Capítulo 2

 

O GUITARRISTA  "OPEN MIC"

 

- Então como saíste dessa embrulhada? Quando apareceu finalmente a solução?

- Num outro site de música londrino, que não o do meu anúncio, vi o de um web designer que oferecia os seus serviços aos artistas/músicos/bandas para a conceção e criação de sites. Consultei a sua biografia: irlandês a residir em Londres, muitos hobbies e empregos vários, sendo um deles web designer. Enviei-lhe um email no qual eu me apresentava e pedia o parecer dele relativamente às possíveis razões, a seu ver, para o facto de eu não estar obter respostas através do meu anúncio que ia em anexo. Se ele me poderia elucidar, ou dar-me alguma sugestão, acerca do meu problema já que ele vivia em Londres, fazia websites para bandas e possivelmente até teria amigos músicos.

- Tens cada ideia maluca! Contactar um web designer para o teu problema na formação de banda! Ele respondeu?!

- Sim! Ele explicou que a forma como eu estava a ver a solução para o meu problema não era a melhor pois, dizia ele, as bandas gastam muito tempo a trabalhar as suas próprias canções e portanto muito dificilmente iriam aderir à minha ideia. Além de que, têm o seu próprio estilo musical que poderia não ser compatível com o meu. Sugeriu então que eu pegasse na minha guitarra e fizesse versões acústicas pois deste modo, eu não estaria dependente de uma banda e poderia fazer confortavelmente atuações ao vivo.

- Mas tu não tocas guitarra!

- Pois não. Expliquei-lhe que não tocava instrumento algum e ele contra argumenta dizendo: “Contrata um guitarrista! Assim tens duas vantagens: gastas dinheiro apenas na contratação de um músico e é muito mais rápido que tentar formar uma banda!” Nunca me tinha ocorrido cantar os temas apenas acompanhadas de uma guitarra! Questiono o músico do estúdio e ele diz que a sugestão do web designer é passível de concretização mas, avisa-me que eu irei estranhar as canções em termos de arranjos, uma vez que elas serão executadas somente com uma guitarra.

- O músico do estúdio, há tantos anos na música, não sabia ter-te dado a sugestão que o web designer te deu? Foi preciso um web designer sugeri-la?!

- Parece que sim…Avancei de imediato para o anúncio e nele dizia que a cantora Ninfa Artemis, de Portugal, procurava um guitarrista profissional, a residir em Londres, para atuações durante o mês de agosto e que seria um trabalho remunerado. O meu anúncio destacava-se dos demais por ser o único a mencionar a palavra “remuneração”. Os demais ou procuravam simplesmente músicos para substituição de algum elemento da banda que saíra ou, para formação de uma banda com as quais iriam, segundo o autor do anúncio, gravarem canções recém compostas num estúdio; outros eram bandas que procuravam vocalistas versáteis, principalmente se as bandas eram de covers mas, tudo trabalho não remunerado.

- Apareceu algum candidato a guitarrista?

- Sim, na segunda semana de maio, respondeu um encenador de peças de teatro musical. Antes dele tinham respondido estudantes universitários, de licenciaturas várias, que nas horas livres se dedicavam à música. Estes mencionavam que em agosto estariam de férias e por isso totalmente disponíveis. No entanto depois de agosto, eu iria continuar a precisar de um guitarrista e por isso, não os quis. De entre os vários candidatos a guitarristas, muitos perguntavam-me quais eram os concertos que eu tinha agendado. Eu respondia que nenhum! Eles objetavam muito indignados e diziam que tal era inadmissível! Alguns até refilavam comigo! Como iria eu atuar se não tinha concertos agendados?! Que tipo de concerto daria eu, somente com um único guitarrista em palco?!

- O encenador de teatro foi o guitarrista que te acompanhou em Londres?

- Não foi ele. Ele começou a dar-me problemas uns tempos depois. Entretanto o músico do estúdio perguntava-me como iria eu ensaiar com este fulano encenador se este estava em Londres e eu em Portugal?! Expliquei-lhe que iria pedir ao encenador que gravasse as respetivas versões instrumentais acústicas. Assim, com a referida gravação eu poderia ensaiar, quantas vezes eu quisesse juntamente “com ele”, na minha pequena sala de estar em Portugal estando ele em Londres! Eu questionei o encenador musical acerca desta estratégia e ele foi afirmativo dizendo que em breve me enviaria as versões instrumentais.

