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Capítulo 2

O PARANORMAL

 

- O quê?!

-“Eu até pintei o cabelo de loiro para ser como ela!” –dizia-lhe eu num email. Curiosamente quando regressei a Londres, em outubro, ele pergunta-me se eu tinha alguma foto dessa minha fase de cabelo loiro dado que ele me estava a ver outra vez de cabelo de preto. Pergunta-me também o que é feito da minha amiga loiraça! Eu fazia intenções de lhe dizer que era uma invenção mas não queria que ele soubesse quão só eu me sentia.

- Desejou-te ao menos boa viagem de avião?

- Não. Não me desejou boa viajem. Eu estava perdida no metro, dou-lhe a tal palmada forte nas costas e peço-lhe orientação. Ele indica-me todo enervado, usando um tom de voz de quem manda desenrascar-me e saber ler os mapas do metro, a direção que eu devo tomar dentro da estação para chegar à plataforma correta e vai-se embora.

- Não sabias ler os mapas?

- De facto tinha de começar a gostar de olhar para aquele emaranhado de linhas nos mapas e parar de pedir ajuda. No entanto, os meus olhos não puseram enfase alguma no mapa à minha frente e desviaram-se para o mirar. Está de costas para mim nas escadas rolantes que sobem e de headphones ouvindo música. Vejo as horas e fico aflita: tinha de me apressar para o aeroporto. O meu olhar desvia-se uma vez mais. Vejo que ele ainda está nas escadas rolantes. “A vida vai fazer-te engolir todo o teu orgulho! Vai subindo amigo “open mic” porque um dia estarás a descer.” –disse isto pensando nas contrariedades e surpresas da vida. 

- Acredito que ele gostasse de ti, apesar de toda a confusão gerada. Mas a verdade é que era difícil para ele te posicionar em termos afetivos: a diferença de idades é acentuada, a experiência de vida é diferente, a estabilidade profissional é diferente, vivem em países diferentes e ambos têm personalidades igualmente emotivas! Quando a tua banda se desmembrou, ele optou pela via mais fácil: o abandono. Provavelmente até te culpabilizará pela rutura da mesma e cismou que tu afinal não gostavas dele.

- Ele de certeza que me chamaria de super maluca se soubesse o que fiz uma vez, na fase de envio do CD do projecto “Incenso” às rádios…

- O que fizeste?

- Peguei num dos CD´s e enviei também a um programa humorístico de grande audiência mas com espaço, embora restritivo, para bandas/artistas. Eu, andando farta de enviar exemplares às rádios, tenho um acesso de “humor” e eis a observação escrita  que vai com o CD: “Este é o meu projeto no qual trabalhei muito. Quero ir ao vosso programa. Tenho algum talento especial? Talvez, embora cante com a boca como toda a gente. Claro que se eu cantasse com a vagina seria uma raridade mas, ao mesmo tempo, seria complicado cantar em frente a uma câmara, não acham? No entanto uma vez, numa viagem que fiz à Jordânia, um grupo de turistas que incluía duas canadenses que trabalhavam como tradutoras no Japão, disseram terem visto, num país asiático, uma dançarina de streap tease atirar flechas com a vagina!”. Enviei o CD a outros programas televisivos mas, sem conexões pessoais lá dentro, este ficou algures num canto.

- Uma dançarina de streap tease que  atirava flechas com a vagina?

- Sim. Elas viram isso! Quando saí de Londres, já tinha escurecido. Dentro do avião escuro estava pois aí a maioria dos ocupantes dormia, sendo raros os que tinham as luzes acesas no seu assento para ler. Uma vez dentro do meu carro, em Portugal, conduzi pela noite escura por cidade e serra. Chego a casa, e antes de dormir, o que faço eu? Envio um email ao meu amigo “open mic” a dizer que juntos eramos disfuncionais e, em letras garrafais, para ele seguir a vida dele!

- Tu não achas que às vezes quieta tinhas mais lucro?

- A minha vida já estava lixada portanto, foi só escavar um pouco mais o poço e ir um pouco mais ao fundo! Ele nada diz. As restantes versões instrumentais que eu tanto queria e precisava, para me habituar a elas, recebo-as na segunda-feira à noite, dois dias após a minha saída de Londres. Nenhum dos músicos me pergunta se gosto. Estas versões acabadas de receber foram feitas pelo baterista e pelo outro guitarrista. Tenho apenas algumas horas após o emprego, durante os próximos três dias, para as ensaiar em casa. Na próxima sexta-feira de manhã irei regressar a Londres. O outro guitarrista é que executou as duas guitarras necessárias uma vez que, o guitarrista “open mic normal da cabeça” que me tinha chamado de maluca, não dispunha de tempo para tal, segundo me  informou no final do ensaio. Informou sem entrar em pormenores relativos às razões para a sua escassez de tempo. As pessoas importantes não dão explicações. Envio-lhe por email a cópia das versões dizendo que teriam ficado melhores se ele também tivesse tocado pois eu estava mais habituada ao estilo dele. Sabes como ele me agradeceu o meu elogio?

