções. No campo criativo isso até pode ser bom mas neste mundo filho da puta, isso é péssimo querida…

- A vidente do Brasil disse que eu seria famosa que ele seria a porta…

- Ele quem?! O fulano cantor?! Ele ajudará se isso o ajudar. Se for algo que o publicite! Como esses concertos de solidariedade em que todos fingem ser bonzinhos ou então em parcerias tipo duetos, sei lá, de projetos musicais de alguém famoso em que isso atrairá uma atenção significativa sobre ele. É assim que eu vejo as coisas. Tu és aquilo que eles apelidam pela frente, de forma educada, uma anónima e pelas costas, apelidam de zé-ninguém. Então ele vai ser a porta?! O que é que ele vai fazer por ti?

- A minha mãe disse-me que a vidente brasileira tinha de dizer palermices...ao preço que ela me estava a cobrar pela consulta só podia mesmo dizer coisas fantasiosas. Se fossem coisas tristes eu poderia sair de lá a chorar e esquecer de lhe pagar, diz ela.

- A tua mãe é inteligente, devias dar-lhe ouvidos. Conta lá, como foi o teu encontro com o fulano cantor?

- O encontro foi há uns doze dias atrás, a vinte e oito de Maio, sexta-feira. O encontro estava marcado para as dez horas da noite, no estúdio de música dele. Apareceu com vinte e cinco minutos de atraso. A desculpa dele foi culpar o carro.

- Culpou o carro?

- Sim...disse-me sorrindo: “ Foi este carro!“ -disse isto elevando ao de leve a mão na direção do carro, como se o acusasse de desobediência. Se o carro pudesse falar dar-lhe-ia, ali mesmo, uma boa resposta! Imagina: um carro novo e de aspeto veloz alguma vez poderia ter culpa no atraso?! Já reparaste que ele consegue falar (nas entrevistas) sem mostrar os dentes? Aliás os homens são quase todos assim... Já reparaste? As mulheres é que mostram tudo...Tenta falar para mim sem mostrar os dentes. Fala mais um pouco... não… não consegues, estou a ver muitos dentes. Já tentei e também não consigo.

- Ele culpou o carro, consegue falar sem mostrar os dentes e também sorri! Ok, com certeza que também vai à casa de banho cagar, mais coisas?

- Eu cheguei de táxi. Cheguei três minutos antes da hora marcada. Para não andar perdida na cidade, deixei o carro no centro e apanhei um táxi indicando-lhe o destino. Cheguei ao local e ainda dentro do táxi, enquanto eu lhe entregava o dinheiro para o pagamento, o senhor taxista perguntou-me admirado: ”É aqui?! Não se terá enganado no número da porta?”  Acho que foi por a rua estar deserta, a porta fechada e parecer não haver dentro da casa qualquer movimentação, pois as janelas com cortinas não mostravam sinal de lâmpadas acesas nem havia sinal de pessoas vivas. Era noite e a rua estava deserta. Eu, em tom afirmativo, garanti-lhe não haver engano. Ele voltou a olhar a rua, a casa e parecendo recear deixar-me ali, naquele abandono, ao dar-me o troco do pagamento deu-me também o cartão com o telemóvel de contacto do seu táxi. A espera tornou-se ansiosa… eu estava ali à espera em frente à casa que albergava o estúdio de música dele. Alguns escassos carros passavam, os minutos passavam, a rua deserta e eu ali parada…não se via ninguém na rua, apenas eu e os carros na noite. Comecei a duvidar da concretização desse encontro. Se ele não pudesse comparecer, ele ter-me-ia já avisado através do  telemóvel, pensava eu…

- É mesmo de ser parvo…atrasar-se! Ele não sabia a que te iria expor?! Imaturo!

- Eu não estava cem porcento só…

- Não?! Havia alguém contigo?! O teu anjo da guarda?

- Quando eu saí do táxi toquei à campainha da porta da dita casa. Ninguém atendeu. Passaram uns cinco minutos, voltei a tocar. Cheguei a ter o pensamento absurdo de que ele estaria na casa de banho com problemas intestinais e assim, impossibilitado de me abrir a porta.

