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Capítulo 4

P8COMPOSitora”

Data: Sábado, 25 Agosto 2001   14:50h  *Assunto: “Cassete”

...enviar-te-ei na terça-feira de manhã, dia 28 Agosto, em correio azul registado, uma caixa muito bonita para o teu apartado, em teu nome, com uma cassete gravada. Tem apenas a minha voz –canto/ interpreto à minha maneira as seguintes 13 canções, pela ordem indicada: Love Letters (Sinead O`Conno), Crazy (Patsy Cline), Summertime (Ella Fitzgerald), I got you (James Brown), River Deep Mountain High (Tina Turner), Goldeneye (Tina Turner),  You´ll follow me down (Skunk Anansie), That i would be good (Alanis Morisset), Chain of fools (Aretha Franklin), You make me feel like a natural woman (Aretha Franklin), My heart will go on (Celine Dion), I will always love you (Witney Houston), Foi Deus (Amália Rodrigues).

Não digo que os imito, digo apenas que os usei como modelos. O meu objetivo não é que vejas se eu canto bem ou mal, nunca cantei na minha vida exceto este mês, mas que vejas em função da minha capacidade vocal, a possível composição musical para as letras que já te enviei tempos atrás.

A minha persistência não deverá ser mal interpretada, ou seja, não gostaria que me perseguisses com a ideia de que te persigo.

Uma pergunta: em caso de resfriado o que faz bem à voz de um cantor?

Li algures que uma gemada de ovos com anis, fazia bem. O que é que a tua experiência diz? Algures também li que na Roma antiga, se é que li bem, uma das técnicas usadas pelos atores para exercitarem a sua projeção de voz, era colocar, enquanto deitados, sobre o tórax algo de peso significativo, como um pedaço de uma rocha ou algo igualmente pesado, e tentar falar alto. Já alguma vez experimentaste esta técnica?

Estive a pensar e não vejo como te podes prejudicar com a minha proposta de fazeres a linha melódica.  É apenas mais um trabalho ao qual terás de dedicar algum do teu tempo.

Se não obtiver resposta tua, o que farei?

Levanto-me do sofá e dirijo-me à gaveta mais próxima para aí enfiar os sonhos e esquecer tudo? Não!

Vou ficar imóvel sentada no sofá mas com a ideia em movimento de que tenho de ser eu a compositora da linha melódica das letras do meu álbum “Incenso”.

Tu tens formação musical, experiência, público, muitos contatos internacionais, um bom marketing por parte da tua editora, sabes ler pautas musicais e tocas alguns instrumentos. Eu não. E daí? Avanço na mesma. Não sei como as coisas funcionam na música, mas tenho ao meu dispor toda a minha imaginação. Conhecer demasiado bem a realidade poderá inibir a acção. Eu desconheço as realidades musicais portanto, sou totalmente desinibida! Bom sábado para ti.           

 

 

Data: Terça-feira, 06  Novembro 2001   22:45h  *Assunto: “Editora”

Enviei hoje à tua Editora Discográfica e a ti, por correio, um envelope almofadado tamanho A4 com uma bolsa bordada por mim com pérolas e aplicações estéticas em metal. Dentro dessa bolsa encontram-se as letras do projeto “Incenso” que já te tinha enviado em Maio de 2000 e ainda 2 fotos minhas. Falta só fazeres a composição musical das letras do álbum “Incenso”…

Diz-me: não vale a pena insistir ou ter esperança, pois não?

Às vezes a vida é um trevo da sorte de quatro folhas, outras vezes é um simples trevo…

                              

 

   

♣                          

(A nível de saúde, refiro-o ao de leve no email a seguir, eu estava e não o sabia, com reações psicossomáticas que nada mais eram que uma enorme tristeza por toda a minha situação: era apenas “eu mais eu” na vida e não “eu mais tu”)

 

Data: Domingo, 16 Dezembro  2001, 22: 05h  *Assunto: “Banda”            

Vi que tiveste nas últimas semanas, no teu site oficial, uma proposta de descoberta de bandas através do envio de maquetas para o teu apartado, dentro do teu contexto musical.

Não sei se era para auto promoção e teres o “rótulo” de catalisador da música portuguesa ou para me ajudares na formação da banda.

O mais provável é que tenha de ser eu a formar a banda, só não sei quando nem onde. Certo é que entre os elementos da banda e eu, terá de existir uma ligação afetiva feita de afinidades musicais e de personalidades compatíveis ou então, não resultará. Não sou do género “aguenta, deixa andar e logo se vê”…vivo mal com fingimentos e pessoas/situações sistematicamente desestabilizadoras.

