Capítulo 2

O PARANORMAL

 

- Naquela grande estação de metro onde tanta gente chegava e partia, eu percebi o quão horrível é estarmos sós no mundo.

- A tua intuição de anjinha não te avisou acerca dele?

- Sim, fui avisada. Ele tinha qualidades senão eu não teria gostado dele mas a verdade, é que nos conhecíamos mal um ao outro. Ele não era um amigo com quem se pudesse contar nas horas difíceis, por ser fraco e eu, por ser muito sonhadora e desconhecer a realidade das andanças musicais, ia-me assustadoramente abaixo virando um fardo. Eu vivia de vídeos de música de vedetas e das suas belas entrevistas. Era o mesmo que querer aprender sobre o amor vendo filmes românticos!

- Como é que a tua intuição te avisou?

- Em agosto, quando tudo era um mar de rosas, a minha intuição já tinha começado a avisar-me. Eu recusava-me a acreditar nela porque eu não sabia o que fazer com a verdade. O primeiro aviso, foi quando o vi pela primeira vez em que ele me foi buscar ao hotel. A minha intuição dizia-me que eu não poderia contar com ele. Um aviso mais sério surgiu três dias depois após os primeiros ensaios. De manhã, eu tinha ido buscar as minhas adoradas embalagens de comida pré cozinhada ao supermercado. De regresso ao hotel, eu ia a pensar no quanto eu gostava do guitarrista open mic! Gostava mesmo dele! Ele era fantástico! Nesse mesmo minuto, juro-te pela minha vida, algo invisível e sólido se formou, como se uma perna pronta a pregar uma rasteira fosse. E assim foi! Tropeço, não sei como, e caio de frente! As mãos rastejam pelo chão como um skate em andamento e quase toco com o rosto no chão. Um dos dois sacos desprende-se-me das mãos e há embalagens de comida espalhadas pelo rua, fruta e garrafas de água. Eu olho atónita para aquilo tudo, porque eu sabia que aquela ocorrência era um aviso sério. Tinha a palma das minhas mãos esfolada e com vestígios de sangue. “Algo de muito errado vai ocorrer entre o guitarrista e eu!” –dizia eu incrédula. No último dia do open mic, outra vez ao pensar nele, o meu secador de cabelo avariou e de facto  o calor da nossa amizade iria sofrer danos irreparáveis.

- Relativamente à banda, também foste avisada?

- Sim. Na madrugada em que conduzia para o aeroporto, para a atuação de 7 de dezembro, tive um despiste com o carro que por sorte não foi fatal por eu ter tido um espaço alargado junto à berma. Tradução: nesse dia eu terei um despiste com a minha banda! Relativamente à outra banda de março, na véspera da minha partida para o meu primeiro ensaio com esta nova banda, à noite, na condução do emprego para casa, a direcção (o volante) do meu carro começa a fazer barulhos ruidosos que se mantiveram também durante toda a madrugada, do dia seguinte, na condução até ao aeroporto. Tradução: a direção que eu irei tomar na minha vida, nesse mesmo dia, começará a fazer barulho e a apontar outro rumo: da música para o livro!

- Tu e o paranormal. Não seriam apenas coincidências?

- Serão as coincidências uma mera coincidência? Voltando à cena em que o meu guitarrista não atende o telemóvel. Portanto: eu tinha acabado de chegar a Londres, estava exausta da viagem, farta do frio londrino e desorientada com o abandono que estava a sentir. Mas mesmo assim, deixo-lhe uma mensagem no voicemail a perguntar onde está ele! Minutos antes o telemóvel dele tinha dado sinal de ocupado. Decido fazer uma última tentativa. Finalmente ele atende. Diz-me que está em casa de um amigo. Compreendo que ele não irá levar-me a discoteca alguma conforme me havia prometido na última noite do open mic.

- Tu deverias tê-lo deixado estar onde ele estava, quer fosse na casa do amigo ou no inferno! Eu ter-lhe-ia desligado o telefone na cara e não mais quereria saber dele…

- Ele acrescenta que acabara de falar com o amigo baterista sobre a minha chegada. Fiquei surpreendida. Se não havia banda formada o que faria eu com o baterista? Mas ao mesmo tempo achei que seria enriquecedor conhecer outro músico. Pergunto-lhe a que horas será o encontro, de nós os três, amanhã. Ele arrasta a voz e diz que não sabe; para eu lhe telefonar no dia seguinte perto da hora de almoço.

- Eu não teria tido a tua paciência…tê-lo-ia mandado comer bosta.

 -Era a primeira vez, em dois meses, que eu ouvia a voz dele. Ele estava diferente. O timbre era mais grave, parecendo que tinha ingerido um cocktail de hormonas masculinas e o jeito dele era petulante.

- O que fizeste em seguida?