- Enviou-tas?

- Os dias iam passando e as gravações continuavam inexistentes, invisíveis e inaudíveis. Decidi mostrar ao músico do estúdio uns links que o encenador me tinha indicado para exemplificação de alguns trabalhos seus a nível de composição musical, além de um vídeo em que ele acompanhava uma cantora ao vivo. Eu achava, o que ouvia naqueles links, demasiado calmo para o meu estilo e decidi confirmá-lo junto ao músico do estúdio. Segundos depois ouço: “Vocês os dois são incompatíveis e absolutamente nada têm em comum! Além disso, ele toca guitarra totalmente desprovido de emoção!” Mesmo assim, eu e o músico do estúdio, decidimos dar o benefício da dúvida e aguardar pelas gravações do encenador. Nos dias seguintes, o fulano começa a comportar-se de forma estranha e evasiva nos emails acerca do timing de envio das minhas versões acústicas. Chegou mesmo a dizer que eu não precisava de ir já em agosto, sendo este um mês em que tudo era caro em Londres…

 - O tipo estava a demorar a enviar-te as versões acústicas?

- Ele estava a demorar uma eternidade! Já haviam decorrido 5 semanas! Então eu insisti e finalmente, envia-me uma gravação! Era o “Destiny”. Ouvi e detestei! Ele tocava guitarra por cima da minha versão original mal se ouvindo a guitarra dele! O músico do estúdio ficou horrorizado: “Que merda é esta?! O fulano parece que anda a aprender a tocar guitarra! Ele pode até saber escrever peças de teatro musical mas para seu guitarrista, ele não serve!”. Decido então, repor o anúncio online e retomar a procura do guitarrista.

- Estávamos na primeira semana de julho e um guitarrista responde. O músico do estúdio gostou dele. Era versátil e como estava ansiosa, porque dali a pouco tempo queria fazer atuações em Londres, contratei-o para me apresentar as suas versões acústicas. Dois dias depois, a 7 de julho, responde um outro guitarrista! Muito bom executante, ligeiramente mais velho e mais experiente embora, tal como o outro de dois dias antes, a finalizar a licenciatura em música na vertente de guitarra, mas em universidades diferentes. O músico do estúdio gostou imenso deste último e eu também. Decidi igualmente contratar este. Este foi muito rápido a fazer as versões acústicas e foi este que veio a ser o meu guitarrista! O outro também foi rápido mas quando me as enviou já eu tinha tomado uma decisão. Paguei-lhe o trabalho, agradeci-lhe e expliquei que o trabalho estava excelente mas que eu tinha já feito uma opção. Mais tarde vi que ele me tinha inserido no seu curriculum vitae (CV) online, referente ao ano 2012, como arranjador de um concerto acústico meu. Eu era citada! Fiquei toda vaidosa! Mas o meu guitarrista já estava escolhido! Ele tocava conforme eu gostava e tinha um visual que me agradava: ar rockeiro, cabelo castanho escuro ondulante a chegar aos ombros, alto com 1.88 m, sobrancelhas espessas compridas retilíneas, olhos esverdeados, rosto anguloso, queixo também rectangular, um ar super autoconfiante, um sorriso espetacular e parecia ter bastante senso de humor!

- Ele parecia ser jeitoso! E é esse a quem chamas o guitarrista “open mic”, certo?

- Sim!

- O teu guitarrista também te citou no seu curriculum online?

- Não há registos: nem da minha parte nem dele e o mesmo, se aplica às duas bandas que tive. Se não fosse este livro obrigar-me a relembrar tudo o que vivi, na minha memória eles seriam meros fantasmas…nada ficou…

- Estou curiosa para saber o que se passou …O guitarrista foi importante para ti?

- Toda a gente que conheci pelo caminho foi importante. Cada um trouxe-me, à sua maneira, algo de positivo. Por exemplo, se não tivesse aparecido aquele encenador de teatro, eu nunca teria conseguido atuar em Londres pois não teria tomado conhecimento da existência do open mic. Foi ele, uma vez num email, que referiu a sua existência.

- Este teu novo guitarrista não te poderia ter dado essa informação?