- Tu tens cada ideia! Eu tenho que me rir! Para um segundo! Deixa-me rir! Ah, até me dói a barriga de tanto me rir. Tocavas à campainha e ninguém atendia…e depois o que sucedeu?

- Era uma rua de casas antigas. Casas estreitas, se vistas de frente mas compridas para trás, de não mais de dois andares, todas coladas umas às outras. Eu toquei à campainha de forma insistente. Ninguém aparece e a noite começava a ficar fria. Eu estava ali porque era importante para mim conhecê-lo pessoalmente. Aquela rua, quer do meu lado esquerdo, quer do lado direito, parecia-me infinita. Eu continuava parada em frente à porta da casa do estúdio de música dele…

- Essa atitude dele de se atrasar, revela que é irresponsável, imaturo e também de desconsideração para com os outros…

- Eu estava a ficar bastante ansiosa, principalmente com a ajuda que estava a ter da vizinha do primeiro andar situado do lado esquerdo superior da porta. Daí eu te ter dito há bocado que eu não estava cem porcento só.

- Há uma vizinha na história?! Era jeitosa?

- Era uma senhora dos seus setenta e poucos anos e deve ter surgido à janela mal ouviu o táxi parar. Eu só dei pela presença dela quinze minutos depois da minha chegada ao local. Ouvi uma voz dizer: “Escusa de insistir com a campainha, não está ninguém!” Olhei e a senhora lá estava debruçada sobre o parapeito da janela. Pelo tom de voz neutro e postura dela no parapeito, parecia ser a bisbilhoteira habitual daquela janela, naquela rua do estúdio de música dele. Vê quem ali entra, vê quem sai, quanto tempo se demoram... Ela estava à janela e dali não saía. “Possivelmente ele nem virá!” –dizia. “Mas eu tenho encontro marcado com ele às dez horas da noite!”. Ao que ela retorquiu com calma e tom irónico querendo insinuar que a atitude mais correta seria eu ir embora: “Não será às dez horas da noite de hoje! Já passa bastante das dez horas!!” Eu estava ansiosa e fixada nela, aquela senhora…parecia um gato mirone a olhar para um ratinho perdido sozinho junto à berma da estrada...e acrescentou: “Eu hoje não vi o carro dele por aqui por isso, já não acredito que  ele venha cá.”

- Que gajo parvo!…Deixar-te ali à espera…

- Fui à minha bolsa procurar pastilhas elásticas para mascar, isso acalma-me. Passei a andar no passeio... Caminhava  vinte passos para o lado direito da porta e depois regressava à porta, depois outra vez vinte passos para a direita e regressava à porta  e, assim sucessivamente. Estava a ficar saturada disso! Vinte minutos para além da hora marcada…As horas eram como as sombras dos edifícios nessa noite: não sorriam e podiam crescer ainda mais sombrias. Tudo solidão, a vizinha à janela, ele nem sinal, os meus nervos começavam a sangrar... Fixei os olhos num carro, por eu achar que era ele. O carro começou a reduzir velocidade. Acho que pensou que eu seria prostituta pois eu estava ali a caminhar junto à berma, sistematicamente retrocedendo e voltando a repetir a caminhada. Virei costas como se tivesse sido um equívoco, o condutor percebeu e imediatamente acelerou desaparecendo a toda a velocidade. Passado pouquíssimo tempo quase que para outro, desta vez eu nem tinha olhado para o carro mas o que fazia ali uma rapariga naquela rua deserta ?! Fiz cara de indisposta e este segundo condutor retomou a velocidade. Desapareceu bem depressa tal como outros condutores seguintes…

- A tua roupa era ousada?

- Não, não era a minha roupa, essa era discreta, era o facto de eu estar ali a caminhar e a retroceder junto à berma sem sair dali.

- Que situação desagradável!...Quando é que apareceu finalmente o fulano?

- Eu estava desesperada, não sabia se ficava ou se chamava o taxi…

- O vosso encontro demorou quanto tempo? Uma, duas horas...Quanto?