- O que disse ele?

-Envia-me a devolução do dinheiro dos arranjos que eu lhe tinha pago antecipadamente pelo “paypal” e uma sms em letras garrafais: “NUNCA MAIS ME CONTATES!” Eu respondo-lhe que lamento os desentendimentos e peço para ele manter a palavra e, comparecer ao ensaio da próxima sexta-feira bem como ao concerto dali a quinze dias. No final de lhe enviar a sms, sinto-me desgastada e infeliz, não só pelas atitudes dele mas também pelas minhas em relação a ele.

- Nunca ouviste dizer que se queres conhecer alguém dá-lhe poder sobre a tua vida? Nunca cedas o teu poder a ninguém! Ele compareceu ao ensaio?

- Sim, compareceu. Com trinta minutos de atraso, sendo 11h da manhã do último sábado de novembro. Eram 10h da manhã quando cheguei à estação de metro onde me encontraria pontualmente com eles mas apenas vejo o baterista e o outro guitarrista. O baixista continuou a não aparecer: continuava doente. Apanhamos o comboio em direção a “Hillingdon” mas saímos umas estações antes, creio ter sido em “North Ealing”. O baterista era quem se disponibilizava sempre para fazer a reserva da sala de ensaio. A sala estava reservada das 10 h até às 17h e eu pagaria 50 libras. Em agosto, o meu guitarrista tinha-me confidenciado que a sua banda de heavy metal tinha conseguido uma sala de ensaio por somente 100 libras ao mês, sendo a despesa partilhada por todos com 20 libras mensais. A gerência cedia-lhes a sala todos os sábados de cada mês, 24 horas do dia, havendo até de um micro ondas. Sabias que ele, em agosto, pedia-me para eu falar em português com sotaque do Brasil?

- Sotaque do Brasil?

- Sim! Sou péssima a imitar mas ele pedia-me à mesma! Ele tinha uma enorme fixação por esse sotaque. Quando eu falava o português de Portugal, ele não gostava -achava que nós abusávamos muito dos ch.

- Nós usámos muito o ch?!

- A forma como nós portugueses dizemos o s expressando o plural, soava-lhe a ch! E ele cismou também que tinha de chamar por mim no plural dizendo Ninfas mas, como ele não sabia pronunciar o nosso s português, saía-lhe um ch! Então ele chamava-me de Ninfas e eu ouvia-o chamar-me: Ninfa-chchchch! Aquilo soava-me tão estranho ao ouvido que ele repetia aquilo, só para me ver fazer uma careta feia de estranheza. Lá vinha ele: “NINFA-CHCHCHCHCHCH!”

- Chamava-te Ninfa-chchch? Soa estranho mas tem graça.

- Ele chega atrasado. Cumprimenta os elementos da banda com um aperto de mão e a mim, a uns cinco passos de distância da minha pessoa, faz-me um gesto de continência à tropa. Esta sala de ensaio é enorme, nada semelhante às do centro da cidade: tem janelas e nem as paredes nem o chão, têm alcatifa. O meu guitarrista não sabia as músicas, para além das do open mic. Ou seja, ele conhecia apenas três canções.  Pôs-se a perguntar ao outro guitarrista os tempos de entrada e acordes das restantes canções. Faz umas breves anotações e já estava apto a tocar. Por sua vez, eu que tantos esforços fizera nos ensaios em casa em Portugal -chegava do emprego, jantava alguma coisa rápida e ficava até à meia-noite a cantar sobre as novas versões, estava a desatinar com o ritmo e a falhar.

- Estavas a desatinar porquê?

- Não tinha tido tempo suficiente para me habituar às novas versões e tal agravava-se em algumas canções quando não era óbvio para mim, onde eu tinha de fazer as entradas. O arranjo não tinha transições musicais que facilmente me permitisse identificá-las. Obviamente que a minha ignorância musical estava a ser uma enorme desvantagem nesta situação de adaptação. Além deste meu problema, em casa eu estava habituada a ensaiar com os headphones: com o som a entrar a toda a intensidade nos ouvidos. Nesta enorme sala de ensaio, o som parecia que batia primeiro nas paredes e só depois nos meus ouvidos. Daí, eu ter preferido os open mic em cujos palcos existiam monitores –uma espécie de colunas, colocadas no palco junto ao cantor e músicos, que devolvem o som executado por todos no microfone como se fossem headphones e assim, uma melhor noção do som reproduzido. Pois, em palco há a barulheira feita pela bateria, pelas guitarras, baixo e voz do cantor. Mal nos conseguimos ouvir uns aos outros com precisão! Para agravar a minha situação, o meu timbre de voz estava ténue e inseguro. Tinha as cordas vocais gastas por razões várias: tinha de falar no local de trabalho não podendo dar descanso à voz; as muitas horas de ensaio na minha sala de estar desgastavam a voz; as poucas horas de sono dormido era um repouso diminuto para a voz e para o corpo. E claro que o stress das viagens a Londres e as desavenças com o meu guitarrista, também me estavam a fazer estragos. Naquela sala de ensaio, a uma semana do concerto, eu sentia-me intimidada: era o meu primeiro ensaio com uma banda! O meu desempenho agora estava longe do sucesso de agosto. Eu estava sem autoconfiança. E também pouco gostava dos arranjos que a banda me tinha imposto. O músico do estúdio também pouco gostou.