- Bem, ele nunca mencionou esse evento. Eu sondei-o sobre possíveis locais de atuação em Londres e ele simplesmente respondeu dizendo que era muito fácil atuar naquela cidade. Mas não é bem assim. Percebi isso meses mais tarde quando procurei “gigs” (atuações) para bandas quando eu estava a constituir uma. Percebi que as bandas para conseguirem um “gig” contatam muitos promotores de eventos musicais e quando o conseguem, a data é agendada pelo promotor para muitas semanas mais tarde, às vezes meses. Ou seja, habitualmente não se consegue um “gig”, por exemplo, para daqui a três dias ou uma semana e, nenhuma banda tem atuações diárias conforme eu tive em agosto com o open mic. Portanto, no meio da minha total inexperiência sobre a forma como as coisas se processam, eu tive imensa sorte em conseguir exatamente o que eu queria: atuações diárias e, sem necessidade de aprovação prévia dos promotores! Bastou-me chegar ao local de atuação, dar o nome e já estava a cantar! Era o open mic! Eu estava a rebentar de felicidade!

- Em Portugal não há open mic, pois não?

- Não. À letra, open mic, significa “open microphone” (microfone aberto) pois é um evento em que qualquer um tem acesso ao microfone -quer seja para declamar poesia, fazer comédia ou cantar. Em Londres, os participantes eram essencialmente músicos, sendo raro alguém numa outra vertente. Comecei então, na internet, a recolher informações sobre o evento em causa, em termos de possíveis pubs/bar/clubes que o implementassem.

- Gostaste de teres participado nesse evento?

- Adorei! Sabes como surgiu a minha canção “Strong Wrong”, a tal que diz: “Não te digo para ires foder pois a ti só te desejo coisas más!”?

- Não sei…como foi?

- A canção foi escrita e composta, em junho, dois meses antes de eu ir para Londres! Desde abril que aguardava o músico certo aparecer…eu andava indisposta. Andava tão chateada que fiz uma canção em que aparece o termo “vai-te fod*”!

- Ensaiaste muito as versões acústicas antes de ires para Londres?

- Obviamente que sim! Eu nunca tinha atuado ao vivo e portanto tinha mesmo de me esforçar para que tudo corresse bem. Eu ensaiava horas infinitas, tanto que os meus pulmões, pelo esforço, já emitiam um silvo quando eu respirava. Eu queria tanto causar boa impressão ao guitarrista em Londres. Ele já desde os sete anos que tocava guitarra, há anos que estudava música e atuava em palco com outras bandas embora, nunca tivesse atuado em duo. Eu seria a sua primeira experiência.

- Eu gostava de te ver feliz…os anos estão-se a passar e ninguém está a ficar mais jovem. Tu estás sempre tão distante da realidade do mundo e sempre tão dentro de peripécias: algumas engraçadas, outras surreais, outras paranormais, outras macabras…

- O músico do estúdio dizia que eu era tão cheia de sorte que até os azares me davam sorte! Eu penso que é Deus.

- Posso colocar-te uma questão: até que ponto és crente em Deus?

- Há quem diga que Deus é como o vento: não é visível nem palpável mas sente-se pelos sinais. Diz-me se consegues responder à questão: “Quem surgiu primeiro: o ovo ou a galinha?”

- Não te sei responder. Isso é uma prova da existência de Deus?

- Eu acho que sim!

 - Ok.

- Não me parece que eu tenha sido beneficiada pelo acaso mas sim, por um plano pormenorizado planeado com muita antecedência por Alguém muito inteligente e, a Quem dei imenso trabalho. Sabes quão difícil é criar coincidências? Já alguma vez tentaste criar uma?

- Como assim? Forçar as coisas acontecerem?

- Sim. Olha, eu já tentei forçar “coincidências” muito simples e não o consegui! Por exemplo, há dois anos atrás tentei que uma ex colega minha do emprego conhecesse um colega meu de trabalho. Eu achava que eles seriam perfeitos um para o outro mas, não consegui que se encontrassem sequer uma única vez! Era ele que alterava as datas de encontro porque não podia naquele dia, era ela que desconfiada me perguntava porque é que ele serviria para namorado dela e não para mim… E quando finalmente tudo parecia apontar para a concretização do referido encontro, surgiram novos imprevistos. Eu desisti!