- Dirijo-me para o hotel. “Puta que pariu para isto tudo!”-refilo eu. Não sei se me refiro à situação acabada de viver ou se à ideia de voltar a comer grão-de-bico cozido de lata do mini mercado, tal como no meu primeiro dia em Londres em agosto, só para matar a fome. E no hotel não me deram o meu estimado quarto de agosto conforme solicitei por email mas sim, um outro no piso superior! Eram 8h da tarde e era noite. Eu queria movimentar-me para libertar a raiva que sentia mas eu embatia contra as paredes do quarto claustrofóbico. Eu era um animal selvagem enjaulado prestes a morder as grades de ferro, tal era a minha desorientação! Eu estava confusa…Sentia-me totalmente desorientada. Decido telefonar ao meu amigo tarólogo. As previsões deste feitas em Setembro, relativamente ao meu amigo “open mic”, estavam a meter-me em sarilhos tal como a minha crença, na vidente brasileira, anos antes, em relação ao cantor do capítulo quatro.

- O que é que eu te tinha dito acerca de videntes?! Mesmo que eles adivinham alguma coisa, tu é que tens de tomar as decisões e viver com as consequências das mesmas! Essa gente faz mais mal ao espírito que bem! Se os vaticínios são demasiado bons, o excesso de confiança levar-te-á a fazeres disparates; se o vaticínio é mau levar-te-á a desanimares e a não batalhares por aquilo que queres! Não podes ser assim tão influenciável! O que disse esse teu amigo tarólogo em setembro?

- Primeiro disse-me para eu ter cuidado com as ilusões relativamente ao meu guitarrista open mic. Depois disse que ele iria nutrir fortes sentimentos por mim mas antes iria haver muitas chatices e complicações. Salienta ainda que nem é normal alguém da idade dele nutrir sentimentos assim tão fortes…mas logo em seguida diz que o meu companheiro na vida seria um homem mais adulto, mais velho, dado que a carta em cima da mesa era de paus. Depois falou qualquer coisa acerca do guitarrista ter um papel importante na formação da banda. Acerca da minha preocupação em eu poder garantir o pagamento aos músicos de uma banda, ele diz que as cartas indicavam retorno de dinheiro. Disse também ver para mim viagens adiadas e muito, mas mesmo muito, desgaste emocional. Acrescentou que via água. Eu respondi que adorava água: duche e piscina. Ele diz para eu usar este meio para relaxar porque eu iria precisar muito disso, dado o desgaste emocional que me aguardava.

- Então estavas em Londres, sozinha, confusa e decidiste telefonar a este tarólogo, certo? O que afirmou ele relativamente à situação que estavas a viver?

- Olha, usou uma afirmação que se aplica a qualquer situação! Ele diz-me: “As coisas apenas não são conforme tu queres. Não te preocupes que isso nada resolve!” O tarólogo estava com pressa pois tinha os dois filhinhos menores no carro! E queria chegar a casa o mais rapidamente possível. Até parecia que ele é que tinha verdadeiros problemas! Em seguida liguei ao músico do estúdio de gravação. Disse-lhe que estava em Londres e contei-lhe quão ausente era o meu amigo guitarrista: o tal que ele me recomendara para o open mic dizendo que éramos compatíveis e que eu tanto elogiara. Mas o músico já me tinha alertado: “Tenha cuidado com os elogios a quem tece porque pode-se decepcionar. Não confie em demasia!”.

- O que disse o músico quando lhe disseste que tinhas voltado a Londres?

- “Você está a onde?! Em Londres?! A fazer o quê?!” –pergunta-me ele estupefacto. Respondi-lhe que estava a tentar formar uma banda. Mas na verdade, eu tinha a mente toldada e nada conseguia ver para além das paredes daquele quarto. Relativamente à ausência do meu amigo, e ao meu queixume, o músico responde: “O que é que eu lhe posso dizer?! São seres humanos! Fazem destas coisas! Abandonam! Contradizem-se.” E mais ninguém tinha a quem telefonar para desabafar!

- Eu existo!!

- Mas tu estás tão longe... o saldo do telemóvel, era pouco…além do problema do fuso horário. Peguei no pouco saldo do telemóvel que tinha, porque dizem por aí que o diálogo é a solução para o entendimento, e decidi ligar ao meu “amigo ausente”. O telemóvel a partir desse mesmo instante recusou-se a fazer a ligação! A linha ficou morta por várias horas! A ligação por satélite simplesmente não se efectuava! No momento pensei ser apenas uma mera coincidência mas, mais tarde, verifiquei que em situação de stress extremo provoco, sem saber como, avarias.