- Devias ter dito alguma coisa aos músicos a respeito dos arranjos…

- Eles não tinham tempo para novos arranjos: era pegar ou largar aquela banda. Além de que, neste ensaio, eu tinha começado a perder a autoridade a partir do instante em que eles começaram a detetar, em mim, falhas básicas a nível rítmico. Cada um deles estudava música desde a sua infância. Eu nada sabia de música! Eu sentia-me uma nulidade! Eles entreolhavam-se, mal falavam comigo, não me sugerindo pistas ou orientações a nível musical. Não se sentiam nessa obrigação. Em agosto tinha-me sentido confortável e as coisas tinham corrido bem mas desta vez, eu ia de mal a pior.

- Eles mal falavam contigo, porquê?!

-Ninguém perde tempo a falar com pessoas insignificantes, pois não? O ambiente emocional era estranho para mim…creio que eles me achavam incompetente e tornou-se quase irrespirável. Isto porque o outro guitarrista tornou-se gradualmente incompatível e irritado comigo, embora se contivesse de mo expressar directamente; o baterista estava pasmo com o meu mau desempenho e, por sua vez, o guitarrista “open mic” estava alheado no mundo dele, todo descontraído! Tinha acabado de receber uma sms. Ele estava sentado no chão a tocar guitarra quando, na transição para uma nova canção, decide ler a sms. Deve ter sido tão bombástica que o corpo foi-lhe empurrado para trás. Ele quase que cai de costas!

- Porquê?

- Imagino que fosse a namorada a dizer: “Olha: encontrei as tuas cuecas! Sinto a tua falta. Como vão os ensaios? Podíamos ter ficado na cama a foder um pouco mais…”

- Ele perdeu as cuecas?! Como sabes isso?

- Quando chegou à sala de ensaio, ao pousar o saco que transportava a guitarra, no chão, debruçou-se ficando mais de metade do traseiro dele à mostra. Não trazia cuecas e esquecera-se de pôr o cinto nas calças estando estas também a cair.

- Ele agora fode como se fosse uma novidade. Daqui a uns anos vai engordar, ganhar barriga e foder apenas uma vez por semana com a esposa e ter devaneios com todas as outras mulheres. Quando for velho vai estar aflito com o colesterol e a próstata!

- Voltando ao relato do ensaio: já decorrera hora e meia quando a banda decide fazer uma paragem para descanso. Eu estava profundamente dececionada comigo mesma embora soubesse de antemão que não era falta de empenho meu mas sim, inexperiência. Completamente desanimada, de olhos fechados, comprimo a cana do nariz junto às sobrancelhas com o polegar e o dedo indicador. Eu desejava que uma nave extraterrestre irrompesse por ali e me levasse para junto de outros seres estranhos. Eu estava a ser mirada como um ser bizarro, por aqueles músicos! Por breves segundos, ainda de olhos fechados, consigo abstrair-me do meu suplício e a imagem do traseiro dele, visto há bocado, de pelo encaracolado, formou-se na minha mente e penso: “Claro que o pelo do traseiro é encaracolado pois o cabelo dele é todo ondulado!” Abro os olhos e deparo-me com ele em frente a mim, apenas a dois passos de distância! Ele está muito sério a olhar para mim e pergunta-me: “Sentes-te bem?”

- Tu fazes-me rir!

- Por causa desse ensaio de sábado, eu tinha chegado ao aeroporto de Londres, Gatwick, na véspera, sexta-feira, às três horas da tarde. O baterista dois dias antes informa-me que o ensaio, que eu também tinha querido na sexta-feira, não seria feito por os dois guitarristas terem outros compromissos. Este ensaio tinha sido agendado em finais de outubro mas, um mês depois, o espaço na agenda deles não estava reservado para mim, apesar de os ensaios serem pagos. Eu era um “zé-ninguém” para eles…

- O que fizeste nessa sexta-feira, véspera do ensaio?

- Fui até “Camden Town” distribuir os mil panfletos que tinha mandado imprimir em Portugal!

- Fizeste mil panfletos? O que diziam eles?

- “Ninfa Artemis! Rock em palco! Diretamente de Portugal! Alta voltagem!”

- Concordo! Ninfa Artemis ao palco! Alta voltagem!

- Nesse panfleto eu também referia que as canções eram cantadas em inglês, que eu tinha uma banda londrina e que eu vinha de Portugal aos fins-de-semana para ter ensaios com a banda. Acrescentava ainda que, por ser a minha primeira atuação em Londres, adorava que o público comparecesse para me dar sorte! Além do meu nome, o panfleto indicava os nomes dos outros seis artistas que também iriam atuar naquela noite, no pub.

- Distribuíste todos os mil panfletos?