- Fizeste bem. Eram eles que tinham de batalhar, não tu!

- Imagina a paciência e o trabalho imensurável que Deus tem de colocar na elaboração de um plano seu, para que este funcione na perfeição. Além do Seu árduo esforço na nossa preparação psicológica para que, estejamos aptos para o nosso destino. Tal significará pôr-nos perante pessoas, e situações, que nos irão forçar a acordar forças, e capacidades, há muito dadas por Ele mas, cuja existência desconhecíamos até então!

- Acho que vou comer agora uma fatia de bolo de ananás com natas, queres uma? O que achas de eu também abrir uma garrafa de champanhe? Está a apetecer-me! Gostaste do teu hotel em Londres?

- Sim, o hotel tinha as características que eu ansiava. Andava a fazer pesquisas de quartos de hotel, na internet, havia já dois meses não obstante, descobri-o apenas a uma semana de partir para Londres! Por quarenta e cinco libras ao dia, tinha um quarto individual com janela, casa de banho privativa, duche com água quente, acesso à internet, televisão, uma cafeteira elétrica para eu fazer chá, micro-ondas para eu preparar refeições quantas eu quisesse e às horas que eu quisesse e ainda, um mini frigorifico! Neste último, eu guardava as comidas pré-cozinhadas destinadas ao micro-ondas que me permitiriam alimentar bem e, economicamente! Naquela cidade, quarenta e cinco libras era uma pechincha e ainda acrescidas daquelas comodidades que citei!

- A minha anjinha estava feliz?

- Estava sim! Com o micro-ondas no quarto, fartei-me de comer refeições pré-cozinhadas muito apetitosas, inclusive de madrugada! Não necessitei de gastar dinheiro em restaurantes conseguindo assim, gerir sem stress, o dinheiro destinado àquela minha estada em Londres que incluía pagar o guitarrista, a minha comida, as deslocações pela cidade e o hotel. Deus foi super amigo! Eu estava no hotel certo, com o músico certo e o momento era certíssimo pois, todo o trabalho de gravação em Portugal estava praticamente concluído. Eu sentia-me feliz!

- Esse mês de agosto foi um mês especial para ti, não foi?

- Foi especial e agradeço a Deus a oportunidade. Sabes que sempre que eu me lamento e digo: “Deus, vós não quereis saber de mim para nada!” Ele responde-me?!

- Responde-te?!

- Responde-me manifestando-se em ocorrências que me poderiam ser fatais sem  a Sua intervenção.

- O que te sucede de tão fatal assim?

-Despistes em curvas de estrada estreita de montanha por onde circulo frequentemente, em que passo para a faixa contrária porque perdi o controlo do carro mas saio ilesa: o trânsito parece que foi parado em ambas as faixas não se vislumbrando veículo algum. Outras vezes, este caso é o mais frequente, veículos automóveis que me aparecem pela frente, em contramão, numa curva devido a uma ultrapassagem sua mal calculada mas saio ilesa: por uma razão tonta qualquer tive, instantes antes, uma coceira súbita numa perna e, porque queria coçar-me, reduzi a velocidade desencontrando-me por frações de segundos, do carro que iria embater em mim de frente. Outra ocorrência: no verão de 2011, na altura em que tinha deixado uma mensagem escrita no fórum do tal cantor britânico e ainda a limpar a bouça do meu pai. Uma hora antes, enquanto eu arrumava a cozinha após o almoço, pensava em como a minha vida era em vão e cismei que Deus não queria saber de mim. Estava farta da vida mas gostava de ir para a bouça, contemplar a paisagem em redor, enquanto trabalhava nela. Dirigi-me depois para junto dum enorme eucalipto para aí retomar o trabalho do dia anterior mas, não sei porquê, mudei de ideias e retomei num ponto mais afastado. Até refilei comigo própria: “Ali junto ao eucalipto a paisagem era bem mais bonita!” Passados uns cinco minutos, ouço um barulho, como se uma pequena árvore tivesse acabado de ser abatida e tombado ouvindo-se um imenso barulho de folhas e ramos. Interroguei-me: “Andam a abater aqui uma árvore perto e não ouço serra elétrica alguma, nem vejo alguém?! Coitadas das árvores! A serem abatidas sem poderem fugir!” Nesse final de tarde, quando já anoitecia, abandonava a mata para ir para casa jantar. Ao fazê-lo, passo pelo tal eucalipto, vendo eu nesse instante, um enorme braço de árvore, grosso, pesado, quebrado e tombado no chão. “Descolou-se” da árvore possivelmente devido ao seu peso desmedido jazendo agora no local onde a paisagem em redor era mais bonita! Eu teria morrido sob o peso daquele gigante braço… 

- Seria um pecado se Deus não protegesse a minha anjinha preferida!