- Lá vem ela com o paranormal outra vez…

- Eis uma pequena lista de avarias sucessivas, em dias sucessivos, logo após o meu regresso a Portugal desta última ida a Londres, em que cheguei bastante transtornada. No carro seis avarias sucessivas! Os vidros não obedeciam ao botão eletrónico, depois o aquecedor do carro que avariou, depois foi a porta de abastecimento de gasóleo que encravou, depois foi o radiador que teve fuga de água, depois houve fugas de óleo no motor e depois as luzes de travagem do carro fundiram! No meu quarto, a lâmpada do teto ao ligar o interruptor fundiu de imediato no instante que entrei no acabada de chegar da viagem! A máquina de costura, onde eu costumava fazer pequenos arranjos, avariou imediatamente cinco minutos após eu a ter utilizado! E a linha telefónica, que permite acesso à internet, também avariou! Com esta última avaria fiquei mesmo aborrecida! “Como vou eu agora saber o que aquele sacana anda a fazer em Londres se não posso consultar a rede social na internet?!” Como se não bastasse eu tinha discussões, e mal entendidos, com pessoas que não conhecia de lado algum! Por exemplo, numa fila de pagamento das compras no supermercado! “Puta que pariu para isto tudo! Ando a projetar algo de mau para o Universo e esse espectro persegue-me!” –pensei eu.

- As coisas correram tão mal assim em Londres? O quarto de hotel também não prestava?

- Naquele quarto de hotel o micro-ondas era o único que funcionava bem! Eu funcionava mal. Eu não conseguia raciocinar. Fartava-me de permanecer em pé junto à cama daquele quarto minúsculo dando passos, ora para a frente ora para o lado. Deitava as mãos à cabeça, quase que dava murros contra as paredes e não percebia até onde caminharia a minha vida! Eu sentia-me mal! Toda nua vou para o duche mas este não tem cortina. O chuveiro está preso ao teto, a água cai diretamente para o chão de cimento da casa de banho em formato de bacia e ao ligar o chuveiro, por falta de cortina, este irradia água para todos os lados. As toalhas penduradas no lavatório ficam imediatamente molhadas, o chão fica molhado, os rolos de papel higiénico pousado em cima do lavatório ficam encharcados, eu sou salpicada de água fria e constato que ela fria continua com o decorrer do tempo: não vai ficar quente nunca! Tudo na casa de banho está salpicado de água fria incluindo o espelho do lavatório. Eu estou a tremer de frio, não posso tomar um duche quente para relaxar e digo bem alto: “PUTA QUE PARIU ISTO TUDO!” Mas penso que naquela hora haverá gente em piores condições que eu a passarem fome e sem abrigo! Visto o pijama. Como tremo de frio, visto três pijamas. O telemóvel está sem bateria, ligo-o ao carregador mas este solta-se constantemente da tomada da parede. São 10 h da noite e não sei o que fazer para matar o tempo até ao dia seguinte. Estou cheia de fome. Quando me preparo para comer o grão-de-bico biológico cozido enlatado, começo a ter fortes dores de estômago. Quase vomito e o grão de bico puxa repentinamente algo de há dois meses atrás que eu havia esquecido: as minhas refeições de agosto no chão da casa de banho.

- O quê?! Comias no chão da casa de banho?

- Aquele quarto de agosto era alcatifado e como as embalagens de comida tinham molhos, eu facilmente sujaria a alcatifa de forma lastimosa.

- Não havia uma mesa?!

- Sim havia, mas nela estava o mini frigorífico, a cafeteira elétrica, o micro-ondas, uma chávena e um copo. O espaço que me restava era minúsculo. Então optei por abrir a porta da casa de banho, sentar-me no chão e colocar livremente, sem preocupações de espaço, as embalagens de comida, bebida e fruta em cima de guardanapos, no chão de azulejo da casa de banho. Não sabia que eu me tinha sentido tão solitária em agosto até esta lata de grão-de-bico, à minha frente, me fazer agora lembrar de tudo. Eu recebia mais amizade das árvores da bouça lá de casa, em Portugal, por entre as quais eu passara a caminhar bastante que deste guitarrista aqui em Londres.

- A minha ninfa das florestas, bosques e fontes…

- Às onze horas da noite, naquele quarto de hotel, o meu telemóvel continuava a recusar-se a efectuar chamadas: não fazia ligação por continuar com problemas em se conectar com o satélite!  Subitamente digo a mim mesma que tenho de colocar novos anúncios online mas desta vez, dizendo que contrato músicos, tal como o fizera no anúncio a pedir guitarrista para o open mic. Isso implicará um esforço económico acentuado dado que terei de suportar a despesa de pagamento de quatro músicos, sala de ensaio, hotel, avião e ainda em Portugal, a mensalidade do estúdio de gravação e despesas habituais tais como roupa, transporte, alimentação, luz, fatura da internet etc, O meu salário mensal apesar de não pagar isso tudo, eu estou disposta a tudo e iria socorrer-me das poupanças económicas para tal! Eu queria ter uma banda! Á 1 h da madrugada envio então uma sms ao baterista e ao guitarrista “open mic” informando que não queria os serviços deles de graça, conforme eles me ofereciam, e que estava a contratá-los!