- Não. Distribuí apenas quarenta. Os restantes panfletos regressaram à mala de viagem para junto dos pijamas. Cheguei a “Camden Town” ao final da tarde e o frio, fora da estação de metro, era tremendo. Para meu espanto constato (eu ia jurar que nunca os vira quando fizera o open mic em agosto!) existir bastantes anunciantes com panfletos na mão junto às portas da saída da estação: um elemento de uma banda anunciava o seu concerto sendo os demais anunciantes de restaurantes. O elemento da banda estava todo febril a distribuir os folhetos às pessoas. Abordei-o e disse-lhe que as pessoas estavam com pressa, que nem valia o nosso esforço! Nem para nós olhavam! Ele discordou e disse que estava a correr tudo bem para ele. Afastei-me da estação de metro e vi que todos aqueles que tinham recebido o seu panfleto, deitavam-no ao caixote do lixo sem sequer o lerem -o elemento da banda fazia a distribuição de modo intensivo e robótico. Eu já não estava perto dele. Eu estava a abordar grupos que estavam parados a conversar na rua ou, grupos encostados às paredes à espera de um amigo ou ainda, pessoas em fila para levantamento nas caixas automáticas. Alguns dos que eu abordava afirmavam serem turistas e que já não estariam em Londres para a atuação que o meu panfleto anunciava. O frio era tremendo e eu não ia com roupa adequada. Os anunciantes dos restaurantes também tremiam de frio e desesperavam: muitos potenciais clientes passavam por eles e ignoravam-nos; nem os panfletos queriam receber! Gente desta também eu tinha encontrado no entanto, eu era persistente! Caminhava ao lado deles a perguntar se não gostavam de rock? Se não gostavam de mim?….Eu chateava! Eles tinham de aceitar o meu panfleto! Havia outros a quem nem valia a pena dar o panfleto. Estavam mesmo aborrecidos com o clima ou, outra coisa qualquer na vida deles! Apesar de ser sexta-feira à noite, tinham um ar infeliz! Não acreditavam no fim-de-semana!

- Eles não têm sol! Este põe toda a gente alegre!

- Aproximei-me de uma anunciante de um restaurante de comida mexicana, teria talvez uns 22 anos. Era loira e de olhos verdes. Disse-lhe que estava demasiado frio, que eu me iria embora, que era penoso estar ali a tentar chamar a atenção das pessoas. Ela diz-me que não pode ir embora, que tem de permanecer ali e com ar de cansada, e de chateada com a vida, acrescenta: “As pessoas passam por mim e evitam-me! Não sei se acham que o panfleto lhes vai morder ou se acham que tenho uma doença contagiosa! Olha só: comida mexicana a preços acessíveis! Nem querem olhar para o panfleto!” Regressei à estação de metro e um pedinte embrulhado numa manta, com o seu cão, tinha-se entretanto sentado no chão da rua e encostado ao exterior das paredes da estação do metro. Ele implorava uma esmola e também era ignorado por muitos que ali passavam. Dei-lhe algumas libras e grato diz-me que eu posso fazer uma festa ao cão, que eu constatei para grande alegria minha, estar bem cuidado e bem alimentado. Eu, o pedinte e os anunciantes de restaurantes estávamos unidos por esta noite. Para os outros era uma noite fria; para nós, era uma noite glaciar e dela não veio a ajuda, embora a quiséssemos.

- As pessoas mais sensíveis e mais meigas são por vezes as que tiveram uma vida mais difícil…a abundância torna as pessoas arrogantes, ingratas e insensíveis.

- Talvez. Voltando à sala de ensaio: na paragem de almoço dei-lhes uma das duas sandes que eu levava e umas barras de cereais que seriam para mim. A sala ficava num complexo de armazéns industriais e não tinha visto lá perto cafés ou algo do género -não quis que eles ficassem sem comer até às 5h da tarde, hora em que terminaria o ensaio. O guitarrista “incompatível” nada quis da sandes: apenas água e um maço de cigarros. Este último trouxe de Portugal para cada um dos músicos. Disfarçadamente dei dois maços ao meu amigo “open mic”.

- O ensaio correu melhor à tarde?

- A meio da tarde eles interrompem, sem aviso, o ensaio e saem todos de rompante porta fora. Eu fico estupefacta. Alguns minutos depois deixo também eu a sala para arejar as ideias. Atravesso um pequeno corredor e quando alcanço umas escadas de acesso para a rua detenho-me: no fundo das mesmas há uma porta com um vidro transparente embutido e vejo-os do lado de fora a fumarem os maços de cigarros que eu lhes tinha oferecido. O guitarrista “incompatível” gesticula e fuma de forma irada; o baterista simplesmente fuma e ouve atentamente este guitarrista irado; o meu amigo “open mic” exala o fumo do seu cigarro para o ar tentando manter um ar despreocupado.