- Trinta minutos. Aliás mal entramos no escritório, zona que antecedia o acesso ao estúdio de música propriamente dito, ele disse-me não poder demorar mais de dez minutos mas, acabaram por ser trinta minutos.

- Que romântico! Ele disse dez minutos mas acabaram por ser trinta minutos… essa foi para eu me rir, não?

- Eu gostei, foi sincero... Imagina que ao fim de dez minutos ele me dizia sem pré-aviso que tinha de se ir embora! Poderia ser um choque para mim, pela falta de conhecimento da brevidade do encontro ou até pensar que algo o tinha desagradado! Assim, eu limitava as minhas expectativas. Mas digo-te que ele dava voltas para ver como poderia esticar o tempo! Olhava para o relógio e dizia: “Os músicos vão matar-me! Estão no estúdio à minha espera! Disse-lhes que precisava de me ausentar por uns breves minutos...O estúdio de música onde estou a fazer a gravação, ainda fica longe daqui. Este meu estúdio de gravação aqui é mais para trabalhar, ensaiar as canções…fazer a maqueta (esboço) das mesmas. Estou a terminar a gravação do meu novo CD conforme deves saber. Estou sem inspiração…compor melodias até é fácil mas escrever as letras das canções já é mais complicado…ando sem inspiração.”

- Que romântico! Olha, se queres perder tempo com esse fulano, tu é que sabes, se achas isso ser o melhor para ti. Eu já não sei mais o que te dizer para tu acordares. Levou-te ao menos até ao centro da cidade onde deixaste o teu carro?

- Ele não me pôde levar de regresso ao centro por ficar, em muito, em sentido contrário ao destino dele segundo afirmou mas, que me levaria até uma praça de táxis ali perto…

- Que romântico! O fulano não te ajuda em nada, nem nas coisas mais simples e tu achas que ele vai ser a porta de que a vidente te falou?! Tu andas cega!!

- Do escritório até aos táxis, foram uns dois minutos, foi ultra rápido! Durante este pequeníssimo trajeto, perguntou-me quais as localidades, a atravessar de carro, até chegar à minha aldeia! Ele só saberia ir até metade do percurso que mencionei pois não conhecia as outras localidades...

- Que romântico!...

- Para de dizer: “Que romântico!”

- Tu estás a ser idiota querida, consegues ao menos ver isso? Eu estou a gozar contigo para ver se tu despertas dessa fantasia tola que a vidente te pôs dentro da tua cabeça!...O vosso encontro foi somente isso ou tens mais para contar? Olha, já reparaste que nunca se tem frio na coisa entre as pernas?

- Lá estás tu com as mudanças repentinas de assunto. Sim, isso talvez seja verdade, talvez nunca se sinta frio no pénis ou na vagina…

- Ao menos houve um beijo na altura que ele te deixou nos táxis ou não?!

- Estávamos ali, parados na estrada, e não podíamos parar o tempo...

- Que romântico!...

- Ele não queria ir-se embora, pelo menos era essa a expressão dele. Enquanto ele parava o carro e eu desapertava o cinto de segurança preparando-me para sair, ele querendo ganhar uns milésimos de segundos e retardar a minha saída, toca-me com a mão ao de leve na minha perna e diz que o tecido das calças é lustroso!

- Valha-me Deus!...Que historiazinha! Isto parece uma história de embalar crianças…tão puritana…E depois?

- Eu levava vestida umas calças pretas justas de tecido tipo pêssego aveludado, uma camisola preta decotada em V e saltos altos. Depois encostou de forma lateral mas voltado para mim, o corpo dele à porta do lado do condutor e, por breves instantes, a cabeça à janela dessa porta, como quem sabe que ali não pode ficar...que tem de conseguir ânimo para arrancar com o carro...

- Que romântico! E depois veio o beijo?