- Eles aceitaram a proposta ou recusaram por entender que já estavas demasiado sobrecarregada economicamente?

- No dia seguinte, quando nos encontramos, ambos disseram aceitar.

- Como é que te sentiste nesse dia ao acordar?

- Acordei às seis horas da manhã com a cabeça a doer-me imenso! Talvez se devesse ao desgaste emocional a que estava a ser sujeita. Não consegui voltar a adormecer e, a partir dali, o meu passatempo, por longas horas, foi permanecer deitada na cama a fixar os olhos no teto o mais que eu pudesse.

- Para quê fixar os olhos no teto?

- Era o meu passatempo! Fixava os olhos no teto por algum tempo e depois olhava para o relógio para ver quantos minutos tinham entretanto passado. Primeiro 3 minutos, depois 12 minutos e assim sucessivamente. Olhei para o relógio e era agora quase meio-dia. Telefonei conforme o combinado para o guitarrista. Ninguém atende. Pela primeira vez telefono ao baterista. Atendeu ainda a comer. Pediu desculpa e disse estar a tomar o pequeno-almoço. Foi simpático e atencioso. Pergunta-me se está tudo bem comigo e se eu quero que eles os dois passem pelo meu hotel. Respondo que eu preciso sair do quarto para espairecer e que o encontro pode ser noutro local qualquer. Ele pergunta-me para que horas desejo marcar o encontro. Digo que isso está dependente do amigo dele guitarrista e peço-lhe, para por favor, o contactar uma vez que eu não o estava a conseguir. Passados 15 minutos o baterista informa-me que o local de encontro será às 16 h na estação de metro “Tottenham Court Road”.

- Posso-te dar a minha opinião acerca desse teu amigo guitarrista?

- Não vale a pena cansares-te com isso porque a única coisa que ele, e os outros, merecem é o meu sincero obrigada. Sabes o que aquele quirólogo, pai daquela que tinha o rabo enfiado na sanita quando o ex marido foi lá a casa, me disse uma vez? “Não se preocupe com aquilo que os outros possam pensar e esqueça todos os que a magoarem. Quando morremos o que sucede? Os outros tratam de se livrarem de nós bem depressa enfiando-nos debaixo da terra! Todos choram a nossa morte mas logo no dia seguinte a vida continua com sexo, comida e bebida e nós mortos estaremos! Portanto, saibamos viver enquanto estamos vivos!”

- Como foi que decorreu o encontro entre vocês os três?

- Eu fui a primeira a chegar. Levava cigarros de Portugal para o guitarrista. Eu procuro-o insistentemente com o olhar mas não o vejo em parte alguma. Subitamente ele está junto a mim. Afirma que eu estava a vê-lo mas a fingir que não. Contraponho que de facto não o tinha visto e dou-lhe os cigarros. Como ele continua a falar com toda a naturalidade sem me pedir desculpas viro-lhe as costas. Ele sente-se ofendido e faz-me o mesmo.

- Esse fulano…é engraçado. Tu gostas de pessoas assim?

- De vez em quando roda a cabeça e põe-se a olhar para mim como se me visse pela primeira vez. Parece emocionado pois pestaneja imenso quando por norma, costuma ter um olhar fixo. O baterista chega finalmente e vamos todos, por sugestão deste, ver uma sala de ensaios ali perto. Depois vamos para um café ali perto. Conversámos. O baterista pergunta-me quantos concertos tenho agendado. Eu respondo que apenas um: 7 de dezembro. O meu amigo “open mic”, que em agosto era modesto, tem a autoconfiança aumentada em muito, facilmente se ofende, é ligeiramente arrogante e muito rancoroso.

- Rancoroso, porquê e com quê?

- Por exemplo, o baterista perguntou-me possíveis datas de ensaio para mim em Londres e indico-as mas o baterista quer menos ensaios. Reduzem-se os dias mas mesmo assim, há um dia em que o baterista diz não poder estar presente. Eu lamento e digo que gosto de sentir a presença da bateria. Aí o meu guitarrista desdiz-se, parecendo ciumento, e afirma também não poder comparecer e desmarca-se o ensaio! Ainda bem. Naquele dia de manhã quando acordei o pneu do carro estava vazio com um prego que se lhe tinha encrustado!