Tenho tido alguns problemas de saúde que se arrastam há já algum tempo, o que faz com que dificulte “o meu mexer” no mundo da música em busca de algo para mim. Agora até tenho andado um pouco melhor mas tenho de descobrir o que se passa comigo. Os médicos não acertam na medicação pois na maioria das vezes pioro significativamente.

Mas acho que aquilo que eu tenho não é grave…pois já me fizeram análises de todo o tipo incluindo a uma extensa listagem de doenças alarmantes e o resultado foi negativo em todas elas. Deve ser alguma coisita que está escondida…e que me está a causar grande transtorno….é uma roda que anda...esta roda farta-se de passar por cima de mim, faz marcha atrás e volta a passar outra vez por cima de mim...estou cada vez mais pisada e massacrada. 

A Editora ainda não me deu resposta alguma…ainda é cedo, pouco mais de um mês passou após o meu envio.

 

 

Data:  Quinta-feira, 20 Dezembro  2001,  23:17h   *Assunto: “Serei compositora”

Vou começar, em Janeiro de 2002 a composição das 12 letras do álbum “Incenso”.  Não faço a mínima ideia  como se compõe, vou usar a voz e veremos.

Já fiz a capa daquele que será o CD com as minhas doze letras.

Olha-me só! Eu compositora! Nem acredito!

Abraço, Ninfa Artemis

 

(Alguns dias após o envio do email acima recebo a resposta da tão aguardada  Editora à qual o cantor estava associado. Mandei-lhe imediatamente um email a informar da boa notícia: a Editora disse que me iria contactar brevemente!

Os meses passaram. Nunca o fizeram. Nunca me contactaram. Não fizeram o que disseram que fariam. Esperei longos meses. Eles nunca contactaram nem me deram explicação alguma, ou pedido de desculpa, para o sucedido.

Mas no dia em que tinha recebido aquela notícia por parte da Editora Discográfica, de tão contente que estava, escrevi o texto/poema a seguir apresentado)

 

"Que alegria que eu sinto pela novidade recém chegada, Não consigo fingir que não estou contente, Trá-rá-la-lá.......Só me apetece cantar! Que contente que eu estou! Tenho a porta aberta!....Em breve  serei chamada para ser entrevistada, Pela editora dele, Assim já poderemos trabalhar juntos! Uma editora discográfica multinacional! Fantástico, não? ☼♫☼ ♪☼ ♪☼ Isto é inerrância! -qualidade de não errar, A certeza de que eu ia conseguir não errou! Quem se desculpa pela não concretização dos seus sonhos, Não tem desculpa, Pois já os sonha como não concretizáveis, Eu sonho que tudo é possível, Portanto eu tinha de conseguir! E consegui! Sou o máximo! J Os realistas têm umas dúvidas persistentes! Digo-vos que até convencem, Quem nunca dúvidas teve, De que tem de duvidar! Têm dúvidas persistentes, Cada uma mais forte que a anterior, Têm experiência no duvidar do possível, Principalmente se impossível já o parece ser, Os que duvidam são todos experientes, No conviver com a realidade chata… A Editora abriu-me a porta! O Céu irradia sol à Terra que habito!... Habito a terra dos milagres! Eu estou cheia de Sorte!!! Vou contagiar o mundo inteiro com a sorte! "

 

♣                      

Este capítulo 4: “P vírgula, P ponto, 8-8-1998” está quase a finalizar, falta apenas apresentar um poema e um diálogo com a minha espetacular amiga. Gostam dela?

Relativamente ao “cantor” quero acrescentar aqui uma observação: após dezembro de 2001 os emails a ele tornaram-se muito esporádicos, breves e com apenas algumas frases a relatar os meus avanços na música: contatos desenvolvidos, dificuldades, expectativas relativos ao meu projeto “Incenso” etc. até que um dia cessei em absoluto qualquer contato. Ele manteve-se sempre silencioso.

Quem é ele e o que penso desta minha história com ele?

Ele na verdade não passou de uma projeção da minha mente. Ele é-me totalmente estranho. Tirando as breves respostas de email dele, um encontro de 30 minutos e algumas sumárias conversas telefónicas, ele nunca existiu na minha vida.

Aliás, qualquer semelhança com a realidade de algum cantor em particular é pura coincidência pois, é uma realidade genérica e não particular a que foi apresentada.