- Regressando ao hotel a Londres: cheguei por volta das 7h da tarde. Tinham sido, aproximadamente, duas horas de voo. Chego ao aeroporto de Gatwick numa companhia aérea de low cost. Vislumbro um montão de gente! Procuro transporte para o centro de Londres. Vou de metro até à “Victoria Station” e mudo duas vezes de linha para chegar ao hotel. Nada disto foi óbvio para mim tendo eu pedido orientação a quem ia encontrando no trajeto. O gerente do hotel, com cerca de cinquenta anos de idade e de origem indiana, quando me viu ali sozinha, não acreditou que eu viesse para passar férias: “Você vem procurar trabalho em Londres!” –afirmou convicto. Depois perguntou se Portugal era um país bonito. Eu disse que sim. Ele replica que um dia, quando tiver dinheiro, fará umas longas férias visitando muitos países e sendo assim, Portugal também!

- Porque é que ele insiste em afirmar que estás em Londres para trabalhar?

- Não sei. Curiosamente dias antes, vou comprar as malas de viagem e a funcionária do hipermercado, a quem peço ajuda na escolha de uma, tendo em conta a relação preço/qualidade, pergunta-me se vou emigrar. “Eu acho que não ando com cara de turista, talvez pareça tensa e preocupada! Adeus meu adorado estúdio de gravação aqui em Portugal! Olá Londres! Vou atuar com um músico desconhecido, não tenho experiência de palco, vou fazer atuações ao vivo numa cidade onde abundam estudantes e profissionais de música e cantores! A onde é que eu me vou meter!!! Mas aqui vou eu! Tenho de sentir-me feliz pois o meu fantástico futuro, que a vidente brasileira previu em 1998, deve estar a chegar!” –pensei.

- Onde é que foste jantar após teres chegado ao hotel?

- Não fui jantar. Fui a um mini mercado próximo onde comprei grão-de-bico biológico cozido enlatado. Coloquei-o no micro-ondas e foi esse o meu jantar.

- Não compraste as tuas apetitosas comidas pré-cozinhadas?

- Aquele mini mercado não as tinha. O gerente do hotel informou-me que tinha, a 20 minutos a pé, um bom supermercado que as vendia. Iria no dia seguinte.

- O que fizeste depois de jantares o teu grão-de-bico biológico cozido enlatado?

- Estatelei-me na cama, consultei o email no meu mini portátil, vi televisão até de madrugada e depois fui dormir! Antes tomei um duche quente conforme gosto e pensava se o tal supermercado recomendado pelo gerente, teria uma grande variedade de comida pré-cozinhada apetitosa!

- Porquê grão-de-bico? Não havia outra coisa que pudesses ter comprado?

-Havia enlatados biológicos cozidos de ervilhas, cenouras entre outros mas, exigiam um abre latas que eu não tinha. O grão-de-bico era o único de abertura fácil. Também vendiam adaptadores para aparelhos europeus que não se encaixavam nas tomadas elétricas inglesas -tive de comprar um.

- Dormiste bem?

- Não. Viajar sozinha dá liberdade de movimento mas ao mesmo tempo, está-se mil porcento alerta a tudo o que nos rodeia ou seja, com stress. Acordei com uma tremenda dor de cabeça ouvindo o sangue a ser bombeado para o cérebro. Também acordei com fome e transpirada do pescoço até aos tornozelos: parecia que tinha saído duma sauna! Estes sintomas de transpiração excessiva repetiram-se diariamente enquanto estive em Londres. Só mais tarde percebi que isto se devia a uma extrema ansiedade, embora não a sentisse conscientemente, de tal forma que emagreci 4 kg nos primeiros cinco dias! Um anel que eu tanto adorava, bem como uma pulseira, desprendeu-se-me da mão emagrecida sem eu dar por ela. Para sempre perdido ficou.