- Foi a tua sorte paranormal a ajudar-te…

- Parece que sim. Confesso ao baterista que, embora eu cante, tenho uma compulsão maior para a escrita e, dou uma palmada sorrindo nas costas do meu amigo “open mic” que sorriu de imediato. Eu tinha-me mantido em contacto regular com ele, por email, durante estes últimos dois meses e ele tinha constatado essa minha compulsão. Decido quebrar o gelo e dar-lhe alguma atenção pois, eu tinha-me esforçado por o ignorar. Ele diz que eu deveria escrever letras para canção e vendê-las, que isso poderia dar-me dinheiro. “Tretas! Vender a quem?! Se tu soubesses da minha vida…tentei com um cantor britânico e não o consegui”- pensei. Este meu amigo “open mic” pensava bastante em dinheiro: a segurança económica é importante para ele. Em agosto tinha-me dito que adorava ter ingressado no curso de Economia na universidade da sua terra natal mas o exame de matemática, como prova de acesso, fê-lo repensar e optou por música em Londres. Ele ontem afirmava estar em casa de um amigo seu, quando eu cheguei a Londres. Hoje trazia apenas uma pequena mochila consigo. Em agosto andava sempre com uma ou duas guitarras.

- O sexo aumenta a autoconfiança, a auto estima, o humor e a sacanice. A guitarrada dele agora era no meio das pernas!

- Ainda bem que ele me deixou sozinha na estação de metro. Ter ficado sozinha pôs-me a pensar na formação da banda enquanto embatia com a cabeça contra as paredes do quarto de hotel! Ao fim de uma hora saímos do café. Começou a chover levemente. Tirei o casaco e pus lo por cima da minha cabeça. Caminho à frente. O baterista fala em francês com o guitarrista, ambos francófonos, e aponta possíveis nomes para o eventual segundo guitarrista da futura banda. O meu guitarrista faz-me uma breve tradução, para inglês, da conversa pois falam tão depressa que pouco entendo: o meu francês é escasso. O meu amigo “open mic” pede-me para eu vestir o casaco que estava por cima da minha cabeça. Chovia e o ar estava frio. Eu usava botas, umas calcas de ganga justas claras e uma camisola de algodão branca curta pela cintura. “Veste o casaco senão gripas-te!” –diz me ele.

- Eu acho que ele gostava de ti.

-O baterista agora despede-se de nós –tem umas coisas a fazer. O guitarrista e eu vamos até à estação de metro mais próxima. Ele pergunta-me, por duas vezes consecutivas, se eu tinha gostado do baterista. Lembrei-me duma cena de ciúmes que ele tinha feito num fabuloso “open mic” feito a uma sexta-feira em Westminster. O promotor foi o máximo e o público o melhor! A canção “Destiny” foi um sucesso! Quando eu cantei a parte: “Destino! Paga-me umas boas férias!” O público gritou: “Isso mesmo!” O promotor meteu dois minutos de conversa rápida comigo. Após o término da atuação o guitarrista afirmava que eu iria casar com o promotor e nos dois dias seguintes, passou a dizer que eu deveria telefonar ao promotor. Tive que lhe perguntar se aquela cisma dele pelo promotor, era amor!

- O teu guitarrista era ciumento….ele gostava de ti. E depois, conversaram e fizeram as pazes?

- A viagem no metro fora breve e saímos logo na estação seguinte mas para destinos diferentes. Digo-lhe que não mais lhe voltarei a escrever, que não valia a pena dado que ele raramente dava sinal de vida. Ele responde que eu não sou capaz de resistir   ao impulso de lhe escrever. Digo-lhe que ele está equivocado mas acrescento que ele me ficará sempre no coração, por ter sido o primeiro músico com quem fiz atuações ao vivo. E que eu tinha gostado muito dele. Sabes uma coisa? Acho que vou transcrever a conversa telefónica que estou a ter contigo, no complexo desportivo onde faço ginásio. Tem lá uma enorme sala de estar bem quentinha. No parque automóvel, embora tenha a cobertura do piso superior, as noites estão a ficar cada vez mais frias e já não consigo escrever.

- Também acho difícil lá escreveres…

- Voltando a Londres: estamo-nos a despedir. Dou-lhe um cumprimento de mão e ele diz, de forma enfática: “Até daqui a um mês.” Ao desmanchar o aperto de mão eu ainda mantenho a minha mão presa à palma da mão dele. Ele repara nisso e olha para a minha mão. Preparo-me para lhe virar costas e vejo de repente ele abrir os braços para eu o abraçar. Fiz alguma força para me libertar e abreviar o abraço. Eu estava muito magoada com ele.

- Fizeram então as pazes?

- O retorno ao estado pacífico, por culpa de ambos, não seria mais possível pois iríamos colidir constantemente a partir daquele dia. Não haveria mais abraço algum. O destino iria pregar-me uma rasteira com uma frase, que me brotou da boca não sei como, após a atuação de 7 de dezembro. Eu chamo de rasteira. O destino chama de plano. Tentei reverter a situação mas o destino é um plano inalterável.

- Lá está ela com as coisas esotéricas dela…o destino!

- Vou-te ler mais um dos poemas esquisitos que excluí do capítulo cinco!