- Esse teu “amigo” é exactamente amigo de quem? Ele parece ser amigo de toda a gente quando lhe convém e amigo de ninguém quando ele não vislumbra lucro…

- De facto, ele não ficara para trás para falar comigo como um amigo de verdade o faria mas em todo o caso, tive pena dele por eu não estar a conseguir brilhar. Receei inclusive que ele fosse censurado pelos outros pois, ele é que tinha dado a cara por mim e trazido o baterista. Este por sua vez trouxera o outro guitarrista para a formação da banda. Não sei se eles o questionaram a meu respeito. Se sim, possivelmente deve-lhes ter dito que no open mic eu me portara bem.

- O que é que tu realmente sabias acerca desse teu “amigo”? Talvez nada.

- Momentos antes, a propósito de algo que eu tinha perguntado à banda, sobre se as canções seriam as mais adequadas para a atuação, ele responde: “Não é problema nosso”. Eu sentia-me infeliz, desamparada e sem forças. Se o meu cabelo se se transformasse em cobras prontas a morder as mãos a este meu amigo, injectando-lhes veneno e deformando-as, invalidando-lhe a carreira musical, ele compreenderia o veneno que ele me estava a injectar na alma.

- Não fiques triste…já passou. Eles seguiram a vida deles e tu a tua.

- Naquela sala de ensaio, fiquei com um semblante triste. Ele jamais me teria respondido assim, de forma arrogante, em agosto! Talvez percebendo a minha tristeza, ele acrescenta: “As canções são tuas portanto, não te importes com aquilo que os outros possam pensar. Tenta descontrair-te. Se pensas que algo vai correr mal acaba mesmo por acontecer.” Mas as palavras dele perderam-se na minha mente, além de que eu achava que isto era a repetição de algum conselho dado por algum professor dele –as palavras nem seriam dele. Ele fora capaz de me deixar sozinha numa estação de metro e não atender sequer o telemóvel. Lembrar-me disso transformava-o num estranho para mim.

- Viste-os através da porta que tinha o vidro e depois? Regressaste à sala de ensaio ou vieste embora?

- Regresso à sala de ensaio e permaneço de alma gelada junto à janela observando aquela paisagem de armazéns sob um céu cinzento. Estava a ser um dia deprimente e disse: “PUTA QUE PARIU ISTO TUDO!” Eles subiram. Tentei ensaiar a canção Destiny mas esta cançaõ estava decididamente excluída pois eu não acertava nada nos tempos de entrada das quadras.

- Precisas ter aulas de música para perceberes como eles fazem os tempos de contagem ou seja lá o que isso for…

- Só uns dias mais tarde é que eu iria perceber, sozinha, como eles músicos faziam a contagem dos tempos: barras! Sendo 4 tempos igual a uma barra. Foi para contornar a minha ignorância musical que eu tinha pedido as versões instrumentais deles. O músico no estúdio colocaria a minha voz gravada, das canções do CD, por cima da versão deles, para eu saber onde fazer as entradas e cantar. Nenhum deles sabia dessa minha “técnica” de ignorante que eu também usara nas versões para o “open mic”. O meu guitarrista nunca o soube.

- O músico do estúdio nunca te ensinou nada sobre música?

- Não. O que o músico fazia era trabalhar na canção que eu trazia gravada em cassete de casa, com somente a minha voz, que ditava a linha melódica. Depois, ele fazia os acertos à minha voz gravada, retalhando-a em pequenos pedaços no computador, de forma a obedecer a um bit (ritmo) definido e só depois fazia a versão instrumental da mesma. Eu ensaiava muitas vezes em cima dessa versão e ficava a saber de memória os tempos de entrada. Não precisava fazer qualquer contagem mental. É o mesmo que alguém saber de memória o que diz uma frase escrita mas não sabe ler.

- Precisas ter aulas de música!…

- Pois preciso. O meu amigo guitarrista diz à banda que Destiny é a minha canção favorita. De facto eu tinha-a cantado muitas vezes no open mic e tinha sido um sucesso mas agora, sentia-me frustrada por eu não estar a acertar nos tempos de entrada para as quadras –era tudo tão regular no arranjo que era difícil eu perceber onde ficavam as mesmas. Destiny acabou por ser excluída e eu, que a considerava o meu amuleto da sorte, tinha a certeza que 7 de dezembro iria ser um dia estranho…

- Alguma vez houve contato íntimo entre tu e o guitarrista “open mic”?

- Nunca. O que houve foi apenas um abraço que ele passou a dar-me, uns dias depois, após cada atuação “open mic” quando nos separávamos na estação de metro. Éramos estritamente amigos. O ensaio terminou às 5 h da tarde indo eu em seguida para o aeroporto. O baterista diz que irá procurar na sua universidade um baixista para substituir o seu amigo que nunca compareceu. Vamos todos para a paragem de metro e o guitarrista “open mic” tenta meter conversa comigo.

- O que é que ele falou contigo?