- Sabes, ele tinha os músicos à espera no tal estúdio de música, uns eram de Lisboa, outros de Espanha e outros não sei de onde... No escritório dissera-me que àquela hora, os músicos já deveriam estar a quebrar o estúdio todo.... Eu reagindo a esta informação fico um pouco atrapalhada e digo que não queria que fosse por minha causa e, levanto-me da cadeira insinuando não desejar retê-lo mais. Ele faz sinal com a mão para eu me sentar novamente e diz sorrindo: ”É por tua causa! Mas eles podem esperar mais algum tempo…!” Então, estava ele encostado ao vidro da janela do carro e era visível que ele não queria que as coisas ficassem somente por ali. Olha por instantes em frente para a cidade e diz-me: “Quando chegares a casa escreve-me alguma coisa, para eu ter algo para ler antes de adormecer.” Eu pergunto-lhe: “Algo extenso ou...?” Ele responde imediatamente sorrindo: “Conforme quiseres...”  E então estendi-lhe a mão...

- Estendeste-lhe a mão?! Para quê?!

- Para lhe dar um cumprimento de mão...

- Só me faltava esta! Esta foi de gritos!

- Ele olhou para mim, para o meu braço e mão estendidos na direcção dele, e recusou com a cabeça...mas de repente (digo-te que ele é mesmo repentino!) apanha-me a mão e põe-na em posição para beijá-la!

- Como um cavaleiro a beijar a mão da sua donzela amada! Que romântico!... Sabes uma coisa? Apetecia-me comer um gelado ou morangos com açúcar! Ou bacalhau com natas ou pudim… Essa tua história já acabou?! Ele beijou a tua mão, tu foste apanhar um táxi, conduziste durante umas horas até casa e depois foste escrever-lhe um email, correto? Que merda de história! Olha, apetecia-me beber champanhe gelado!

- Eu ainda não te contei como foi a minha saída do carro dele!

- Porquê? Caíste?!

- Não, mas à medida que eu caminhava em direção aos táxis, senti nas costas, que ele cravava os olhos em mim e também que a minha camisola, não sei como, num lado estava deslocada e deixava ver-se parte do meu traseiro...

- E daí? O traseiro estava escondido debaixo das calças! Não estou a perceber.

- As calças eram justas e viam-se os contornos das minhas cuecas! Estou farta de saber que com calças justas se deve usar cuecas de fio dental e eu não as usava! Não sei... sentia os olhos dele a cravarem-se em mim!

- Por causa dos contornos visíveis das tuas cuecas debaixo das tuas calças justas?! Se sentias o olhar dele sobre ti, provavelmente ele quereria ver se olharias para trás, para ele, conforme se vê no cinema em cenas românticas…

- Sabes como era o escritório dele? Tinha uma mesa com um computador, alguns posters na parede iguais à capa do seu último CD e algumas cadeiras de pano, tipo cadeira  realizador de cinema…o pano tinha cor verde esmeralda. Por acaso, eu também levava um casaco verde...mas mais verde musgo fada.

- Verde fada…muito bem! E ele? Com que roupa se apresentou ele?