- Ótimo! Eu adoro poemas esquisitos!

- O poema chama-se “Puf”: “Olhei em frente; As árvores altas cresceram tortas pela força dos ventos; Os carros circulam e contornam rotundas; Há autocarros a fazerem marcha atrás para estacionarem; Olhei para o lado esquerdo e vi um cartaz a anunciar gelados; Está lá desde o Verão; Estamos no inverno; Vejo relva, montanhas e pelo meio um caminho iluminado por 26 paus tipo pirilampo; Postos de alta tensão elétrica estão entre as árvores tortas e a montanha; Estrelas de natal decoram a vitrine em frente a mim; Lá fora começa a escurecer; A televisão está a dar uma série divertida; Um laçarote dourado está afixado numa coluna do bar; Em breve é natal; Eu estou sentada num puf! O ano novo em breve está aí! Será um ano bom?“

- O poema não é esquisito, é de difícil interpretação! O que simbolizam as árvores tortas, os carros, as rotundas, os autocarros em marcha atrás, os postos de alta tensão, as estrelas de natal, o laçarote de natal, os 26 paus iluminados…? E já agora o que simboliza o puf onde estás sentada e o cartaz de gelados?!

- Se eu quiser arranjar simbologia com certeza que a encontro mas o poema relata exatamente o que eu vi, quando fui ao complexo desportivo para fazer natação. Eu estava sentada na sala de estar para onde pretendo ir transcrever a nossa conversa!

- Nunca sei quando um poema é poema ou realidade…Quero um poema erótico!

- Deixa-me ver se tenho o que queres...talvez este tenha o teu estilo, chama-se “Sinais, factos, raciocínio e conclusões”.

- O nome do poema é engraçado…

- “Beijas-me; O coração bate forte e fico ruborizada; Entre as pernas sinto uma forte compressão muscular que até dói; O sangue aí flui em força e bate ritmadamente parecendo um segundo coração; Acho que estou excitada.”

- Esse poema não é erótico, é porno. Onde entram os sinais, factos, raciocínio e conclusões?

- Entram no título e na cabeça de cada um que ler o poema…

- Tu és engraçada…Vamos então voltar a Londres: ele dá-te um abraço na estação de metro, despedem-se e depois?

- Depois chego irritada ao hotel…Eram 7h da tarde e eu estava irritada pois o meu amigo “open mic” não ficou a conversar comigo e durante o pouco tempo que estivemos juntos manteve-se quase mudo! Se eu lhe perguntava algo, ele devolvia-me uma pergunta exatamente igual! Por exemplo, se eu lhe perguntava: “Como vai o teu trabalho como professor nas escolas de música? Estás a gostar?”, ele respondia: “Sim…e tu? Como vai o teu trabalho?”. O diálogo era isto…ele mal falava!

- Após o que ele te fez no dia anterior, que esperavas tu? Ele estava calado porque se sentia mal com ele mesmo e escondia-te algo.

- Não sei porque escondia. Éramos apenas amigos e não namorados. Ele devia-me amizade e lealdade, apenas isso.

- Depois de se despedirem, sabes para onde ele foi?

- Não lhe perguntei. Naquele dia era sábado e penso que foi dar aulas particulares pois em agosto ele dava aulas ao final da tarde de sábado mas, não sei.

- A noite no hotel foi ligeiramente melhor? Conseguiste dormir?

- Não. Eu achava a minha vida inútil e todos os meus esforços, fosse lá no que me metesse, igualmente inúteis! Não me conseguia acalmar. Sentia-me magoada e estava chateada! Estava chateada com o chuveiro do quarto do hotel, chateada com Londres e chateada com o meu amigo “open mic”. Eu estava chateada e tinha de chatear alguém! Envio-lhe uma sms a agradecer a apresentação do baterista e digo que ele já não é tão engraçado, e tão cheio de vida, como em agosto!

- Ele devolveu resposta?

- Não. Lembra-te que ele é bom a fazer-se de mudo! Sabes que em agosto observei que ele é ligeiramente hipocondríaco. Ele faz aquelas poses de guitarrista em palco com gritos de “death metal” mas…

- Mas ele, e a maioria masculina, quer uma namorada que sirva para esvaziar os tomates e também de mãe que tome conta dele, não é anjinha?

- Talvez. Tinha chegado a Londres sexta.f e regresso a Portugal domingo de manhã. Segunda-feira à tarde o baterista informa-me que já tem o segundo guitarrista e um baixista: eram dois amigos dele. O eu ter afirmado que contratava músicos surtiu o seu efeito! A banda estava portanto formada! A partir desse instante, para qualquer coisa relacionada com a música, passei a dirigir-me ao baterista. Pedi-lhe por favor para a banda se reunir e gravar, nem que fosse de forma rudimentar, a versão das canções que executariam em palco para eu me familiarizar e ensaiar em casa. Pedi ao guitarrista “open mic” para fazer os arranjos e enviei-lhe pagamento para tal. Não mais lhe escrevi. Passados uns vinte dias, por volta das 10 h da noite, sinto um súbito mal estar e parecia ouvir na minha mente alguém revoltado a resmungar. À 1 h da tarde do dia seguinte recebo um email do meu amigo “open mic” dizendo que não tinha tempo para mim…

- O quê?!