- É o que eu preciso! Preciso de stress que me faça perder peso rapidamente, sem stress de ginásios! Depois de acordar o que foste fazer? Foste-te abastecer da tal comida apetitosa para micro-ondas?

- Sim. Acordei e fui comer um resto de grão-de-bico que tinha ficado na lata. Depois bebi água, tomei um duche quente usando o sabonete do hotel e lá fui eu à procura do meu supermercado cheio de embalagens apetitosas de comida pré-cozinhada para micro-ondas!

- Como foi o teu encontro com o guitarrista?

- Decorreu dentro da normalidade. O primeiro ensaio estava marcado para o dia seguinte à minha chegada: quarta-feira às 15h. A hora foi ditada por ele pois tinha compromissos que lhe restringiam o horário: da parte da manhã tinha as últimas aulas da sua licenciatura; ao final do dia dava aulas particulares de guitarra ou de francês, sendo esta última a sua língua materna. Outras vezes tinha de dispor de tempo para ensaiar com as suas duas bandas.

- Na primeira vez, ele foi-te buscar ao hotel?

- Sim. A primeira sensação que tive, mal eu pus os olhos nele, era a de que ele era altivo, muito centrado nos seus interesses e que eu estaria totalmente entregue a mim própria. Intuição…

- Lá vem ela com os pressentimentos dela.

- Fiz mal em ignorar isso e os sinais… Do hotel dirigimo-nos de imediato para o metro que nos poria nas proximidades da sala de ensaio que ele tinha reservado. Na estação do metro ele para, sem me avisar de que tal faria, em frente a uma caixa de levantamento automático. Ele porque parou, eu paro também permanecendo mesmo ao lado dele. Ele saca do cartão de crédito para inserir na máquina. Eu estava à espera que ele inserisse o código, levantasse o dinheiro, para depois irmos para o metro e finalmente, para a sala de ensaio; depois eu abriria a boca para cantar pela primeira vez com um músico a tocar guitarra ao vivo. Estava eu então à espera que ele se despachasse a inserir o cartão de crédito na ranhura da caixa automática.

- Estou curiosa para ver o que vai sair desse teu relato…

- Estava com uma grande dor de cabeça além de esfomeada! Não tinha acertado nas embalagens pré-cozinhadas apetitosas mas sim, trazido umas esquisitas! Estava eu a pensar em comida pré-cozinhada quando ele subitamente me diz, em tom reprovador e bastante antipático: “Vou digitar o código do meu cartão de crédito!!!”. Só depois me apercebi que eu tinha-lhe seguido todos os passos estando mesmo em frente ao ecrã da caixa automática, bem colada a ele!

- Desconfiado e indelicado…Ele era assim tão rico?

- Ele não! Ele ainda era estudante! Mas os pais pertenciam à classe média alta. O pai era juiz. Suponho que os pais da maioria dos estudantes estrangeiros em Londres, tenham excelentes posses económicas. Para começar, o alojamento naquela cidade é caríssimo e as propinas na universidade caras são! Depois soma-se a tudo isto a alimentação, os transportes, as eventuais deslocações a casa para ver a família e outras possíveis despesas. Pelos meus cálculos, um salário mensal meu de Portugal dificilmente chegaria para ele se aguentar até ao final do mês!

- Após aquela cena em frente à caixa de levantamento automático, vocês andaram aos murros ou entenderam-se?

- Em agosto correu tudo bem. Na sala de ensaio começamos a simpatizar um com o outro. Ele estava a um mês de finalizar o seu curso. Dali a um mês iria apresentar a sua tese que consistiria num trabalho teórico sobre o tema “Criatividade Musical”, além de um trabalho prático. Este último consistiria num desempenho à guitarra perante um júri e também, numa composição original sua, numa vertente jazzística. As preferências dele iam para o rock, heavy metal e jazz fusion.

- Como correu o ensaio?