- Apenas começou a dizer “Ninfa-chchch!”! Eu estava uma lástima psicológica por o ensaio ter sido uma merd* e não consegui estabelecer diálogo com ele. Sei que não devo permitir que fatores externos, sempre em constante mudança, interfiram negativamente com o meu estado mental e emocional, conforme os livros de auto ajuda aconselham no entanto, eu permito com demasiada frequência. O comboio estava lotado e tivemos de fazer a viagem todos em pé. Eu posiciono-me junto à janela e eles um pouco mais à frente. Pouco tempo depois, o guitarrista “open mic” sai numa estação de metro juntamente com o guitarrista “incompatível”. O meu amigo “open mic” olha para mim e diz-me até para a semana. Eu estava tão pessimista com o concerto da sexta-feira seguinte, que nem lhe sorrio. O baterista ficou comigo, indo sair na próxima estação e eu, muito mais adiante, na “Victoria Station”.

- Davas-te bem com o baterista?

- Sim. Ele além de se ter responsabilizado, sem eu o ter pedido sequer, pela reserva das salas de ensaio, comprometia-se a arranjar os músicos em falta. Além disso, quando caminhávamos todos juntos na rua, eles tendiam a formar um clã –conversa de homens e, caminhavam a maioria das vezes atrás de mim mas o baterista, de vez em quando, separava-se deles para vir falar um pouco comigo e fazer-me companhia.

- A que horas chegaste a Portugal?

- Cheguei a casa perto da meia-noite e fui consultar a rede social na internet. O vocalista da banda de heavy metal do meu amigo “open mic” acabava de colocar fotos! O vocalista usava um gorro com o seu próprio nome que também estava tatuado no seu próprio braço.

- Talvez seja para o caso de um dia ter amnésia se lembrar como se chama…

- Nas fotos, o vocalista estava num bar, neste mesmo sábado em que eu acabara de ter ensaio. Ele surgia nas fotos juntamente com o meu amigo “open mic”. Ambos lado a lado e ambos com um grande copo de cerveja preta na mão. Possivelmente viriam de algum ensaio de sábado à noite com a banda heavy metal. O 7 de dezembro, 6 dias depois, viria a revelar-se verdadeiramente estranho e ficar-me-ia na memória.

- Porquê estranho?

- Para começar, o meu amigo “open mic” sorri-me ao longe e quando me aproximo dele recusa-se a falar comigo e ignora-me perante todos.

- Que humilhação! Tinhas-lhe escrito algo desagradável?

- Nada escrevi para não criar confusões involuntárias em véspera de concerto. Curiosamente também no dia 7, cinco meses antes, ele respondia-me ao meu anúncio “open mic”. O dia 7 de dezembro seria a última vez que nos veríamos.

- Afinal o que sucedeu nesse dia?

- Nesse dia 7 de dezembro, sexta-feira, acordo perto das 3h da madrugada. Acordo mal dormida, como já vinha sendo hábito desde a fase pós “open-mic-conto-de fadas”. Levanto-me e como o mais que posso! Eu queria ter forças para aguentar todo aquele dia que me aguardava pela frente pois, não iria ter tempo para comer quando chegasse a Londres, tendo de ir imediatamente para a sala de ensaios.

- O que comeste quando acordaste às 3h da madrugada?

- Comi sobras do jantar. Desde massa a sopa. Depois ainda comi três sandes, bebi sumo de cenoura crua e ainda um batido de gema de ovo crua com água quente, cevada e açúcar!  Este batido faz-me bem à voz.

- Sem dúvida, que comeste muito…

- Visto-me e pego na mala de viajem com dois sacos camas e três pijamas (eu tinha pouca roupa na cama de hotel em Londres e precisava dormir quente) e ainda, um par de botas de salto alto para a atuação. Já nada mais cabia na pequena mala. Arranco de carro rumo ao aeroporto. A dada altura, devido à velocidade, perco o controlo do carro numa curva de montanha mas por sorte uma berma alargada, para casos de emergência, estava mesmo ali e não embato nos railes evitando assim um acidente. Arranco novamente a toda a força. Chego ao aeroporto. Após o fastio que é o check in, finalmente embarco no avião. São 6.30h da manhã. Às 9 h chego a Londres ao aeroporto de Stansted. Nunca lá tinha estado antes por ter ido sempre pelo aeroporto de Gatwick. Por uns instantes sinto-me perdida naquele aeroporto. Entre as várias opções de transporte para o centro de Londres, opto pela mais barata: o autocarro. Tiro bilhete e só depois é que fico a saber que arrancará para o centro de Londres somente quando o autocarro estiver cheio de ocupantes! Chego à Victoria Station três horas depois. O comboio teria demorado 45 minutos! É meio dia e o ensaio está marcado para a 1h da tarde. Só vou conseguir chegar ao ensaio às 2 h da tarde e antes tenho de ir ao hotel pousar a mala de viagem e comer uma sandes. Estou com fome e exausta.

- Desta vez, gostaste do quarto de hotel?