- Eu fiquei sem pinta de sangue nas veias, tal foi o meu pânico. No email ele dizia que não tinha tempo para mim e, mais ainda! Dizia também que andava muito ocupado com a lecionação de aulas nas escolas de música e aulas privadas, e que além disso, começara a tocar em alguns projetos musicais sendo difícil a sua permanência na minha banda após o concerto de 7 de dezembro. Finalizou o email, dizendo que iria reunir-se naquela noite com o baterista para fazer os arranjos de rock para as canções pop, tais como “Moonlight”, e que entretanto iria tentar encontrar um guitarrista para mim.

- Achas que ele se sentira ignorado por não lhe estares a escrever e passares-te a comunicar somente com o baterista?

- Sim. E ao ler o email dele associei a voz que tinha ouvido na minha mente à dele. Eu estava a ficar cada vez mais pasma com as atitudes dele. Não me tinha arranjado um guitarrista quando eu precisava e estava agora a dizer que me arranjava um?!

- Como reagiste?

- Olha… gastei todo o saldo do meu telemóvel com sms´s para ele nas duas horas seguintes. Primeiro as sms´s eram meigas e diziam o quanto eu apreciava a presença dele; depois passaram a ser desdenhosas e a dizerem o quanto eu seria famosa, com ou sem ele; no fim as sms´s já eram mais agressivas e diziam que eu iria exceder todas as bandas dele, atuais e futuras, em termos de bilheteira, que ele poderia ir-se embora, que eu não queria a ajuda dele para nada!  

- Possivelmente querias que ele tivesse ficado na banda…

- Eu deveria ter mantido a calma e ter entendido que era apenas chantagem psicológica dele, para se certificar que eu o queria por perto pois, ele manda-me uma sms de imediato a dizer que ainda era o responsável pelos arranjos, quando lhe disse que ele se podia ir embora.

- Vocês os dois…que complicação.

- Era quase finais de novembro. Em breve eu partiria para os ensaios em Londres e as versões da banda, nem vê-las! Após semanas de espera, elas eram inexistentes! Insisti por sms uma vez mais com o baterista, e desta vez também com o meu “amigo chantagista open mic”, de que eu precisava das referidas versões para poder ensaiar. Pedi uma vez mais, que todos se reunissem para tal sugerindo até que eles comessem bastante pois, iriam transpirar muito! Eu queria as versões gravadas com intensidade e, ao rubro! O meu “amigo chantagista”, acabado de chegar de mais uma atuação da Suécia, manda-me três sms vazias como resposta.

- E isso queria dizer o quê?

- Sei lá…talvez se estivesse a rir!

- Regressaste então outra vez a Londres, certo?

- Sim. Cheguei a Londres a 24 de novembro, sábado, à sala de ensaio às 14 h e iria arrancar para o aeroporto, com destino a Portugal, 3h e 40min depois! Todos eles tinham pouca disponibilidade. Eu reduzi a minha presença em Londres ao mínimo poupando assim dinheiro em hóteis.

- Quem eram os elementos que compunham a banda?

- Da banda fazia parte o baterista ainda estudante do segundo ano de música de bateria; dois guitarristas recém-formados e actualmente, a darem aulas; o baixista não sei pois não apareceu. A banda tinha quatro músicos. Na sala de ensaio, eles iriam agora gravar as seis versões para mim conforme lhes tinha pedido.

- Gravaram as versões para ti?

- Saí de lá apenas com três versões pois, na quarta canção “Times”, o baterista não atinava com o ritmo a marcar. O meu amigo guitarrista até se aproximou dele cantarolando a música na guitarra, que ele tão bem conhecia do open mic, para ver se tal ajudava o baterista. Mas mesmo assim a dada altura o baterista, já enervado, desistiu!

- Se eram versões instrumentais, eles não poderiam ter gravado sozinhos em Londres e enviarem-te por email? Tiveste de ir a Londres, por causa das versões?!

