Capítulo 2

OS TÚNEIS

 

Eu ia nesta minha última viajem de metro, sendo transportada abaixo da superfície: “Vou-vos deixar meus adorados túneis subterrâneos! Passei mais tempo com vocês que com aqueles músicos à superfície que me querem fazer cair na tentação de eu me anular a mim mesma… Eu hei de voltar! Os pensamentos que vocês túneis me davam! Sabiam quais eram?! Vocês faziam-me pensar nas profecias apocalípticas que li anos atrás num livro que compilava vaticínios para nós humanos destes tempos…”

No local de emprego cederam, naquele dia, um pequeno espaço a uma entidade sem fins lucrativos. Essa dava apoio a pessoas com limitações físicas e naquele dia, naquele espaço, poderia vender alguns livros, de géneros vários, a quem na empresa estivesse interessado em comprar.

Os livros, o vendedor e eu estávamos deslocados daquele espaço, onde todos os demais se encaixavam tão bem! Encaixavam-se no emprego, no local, nas circunstâncias das suas vidas, nas suas rotinas…enfim, encaixavam-se em tudo o que era suposto encaixarem-se.

Um livro de tamanho A4 com capa dura e umas cores que eu detestava, e por isso me captou o olhar, levou-me a aproximar.  Profecias?! Isto interessa-me.

Trouxe-o para casa!

A vossa voz…o deslizar do metro nas vossas paredes…o metro tem a mesma largura que vocês túneis! Ele roça nas vossas paredes! Isso não vos incomoda? Como irei eu sair viva daqui se por alguma razão o solo, que vos cobre, desabar em cima de mim? Tanto cimento e tanto aço…metros acima de mim e, acima de vós?

Mesmo que o metro não se esmague e eu consiga abrir as portas…à minha frente estarão as vossas paredes! Oh túneis!  

Ouço-vos falar comigo…o som das vossas paredes…pedis que eu vos conte, nesta última viagem até à Victoria Station, o que essas profecias apocalípticas dizem.

Se um terramoto vos dilacerar as paredes, vós túneis prometeis-me resistir e criar uma gruta que me protegerá até a ajuda vir lá de cima?

Dizeis que sim, que somos amigos!  

Meus adorados túneis: fogo vindo do céu, fome, terramotos intensos, ar envenenado, terra estéril e fumegante… Nós humanos estamos tramados, não acham? Será por sermos mimados, ingratos e insatisfeitos que tudo nos será retirado? Ou estas profecias são apenas avisos para nos incitar à mudança?          

Adeus túneis! Agora estou em Portugal. Aqueles que me tentaram lixar a vida também viajam nos vossos túneis. Eles não falam convosco!

 Não vos zangueis com isso. Ficai sabendo que o meu dia virá. Eu estarei em palco e com enormes multidões. Eu voltarei a viajar no metro, só para vos rever túneis!

Tenho uma amiga muito especial que está na Austrália. Vou telefonar-lhe agora mesmo. Tinha-lhe prometido que um dia lhe contaria toda a minha vida…chegou o dia: é hoje!

Mas antes de ir quero confidenciar-vos uma coisa: sabeis quão assustadoramente subterrâneos vós túneis sois? Sabeis quão escavados no centro da Terra vós estais?

Conseguia sentir tal profundidade quando eu saía numa estacão de metro como por exemplo, a de Camden Town que pertencia ao distrito onde a cantora Amy W residira. Um distrito repleto de locais de música e cultura alternativa…

Quando eu saía do metro seguia a indicação “Exit”.

Eu caminhava por rampas curvilíneas que subiam, depois pisava degraus que continuavam a subir, depois ia para escadas rolantes que mantinham uma subida íngreme…E quando eu chegava lá cima à superfície, próxima do exterior, olhando cá para baixo, via claramente quão subterrâneos vocês túneis sois!

A distância do fundo até à superfície era enorme! Além de aí no fundo o calor ser infernal…As garrafas de água que eu bebi aí em baixo nas viagens feitas de metro nos vossos túneis!… As ilusões e as esperanças que eu bebo na minha vida cheia de túneis à espera de uma saída até à superfície! A criatividade que esses túneis despertam….

Os sentimentos que eles despertam! Sei que vós túneis sois meus amigos. Sei que vós estais a conduzir-me até a um lugar que revelar-se-á fantástico!

 

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