A presença feminina é uma constante que abunda na vida de qualquer artista com banda rock ou, doutro género. Mesmo que sejam apenas conhecidos só lá no bairro, há um fascínio pelo meio musical que a comunicação social promove e que impressiona a classe feminina. O fascínio pelo mundo da música! Julga-se que eles têm uma vida invejável, mágica, acima de qualquer dor ou desilusão, que estão acima  do comum dos mortais… A música é mágica e bela…mas as pessoas não passam de simples mortais…

♣                                                        

(Na quarta-feira, 26 Dezembro  2001,  23:51h,  escrevi o “poema” a seguir e faz o balanço do ano que finda)

 

“Ser cantora, Cisma não sai, Janeiro a Dezembro de 2001, Ano de total solidão, Eu penso que, Nada me faz delirar como tu fazias, Eu penso que tu pertences-me, Isso é o que eu penso hoje, Mas amanhã tudo muda, Tudo passa, Nada fica… O ontem está aqui, O dia é o de hoje, A tristeza está aqui na minha alma, Ela o meu corpo físico domina e arruína, Dor imensa, Tenho fé de que algo de bom, Esta dor me trará, Muitas letras para canção escrevi, Coisas boas valendo um milhão, Nem sempre trazem o lucro, Que não alegrias muitas vezes trazem… Tenho de ser forte, aguentar e saber esperar, Melhores dias estão à minha espera, Por agora estou a ver o tempo a passar, Nada me segura firme, Caio para um tempo longínquo, Espero que o bom destino me encontre, A minha forma de ser, Caminha pela noite dentro, Ouço os meus passos, Quem mais me ouve?... Estou cansada de estar só, Cansada de pedir ajuda, Restam-me apenas, As palavras escritas como abrigo para a fuga, No espaço da realidade, O tempo está cheio de horas, E os dias cheios de pedras, Tão cheios, Que eu sinto o vazio… O meu consolo é olhar para o luar, Uma galáxia inteira cheia de luar observa-me, Lembro-me de rezar, Peço que eu tenha um final feliz…”

 

Diálogo 10 * colega de trabalho * Quinta-feira,  27 Dezembro 2001  21:35h

- Olá desaparecida! Andas nos teus combates de guerra pela música? Raramente te vejo, exceto no emprego.

- Partes amanhã, não é verdade?

- É...parto amanhã para a Austrália!

- Tenho uma novidade para ti: escrevi muitas letras para canção no ano 2000 e um livro agora em 2001! Fiz de ti uma personagem espetacular, tal como me pediste! Tu és a vedeta do livro! Qualquer um que o leia vai querer saber mais sobre ti! Eu depois envio-te um exemplar do livro! Não te esqueças de me enviar um canguru fofinho de pelúcia conforme me prometeste!

- A ti envio tudo o que tu quiseres…até um gajo jeitoso! Quando vais dizer a verdade sobre quem eu realmente sou?

- Dizer que tu e eu somos a mesma? Dizer que te criei?… Dizer que criei os teus diálogos para não me sentir tão só neste livro? Senão existiriam o quê?! Somente emails e monólogos?...Eu precisava de ti! Tu és super divertida e perspicaz!

- Sim…sou.

- Uma vez ouvi, há muitos anos atrás, uma escritora dizer que quando escrevia não tinha controle sobre as suas personagens, elas ganhavam vida própria: diziam e faziam coisas que não sabia donde vinham e que ela se limitava a escrever…que lhes obedecia. Eu pensei que isso fosse alguma frase poética e não lhe dei crédito algum… conversa de escritores pensei. Agora vejo que a escritora dizia a verdade. Eu queria uma super amiga divertida, rebelde e perspicaz. Tu ganhaste vida. Eu ia gostando cada vez mais de ti. Por vezes custava-me a acreditar que tu não existisses. Doía-me nunca te ter conhecido. Mas tu tens muito de mim. És uma possível versão de mim num outro mundo paralelo a este, onde eu fiz opções de vida que não fiz neste. Em Janeiro vou começar a compor as letras ou seja, a fazer a linha melódica das canções do álbum que chamar-se-á “Incenso”!

- Incenso...nome é bonito! Ele nunca mais deu sinal, pois não?

- Não sei se ele estava tentando ajudar-me quando colocou no site oficial dele uma proposta de descoberta de novas bandas através do envio de maquetas e, eu assim poder ter uma banda com quem trabalhar as canções. Ou, se seria para auto promoção e chamar a atenção dos meios de comunicação social sobre si, como um promotor de bandas rock a cantar em português pois, muitas bandas cantam em inglês.

- Nunca saberemos qual foi a verdadeira razão…

- Eu acho que ele às vezes deixa mensagens no próprio guest book dele… com o pseudónimo de “Filósofo”…

- Porque dizes isso?