- Ele apareceu com uma roupa pouco sexy… Em palco, ele sempre se apresenta de preto mas naquele dia apareceu com calças de ganga, casaca de ganga e usava um anel com uma pedra azul turquesa exageradamente grande. Para mim foi novidade ver um homem usar um anel com uma pedra daquele tamanho. Acabámos de entrar no escritório e ele pergunta-me o que eu fazia além de escrever. Eu pensei: “Estás a brincar comigo! Eu escrevi-te muito sobre mim!” mas em tom bem disposto disse-lhe: “Sobre mim já te escrevi muito…” Foi uma forma de o pôr a falar –a frase saiu-me sem eu  a ter planeado. Ele fica um pouco admirado com a minha resposta mas disfarça-o e em seguida, teve o tal desabafo comigo em que confessava estar a precisar de inspiração. E pergunta-me depois: “Como é que tu te inspiras?” Olha para mim pensativo. Os meus pés estavam a queixar-se por terem andado de um lado para o outro em salto alto, durante vinte e cinco minutos na calçada, pois habitualmente não os uso. No instante em que ele me fez aquela pergunta eu só pensava em quanto me doíam os pés, tendo sido esta a razão pela qual quando entrei no edifício e vi aquelas cadeiras de pano de cor verde esmeralda, me sentei imediatamente. E já aí ele tinha ficado pensativo: “Poderias ter-te atirado a mim, em vez de estares aí sentada toda contente. E eu, ainda aqui em pé, junto à porta do escritório pela qual acabaste de entrar! Sendo assim, vou fechar a porta e sentar-me na cadeira da secretária.” A cadeira dele era giratória. Reparei nisso porque ele fê-la girar levemente quando eu lhe dei a resposta de que eu me inspirava nele. Ele baixou a cabeça como se olhasse para o interior dele mesmo e disse em tom irónico: “Sou uma fonte de inspiração?!” O tom de voz também indicava ele estar desesperado por uma inspiração e achar ser injusto eu conseguir inspirar-me nele e ele, a partir dele próprio, não estar a conseguir muito...mas disse-me: ”Tu és um poço! Tens um dom, sabes? Criaste uma personagem, muito bem conseguida. Pedes para eu te responder e eu respondo... Nos textos vê-se que tens um raciocínio muito bem encadeado. És um poço e dos bem fundos...parece que nunca mais acaba! Tens talento, sabes?” e prosseguiu: “Os sons, os ritmos, consigo eu rapidamente. As doze canções que aparecem num disco são escolhidas entre muitas, às vezes entre duzentas...Gosto de escrever mas está-me a faltar a inspiração e preciso de acabar algumas canções…” Disse aquilo de uma forma como se precisasse urgentemente de inspiração por  ter prazos  a cumprir. O seu novo álbum sairia brevemente para o mercado... Eu disse-lhe em tom familiar: “É o cansaço, isso normaliza.” Ele olhando para mim, um pouco admirado pelo meu tom de voz muito amigo, respondeu-me: “É...de facto são muitos países...cansa viajar…mas compensa, vale a pena...são grandes experiências.”

- Muitos países?! Até parece que é uma mega vedeta! Muitas das atuações dele em palco têm sido cá Portugal… Mas de facto ele viaja…até já viveu e trabalhou no estrangeiro, certo? Houve mais confidências por parte dele?

- Não…

- Ele até parece ser bastante acessível, nada vedeta mas ele continua a ser um sedutor. Já te disse para tomares cuidado, não te iludas. Ele não se isola em casa como tu! Ele viaja, conhece muita gente…Já o teu mundo é um círculo fechado: trabalho-casa e pouco mais. Esta história está a fazer o teu mundo girar de forma mais alegre mas lembra-te que tu estás sempre no mesmo sítio, tudo está igual, os teus dias estão banais como sempre, é somente a tua cabeça a girar em torno das ideias sobre aquilo que lhe poderás escrever…

- Eu uma personagem! Ele não queria acreditar que eu existia! Uma personagem! Disse eu ter criado uma personagem!... Já agora porque não chamar-me mentirosa ou atriz ou esquizofrénica?...

- Essa gente do meio artístico usa uns vocábulos estranhos para nós mortais…essa gente cria filmes para eles próprios onde eles são a personagem central e pensam que nós somos como eles. Tu precisas dum homem que te possa dar tranquilidade, conforto e segurança!

- A vidente disse que ele seria a porta!

- Até pode haver alguém que seja  a tua porta mas não quer dizer que seja este fulano cantor, pois não? Manda os videntes à merda…essa raça de bruxos erra a maioria das vezes, aliás tu não tens qualquer relação com a música, nenhuma relação com o mundo artístico, como vais parar a esse mundo?! Como?! Não és cantora, não és atriz, não és escritora, não és figura pública, não conheces ninguém do meio...como vai ser possível?! E tu já não tens dezoito anos...naquele mundo é tudo tão difícil…mas a vida está cheia de coisas engraçadas... nunca se sabe! Pode ser que eu te veja um dia por lá! Chamo-te de “famosa” tantas vezes que um dia será realidade!

- Ah! Lembrei-me agora!...Ele disse-me que eu era facilmente manipulável por causa de eu acreditar em videntes, disse-me que viu isso nos emails que lhe enviava.