- Bem…tive de ir a Londres. Na sala de ensaio passei a olhar fixamente o baterista. O guitarrista “open mic”, que até então evitava olhar para mim, como se ofendido com algo estivesse, passou a colocar-se entre o meu campo visual e o baterista. E de vez em quando olhava para mim. Eu não estava fixada no baterista. Eu simplesmente pensava como iria eu cantar naquelas versões se eu não sabia identificar em que partes teria de cantar ou calar-me. Estava tão habituada à versão do estúdio. A sessão terminou. O guitarrista “open mic” sai disparado da sala de ensaio e eu vou atrás dele por não saber como chegar sozinha ao metro. Pergunto-lhe se se importa que o acompanhe. Ele responde que talvez se importa. Deixei-me ficar ligeiramente para trás. Ele caminha mantendo a cabeça direcionada para a frente mas rodava os olhos totalmente para a direita, tentando alcançar-me com o olhar. Eu apercebi-me disso. Aproximei-me dele e bati-lhe ao de leve no braço para ele olhar para mim. Perguntei-lhe que diabo de cena era aquela, porque estava ele zangado comigo?

- Olha, ia-te perguntar o mesmo! Ele estava zangado porquê?

-Ele responde falando baixo quase entre dentes: “Nunca mais me contactes a partir de 7 de dezembro” e calou-se. Eu pensei: “Puta que pariu! As cenas continuam!” Continuámos a caminhar os dois calados. Chegámos à estação de metro “Oxford Circus”. Ele pergunta-me porque lhe tinha enviado várias sms a mandá-lo foder. Eu respondo-lhe que não era apenas ele mas sim todos eles! A banda completa que fosse foder! Eu queria as versões! E nada! Tive de vir a Londres para obtê-las e apenas obtive algumas!

- Mandaste-o foder várias vezes?!

- Não sei porque ficou ele ofendido se a maioria das minhas sms até vinham acompanhadas de um smile! Ele ameaça-me outra vez que vai deixar a banda e, como se não bastasse, tem o descaramento de ainda se mostrar ofendido comigo! Eu estava pasma! Embora eu numa sms, mesmo antes de partir para esta viagem até Londres, além de o mandar foder também lhe dizia que o amaldiçoava!

- Ele ficou aflito por o amaldiçoares?

-Ele não acredita nisso! Para falar toda a verdade, logo em seguida a essa envio-lhe outra: “Sem as versões estou fodida e tramada! Tu fodes-te-me a vida, foi bom? Espero que tenhas gostado de me foder!” Ele envia-me uma sms como resposta.

- O que dizia ele?        

- “Aha sim Gatoooooooooooo!” Escrito em português!!!

- Esse é o tema do teu sucesso em português muito divulgado nas redes sociais e que passou na rádio! Como sabia ele disso?

- Deve ter ido ao “Google” e feito a pesquisa com o meu nome. Voltando à estação de metro “Oxford Circus”: ainda tivemos que andar lá dentro daquele enorme espaço para apanhar as respetivas linhas de metro. Em vez de manter a minha cabeça fria, ele que me tinha dito para não mais o contactar após a atuação, comecei também a fazer chantagem e a discutir com ele enquanto caminhávamos: “Queres ir embora da banda?! Vai! Só queres atuar a 7 de dezembro?! Tudo bem! Tu és agressivo! VAI EMBORA!” Eu caminhava enervada e a discutir! A dada altura olho para ele. Subitamente, ele fica com os olhos cheios de água e vermelhos –isto deve ter sido tão instantâneo nele que o apanhou de surpresa. Ele cerra os maxilares e sorri. Uma mulher mais à frente olhava para trás para ver quem era a fulana que estava a discutir alto. “Sou eu! Sou latina! Nós expressámos os nossos sentimentos nem que seja no meio de um túnel cheio de gente calada!” –pensei enquanto a matava com um olhar raivoso. Olhei para o meu adorado guitarrista e cerrei os dentes de ódio. Ele imita-me e sorri.

- Ele tinha um jeito engraçado…e tu também.

- Ao chegar ao momento de nos separarmos ele diz-me de mãos nos bolsos: “Não há abraço!” Eu penso: “Recusas um abraço?! Que cena ridícula!”. Separámo-nos. Eu caminhava pensativa. Ao meu redor via uma multidão de pessoas: pareciam formigas em múltiplas filas paralelas. Perdi-me naqueles túneis e não sabia para onde me dirigir para apanhar a minha linha de metro. Passados alguns momentos, não sei como, estou novamente junto a ele. Vejo-o de costas. Ele está a consultar o mapa do metro para saber qual o que terá de apanhar estando de auscultadores a ouvir música. Ele que não me tinha visto, sentiu como um sismo psicológico a forte palmada que lhe dei nas costas. “Tu és maluca! Para com isso!” –grita-me ele.

- A tua história tem imensos episódios de imprevisibilidade…

- Sei que tenho problemas de dependência psicológica e para não lhe ser tão notória, nas primeiras semanas em Portugal após o open mic, até inventei uma amiga loiraça que seria mestre de karaté e dona de uma mota de grande potência na qual juntas iríamos à praia! Ela era lésbica e estava apaixonada por mim.

 

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