- Nem por isso. O micro ondas não funcionava, conforme me apercebi de madrugada após o concerto, tendo que deitar as embalagens de comida pré-cozinhada compradas ao lixo! Portanto, era 1 h da tarde, chego ao hotel, pouso a mala de viagem e vou rapidamente comprar sandes embaladas ao supermercado. Algumas dessas sandes seriam para mim e outras, seriam para oferecer aos elementos da banda que queria que estivessem devidamente alimentados -eles pareciam ignorar constantemente os almoços e os jantares. O supermercado era o mesmo de agosto onde ia comprar as embalagens pré-congeladas. Àquela hora a banda já estava a ensaiar em Camden Town. A sala de ensaio ficava relativamente perto do local do concerto. Depois do supermercado, regresso ao hotel e como rapidamente uma sandes. Depois tomo um duche quente para me lavar, exceto o cabelo, e mudar toda a roupa interior pois estava a transpirar imenso, apesar do frio lá fora –creio que era a apreensão pela proximidade do concerto. Chego à estação de metro de “Camden Town” e telefono ao baterista pedindo para me vir buscar uma vez que não me tinha sido dado o endereço da sala. Ele aparece poucos minutos depois. Está realmente frio e quer eu, quer ele, usamos cascóis enrolados no pescoço a taparem a boca e o nariz para não inalarmos aquela aragem arrepiante. Chego à sala.

- Correu tudo bem no ensaio, comparativamente ao de há uma semana atrás?

- Correu melhor. Quanto à sala era muito pequena mas tinha um piano engraçado que lembrava aqueles que se veem em salons do Velho Oeste, em filmes de Hollywood! Pergunto onde está o meu amigo guitarrista. O baterista responde que ele só vai aparecer para o concerto.

- Ele não te tinha avisado?

-Lembra-te que ele, desde que terminara o open mic em agosto, era um ser ausente e não comunicativo… Este ensaio iria ser feito porque eu tinha pedido tal à banda, no final do ensaio do sábado passado. “Se achas que isso te poderá ajudar, tudo bem.” –replicou o baterista.  Fizemos um total de quatro ensaios. Cada um com seis canções que perfaziam os trinta minutos a que teríamos direito em palco. O primeiro ensaio correu bem: eu tinha melhorado o ritmo. Tinha telefonado ansiosa, logo após aquele ensaio de sábado, ao músico do estúdio e ele sugere-me que eu bata com o pé no chão para obter a coordenação rítmica. Foi quando percebi que o balancear que muitos músicos e cantores fazem, incluindo o bater com o pé no chão, entre outras poses, eram para conseguirem a sincronização rítmica.

- Como conseguiste então gravar as canções do teu CD se não sabias o básico?!!

-Como já te disse há bocado: eu de tantas vezes que ouvia a versão instrumental da respetiva canção na qual teria de cantar, o ritmo ficava gravado na minha mente!

- A versão da banda, não era igual ao do CD?

- Parecida mas não igual, inclusive em termos rítmicos. O baterista passara-me um pequeno sermão, imediatamente após aquele ensaio de sábado, por email, acrescentando que o meu problema rítmico poderia pôr em causa a coesão da banda. Nesse último ensaio ele tinha frisado que talvez fosse bom, após o concerto de 7 de dezembro, eu ter algumas aulas de música para adquirir noções básicas.

- Durante estes anos todos no estúdio de gravação, o músico nunca te sugeriu isso nem nunca te deu dicas para tu estares apta para uma atuação ao vivo?!

- Não. O músico do estúdio dizia-me somente que eu tinha começado a casa pelo teto. Eu achava incorrecta essa observação pois eu estava a conseguir concretizar todas as minhas canções. No entanto anos depois, no primeiro ensaio com aquela banda, percebi que ele estava certo.

- Mas tu não tinhas feito uma “jam session” no teu último open mic, em que atuaste com uma banda?

- Sim, é verdade e correu bem. Os músicos eram muito bons, muito experientes além de que, em agosto, eu tinha a autoconfiança em alta e sentia-me uma princesa. Depois virei um sapo!

- Tolices! Tu és uma rainha! Quando puderes, frequenta umas aulas de música. Entretanto, termina o livro que estás a escrever para as pessoas saberem que tu existes!

- Voltemos à sala de ensaio daquele dia 7 de dezembro! Eu batia levemente com o pé no chão e as coisas estavam a desenrolar-se favoravelmente, na primeira vez que cantei todo o lote das seis canções. Depois na segunda até à quarta ronda de ensaios, comecei a deteriorar gradualmente. Eu não sentia qualquer energia positiva: fisicamente exausta, ensonada, doía-me a cabeça e o guitarrista presente tinha um feitio que me punha desconfortável. Desta vez havia baixista. Era um espanhol. Era amigável e muito calmo. Às 17.30h vamos para o local do concerto pois o promotor, por email, havia pedido a todos os artistas a atuarem naquela noite, para estarem presentes para o teste de som às 18h. Fomos para lá. O local de atuação é na cave do bar, como por vezes já sucedia no “open mic”. O baterista aponta para um cartaz na parede do pub: “Sextas-feiras, noites de jazz!” Diz-me que vai tentar perceber melhor aquilo pois éramos uma banda de rock! Passado algum tempo regressa e diz-me que está tudo ok, que o cartaz é para ser ignorado. Vejo que na porta que dá acesso à cave está um outro cartaz tendo este, o meu nome em letras garrafais seguido de mais 6 artistas. O baterista reparou para onde eu estava a olhar e diz-me em tom sério: “És cabeça de cartaz. Significa que atuamos em último lugar, talvez somente às 23h.” Eu pensei: “Puta que pariu! Como vou matar o tempo até lá? Faltam 5 horas!”