- São mensagens demasiado emotivas, além de que conheço a forma de ele se expressar. Esse tal Filósofo critica os gostos musicais do tipo “consumo rápido” como aquelas músicas em que predominam as percussões e bateria: ritmos para as pistas de dança mas com uma pobre  orquestração… Afirma que os concertos do cantor é que são verdadeiras dádivas para a música!…são momentos de sons e melodias gravados no luar de quem lá esteve….

- Que poético!

- Esse Filósofo diz ainda que fica a tristeza dos concertos do cantor não serem mais frequentes pois a sua banda rock tem grandes músicos e empenhados, com amor à música…com meses consecutivos isolados em estúdio na preparação de novas canções...que eles mereciam muitos mais concertos!

- Todos nós merecemos muito mais de alguma coisa...

- Queixa-se que só abundam concertos de música pimba!…dizendo: “Passou-se mais uma noite, mais uma semana, mais um mês...e nada! Ninguém te agradeceu o perfeccionismo da tua música!….só abundam concertos de música pimba.”

- O novo CD dele não foi um sucesso comercial e ele está a ter problemas em conseguir concertos?

- Ele vai dando alguns concertos embora não muitos.

- Vida de artista português parece que não é fácil…

- Tive uma experiência religiosa….

- Tiveste o quê?!!! Uma experiência religiosa?! Eu mandei-te ter experiências sexuais, não religiosas!

- Tinha chovido muito. O céu estava já há dias cheio de nuvens escuras e naquele dia também assim estava. Era sábado, estando eu sozinha na igreja e sentindo-me abatida, sem quaisquer forças, totalmente desamparada, quando eis que um raio de sol incide no altar! Tinha atravessado uma pequena janela lá do alto da cúpula.

- Era de noite?

- Não, era perto da hora do almoço.

- Se fosse à noite…um raio de sol a incidir no altar era mais impressionante!

- Eu olhei para aquele raio de sol e achei-o bonito...

- Tu achas um raio de sol bonito?! De facto não é feio…mas não achas que andas a desparafusar um pouco?

- Os dias estavam cinzentos…era inverno, querida! Um súbito raio de sol vindo de um céu encoberto e cinzento pareceu-me super bonito! Mas logo esse raio de sol desapareceu!

- Se fosse Verão esse raio de sol tinha permanecido mais tempo… como era Inverno ele desapareceu! Normalíssimo! Onde está a experiencia religiosa?!!!

- O raio de sol desapareceu. Um peso enorme ia na minha alma. Mas de repente, vindo do nada….aquele peso, aquela tristeza, foram-me retirados, literalmente, como se fosse um manto pesado...de repente foram-se embora!!! E uma leveza alegre inundou-me o coração...Foi tudo tão estranho…

- Eu não sou crente mas já ouvi relatos de pessoas terem sentido a presença do  sobrenatural em momentos difíceis. No teu caso deve ter sido o teu Anjo da Guarda!... Também deve andar a sentir-se sozinho e então, fez questão de que notasses a sua presença. Também deve ser dotado para coisas artísticas! Às tantas é ele que te ajuda nas criações artísticas! Não precisas do cantor para parcerias musicais! Já tens o teu anjinho da guarda!

- Tu muito me gozas!...Vou-te falar de tomates!

- De tomates?!!! Dos tomates de quem? A que propósito vêm os tomates?! Falar em experiências religiosas põe-te com vontade de falar em tomates?!!

- Querida: tomates do quintal…No Verão passado comi tudo quanto era tomate e dióspiros do quintal dos meus pais!...A minha mãe dizia-me que mal não me fariam...se era para aí que eu tinha virado as minhas cismas!...seria bem melhor que cismar em ser cantora!

- Tu contas-me cada coisa…Terei saudades tuas, sabias?

- Diz-me uma coisa…deixa-me testar a tua cultura geral: como surgem os tomates?

- Sei lá! Plantam-se como as batatas: faz-se um buraco, enterra-se lá uma batata, e depois ela multiplica-se.

- Os tomates nascem duma planta acima do solo! Não vês que debaixo do solo seriam esmagados?! As batatas de facto nascem debaixo do solo. Vamos ao meu carro buscar o vinho que trouxe da quinta dos meus pais para te oferecer, depois pegamos no teu carro e vamos dar uma volta por aí, o que achas?

- Se um dia adicionares capítulos ao teu livro, incluis-me a mim, uma vez mais?

- Claro! Sem ti as coisas não têm graça!

- Deixa-me dar-te um grande abraço!