- Antes disso, pergunta-me como era a sala de ensaio! Aquela, tal como muitas conforme vim a constatar mais tarde, não tinha janelas e estava totalmente revestida de alcatifada, quer o chão quer as paredes. Suponho que se deveria a razões de isolamento acústico. O chão alcatifado não era aspirado há já bastante tempo. Eu sentia o cheiro do pó e um peculiar mau odor de tantos ensaios feitos ali à porta fechada, com a respiração entranhada naquelas alcatifas. Gotículas de saliva andariam por ali. Gotículas gritadas por demónios revoltados porque não puderam quebrar nada em redor! Demónios vindos duma banda rock, punk ou heavy metal ou, doutro estilo musical igualmente energético.

- A sala alcatifada estava-te a incomodar?

- Mais ou menos. Eu pensava: “Aqui janelas não existem, mas o ar tem muito oxigénio! Porquê? Se ainda não morreste é porque o oxigénio está aqui, não sei como, mas está! A sala cheira a mofo? Não! Cheira ao teu sonho! Lembra-te do que te disse a vidente brasileira: irias ser famosa! O hotel cheirava a ambientador e tal irritava-te pois achavas que poderia originar cancro pulmonar! Olha, aqui tens mofo! É mais natural! Por favor, não compliques porque os teus olhos podem começar a ver coisas esquisitas, tipo uns pontos minúsculos brilhantes no ar e pensas que são bactérias a flutuar!”

- Tu és divertida! Correu tudo bem no ensaio?

-Não correu muito bem porque eu fisicamente ainda não tinha recuperado: mal alimentada e mal dormida. Ele chegou à sala de ensaio e prendeu o cabelo solto em rabo-de-cavalo –isso faria ele sistematicamente todos os dias, sempre que chegava à minha beira. O cabelo preso salientava-lhe o rosto anguloso. Eu sentia que estava ao lado de alguém com ar rockeiro, como tantas vezes tinha visto em revistas de música! Finalmente sentia-me longe do meu emprego de Portugal! Longe! Ninguém era rockeiro naquele meu emprego em Portugal!

- Conseguiste cantar as canções que tanto treinaste em Portugal?

- Nem por isso. Ele trazia umas pequenas anotações escritas acerca dos acordes que ele teria de executar na guitarra, embora na maioria das vezes ele nem sequer olhasse para as tais anotações -ele tinha uma memória auditiva fenomenal!

- Convém que tenha se vai ser músico profissional…

- Ali no ensaio, em algumas ocasiões, ele dizia-me para eu subir mais o tom para estar de acordo com as versões originais. Apesar de eu o conseguir, esforçava-me em demasia –faltava-me capacidade pulmonar. Estava ainda cansada da viagem e dos dias de stress que a antecederam. Sentia-me de tal forma exausta que fizemos apenas um único ensaio para todas as seis canções. Nelas estava incluído o meu adorado “Destiny”! O ensaio não excedeu os vinte minutos. A sala foi-nos cedida gentilmente por um amigo seu, a trabalhar ali na gestão da ocupação das várias salas de ensaio.

- Gostaste do guitarrista neste primeiro ensaio?

- Sim. Ele foi simpático. “Está tudo bem contigo? Não te preocupes, vai correr tudo bem.” –diz ele. Eu olhei para ele e sorri. Ele retomou e voltou a tocar alguns acordes custando-lhe estar inactivo com as mãos. Ele quis prosseguir o ensaio mas eu digo: “O ensaio hoje vai ficar por aqui pois sinto-me exausta. Dormi mal pois, a luz da manhã entra pela janela logo ao romper do dia. Não há estores nas janelas do hotel!” Ele diz que no quarto alugado onde vivia também não os havia. Mentalizei-me que teria o meu juízo fornicado diariamente pelo amanhecer do dia… Todos os dias, às 6h!

- A minha anjinha não deve usar temos como “fornicação”! Parece mal…

- Pois…Contei-lhe que tinha acordado toda transpirada, tirado a roupa toda do corpo e passeado nua pelo quarto a pensar em como iria decorrer o ensaio com ele e que claro, em seguida tinha ido para o duche! Mas eu disse isto num tom tão enfadado de cansaço que ele sorriu bastante -deve ter achado graça a alguma coisa. Fiquei com a sensação de que ele se sentia à vontade comigo e que nos considerava compatíveis.

- Como estava o teu inglês?