- Estás a ver?! Tu acreditas muito facilmente…

- Também disse que eu era simpática pois que recebia por vezes emails muito agressivos e insultuosos, quase sempre por parte da classe masculina. “Têm inveja!” –disse sorrindo.

- Sim…há mais coisas?

- Estávamos a aproximar da porta para irmos embora, e estando eu ao lado dele, esperando que ele abrisse a porta, eis que repentinamente me deita o braço dele por cima do ombro, deixa-o descer até me prender o braço ligeiramente acima do cotovelo e aperta-me contra o corpo dele. Mantivemo-nos lado a lado e ele olha para mim sorrindo como que a dizer: “Se tivéssemos aqui fotógrafos até que ficávamos bonitos os dois, lado a lado!...” e apertou-me ainda mais um pouco, dando-me um beijo no cabelo junto à fronte. Apressámo-nos a sair do escritório. Então ele disse-me: “Queria-te mostrar a casa toda…mas o tempo é pouco…ali em frente, estás a ver? É a onde tenho um estúdio de gravações, um dia mostro-te! O meu grupo de músicos, e eu, reunimo-nos muitas vezes ali...”

- Quando saíram, a vizinha ainda lá estava à janela?

- Não sei... na última vez que eu reparei nela, tinha-me afastado uns vinte metros, tinha parado a pastilha elástica na boca, tinha cruzado os braços e estava de cabeça levantada à procura de algo vindo pelo ar que me batesse na cabeça e me desse ideias pois já não sabia o que fazer!... Ele cantor nunca mais aparecia! Estava eu assim, a olhar para o último ponto de alcatrão visível na estrada,  quando vejo pelo canto do olho um carro vindo de frente a abrandar. Eu  tendo em conta o episódio dos outros carros nem olhei para ele: o carro quase a parar junto à berma...mesmo ao meu lado! Como eu não olhava para ele, buzinou! Olhei. Ele abriu ligeiramente os braços sorrindo, como quem diz: ”Então não me ligas? Nem olhas para mim?! Sou eu! Cheguei! Não quero que estejas zangada!...desculpa... sou um malandro que chega atrasado mas muito amoroso!” 

- Muito bonito! Tu acreditas em histórias de encantar, não é verdade?

 

 

 

Data: Quinta-feira,  10  junho 1999    01:51h,  *Assunto: “Banho”

Olá! Pintei o fundo da banheira. Inicialmente com um pincel mas ao corrigir, com um pano um erro de pintura que eu considerei ser erro, tive uma inspiração: enrolei o pano e movimentei-o sobre a tinta. Derramei mais tinta no fundo da banheira e mais movimento! A pintura ficou gira, acho eu...

Em tempos existiu alguém que ambicionou tomar banho de água quente não aquecida numa panela ao lume!  Esse inventou os esquentadores de água e o poder de cantarolar relaxadamente e demoradamente, num duche! Ninguém teria apetite de cantarolar no duche se tivesse de esperar, todo ensaboado e ao frio, pela próxima panela de água quente, pois não? Água quente essa que antes teria de ser temperada com água fria para a música não ser “Ai-ai-ai que queima! foda-se!!!” 

Já viste como antigamente a vida era bem mais difícil?!

 

 

Data: Sexta-feira, 11 junho 1999    20:54h,  *Assunto: “Ambição”

Olá! És ambicioso?

A vida dá-nos tudo o que necessitamos, basta dizer-lhe o quê.

Esse dizer é o acreditar que além de o necessitarmos, o merecemos.

A insistência com que o dizemos é a ambição, é esta que nos dá o poder de acreditarmos em nós. A ambição é um sinal de quem somos em termos de ser e consequentemente, é a imensa certeza vinda, muitas vezes, somente de nós mesmos. Certeza esta que desperta em nós as capacidades necessárias para atingirmos o que queremos.

Podias encostar-me a uma parede e perguntares-me, bem colado a mim, o que eu ambiciono. E eu, um ser que engloba outros seres, dir-te-ia que não ambiciono unificar os meus seres, eu ambiciono ser muitos seres. Talvez tu também sejas assim… Abraço