- Cinco horas de espera?! Que dose!

-Vou à casa de banho e aproveito para pôr um pouco de base clara e batom vermelho vivo. A maquilhagem para atuação será esta. Em frente ao espelho refaço a trança que pende sob o lado esquerdo do ombro sob um casaco de cabedal e uma camisola curta. Uso um cinto de cabedal preto com uma fivela prateada nas calças de ganga de cor preta que trago vestidas. Estou com ar de rockeira. Saio da casa de banho e vejo o meu amigo “open mic” de costas, a alguns metros de distância de mim. Está a conversar em semi-círculo com os restantes elementos da banda. Um deles deve ter-lhe feito sinal pois faz uma ginástica engraçada!

- Ginástica?

- Sim. Ele mantém os pés voltados para a frente, exceto o tronco superior que ele roda com a cabeça 180º! Alcança-me com o olhar e exibe um enorme sorriso que se lhe esboçou instantaneamente. Eu também lhe sorrio e caminho em direção a ele. Chego perto dele e imediatamente retoma a posição normal do corpo, voltando-se novamente de frente para os elementos da banda e nem me cumprimenta. Está de cara séria e parece ignorar-me em frente aos outros quando tento falar com ele.

- Quais as razões dele para tal procedimento indelicado?

- Não sei. Tens de perguntar a ele. Talvez tenha sentido “ciúmes” por eu ter estado a ensaiar com a banda e pensado que eu não tivesse sentido a sua falta. Durante os “open mic” detetei nele um carácter possessivo. Eu sentira a falta dele. Ele sempre estivera comigo em todos os ensaios e atuações que eu fizera…é claro que eu sentira a falta dele.

- Onde tinha estado ele para não poder comparecer ao ensaio?

-Suponho que a dar aulas. O outro guitarrista acha que seria interessante irmos para um espaço do bar que havia ali: uma espécie de terraço. Ao caminharmos para lá, passamos perto de uma árvore de natal que subitamente acende todas as suas luzes! Luzes coloridas elétricas que piscam intensamente! O baterista dá um salto no ar e diz assustado: “Ui!”. Eu sorrio e ele diz-me que acha aquelas luzes esquisitas.

- As luzes eram esquisitas?!

-Todos nós ali tínhamos umas personalidades peculiares no entanto, eles pareciam normais e eu anormalmente tensa. Naquele espaço exterior que era o terraço, o frio estava insuportável e eu receava que tal me afetasse as cordas vocais. Além disso, o outro guitarrista transmitia-me a sensação que eu não fazia parte daquele grupo pois, se eu me aproximava deles tendia a deslocar-se para outro ponto do terraço indo os outros atrás dele para dar continuidade à conversa em curso. Desanimada, exausta e farta de torturas psicológicas, decido retornar ao interior do bar. Mas por instantes paro de caminhar, olho para trás e vejo o meu amigo “open mic” a passar os seus headphones ao baixista da banda que acabava de conhecer.  Queria que o baixista escutasse algumas das músicas que ele andava a ouvir no seu “iphone” -talvez fossem de jazz e metal rock. Ele nunca fizera isso comigo. Nunca soube que músicas ele ouvia.

- Tu que tantos esforços fizeste para conseguires atuar dia 7 de dezembro, valeu a pena?

- Posso dizer que sim. Foi interessante. Vivenciei a experiência de ter uma banda. Há 8 anos que trabalhava arduamente nas canções no estúdio de gravação, queria atuar ao vivo!! Tinha uma banda e estava em Londres! Super emocionada! Vivia um sonho!

- Querida…eu não chamaria ao que viveste um sonho, talvez uma lição de vida que te permitirá no futuro liderar uma banda. Sê implacável e nada perdoes!

- Prosseguindo o meu relato: eu saíra do terraço há já 50 minutos e estava sozinha em pé, encostada a uma coluna, quando deteto que alguém atrás de mim me olha fixamente. Ele apanha um susto quando os meus olhos encontram os dele e paralisado contém a respiração! Era o meu guitarrista! Ele fica sem saber o que fazer: se fala ou se se põe a andar. Eu digo-lhe em tom brincalhão: “Fala comigo!”. Ele repete esta minha última frase sorrindo e imitando o meu sotaque. Estendo-lhe a mão para fazermos as pazes pois parecia ter-se instalado uma guerra contínua entre ambos. Ele olha para a minha mão e não avança para ir de encontro a ela até que, finalmente se decide e dá um aperto rápido de mão. Eu digo-lhe que ainda bem que ele está ali pois ele é descontraído e divertido. Ele acena com a cabeça em modo negativo reforçado com a mão a fazer sinal de stop, como querendo dizer para eu não me afeiçoar a ele. Eu penso: “Não sei lidar contigo! Esforço-me mas não sei! Puta que pariu!”