- Excetuando o facto de eu cantar em inglês, nunca tinha falado nesse idioma com alguém. Eu disse-lhe que o meu inglês era péssimo mas ele diz que não. Confidenciou-me que quando foi para Londres estudar música, não falava uma única palavra de inglês! Dias depois, constatei que ele também falava alguma coisa de alemão, espanhol e sueco.

- Como correram os restantes ensaios?

- Eu tinha a minha primeira atuação ao vivo dali a quatro dias ou seja, domingo à noite. Ensaiamos na quinta e sexta-feira à tarde. À noite, ele iria ter ensaios com a sua banda de rock que iria deslocar-se à Suécia, no dia 29 de agosto, para uma atuação. Por sorte esse era o dia do meu retorno a Portugal: eu iria regressar ao emprego. Quando saíamos destes primeiros ensaios, em direcção à estação de metro, ele cantarolava imenso o “Destiny”.

- Que roupa usaste na tua primeira atuação?

- Embora eu tivesse bastante roupa na minha mala de viagem, andei sempre com a mesma! Uma t-shirt preta comprida rendilhada de alças e umas calças de ganga preta, cuja borda eu metia dentro de umas botas pretas de cano até ao tornozelo, tipo militar. O cabelo, que eu usava de risca ao lado, ia apanhado em trança que pendia sob o lado esquerdo do ombro, com uma pequena flor verde musgo. Além de uma mochila com uma garrafa de água pois, aqueles túneis subterrâneos, lá no fundo da terra, eram quentes! E em agosto, eram mesmo muito quentes! Eu tinha sede com bastante regularidade: creio eu que os condimentos das comidas pré-cozinhadas estivessem a dar uma ajuda. Na mochila levava também um pequeno casaco de malha preto uma vez que as noites, eram mesmo muito frescas.

- Andavas sempre com a mesma roupa? Deduzo que a lavavas…

- Claro que sim! A t-shirt e a roupa interior, lava-a com sabonete no lavatório do quarto do hotel sempre que eu regressava das atuações. Lavava, torcia e punha a secar num cabide que havia no quarto.

- Qual era a tua rotina em Londres?

- Era mesmo uma rotina!…Após as atuações ao vivo terem tido início, os ensaios passaram a ser escassos. Em todo o caso, após o ensaio, que terminava habitualmente ao final da tarde, eu ia para o hotel fazer aquilo que fiz no meu primeiro final de tarde em Londres: televisão, duche, comida no micro ondas, refastelar na cama, internet e acordar com o maldito amanhecer por volta das 6h da manhã! Por volta das 10.30h ia ao tal supermercado que tinha uma enorme variedade de comida pré-cozinhada, demorando uns 90 minutos até regressar ao hotel. Aí voltava a ligar a televisão, voltava a comer e ficava à espera pelas 15 h para sair do quarto para os ensaios, que tinham início habitualmente às 16h. Antes de sair do hotel tomava um duche rápido para me livrar dos odores de comida.

- Era essa a tua rotina?! Estavas em Londres e era só isso que fazias?!

- Tinha receio de não conseguir ser pontual aos ensaios se me afastasse para explorar a cidade além de que eu acordava sempre sem forças. Sentia a minha vitalidade drenar-se! Parecia que convivia com um vampiro!

- O teu corpo estava a enviar-te informações e tu as ignoraste…o fulano guitarrista tinha uma vibração negativa. Ele levou-te a conhecer a cidade?

- Como te disse há pouco, ele tinha a rotina do trabalho dele, além de ter que finalizar a tese da sua licenciatura. Eu estava entregue a mim mesma. No final do ensaio, ia para o quarto do hotel e de pijama ficava a ver um filme; em vez de andar errante, sozinha, na noite fria pelas ruas de Londres. Não me importei com esta minha rotina pois já tinha andado, anos antes, por cidades bem exóticas como Grécia, Turquia, Egito, Marrocos etc. Ah! Sucedeu uma coisa muito engraçada no sábado, véspera da minha primeira atuação! Foi mega fantástico!

- Estavas sozinha ou com o guitarrista?

- Estava sem ele. No sábado não houve ensaio. Ele avisou-me por mensagem escrita para o telemóvel, no próprio dia, que não poderia comparecer. Não deu explicações. Tirando esse episódio, durante o mês de agosto ele foi sempre cumpridor, pontual e foi divertido tê-lo por perto: falava comigo, animava-me e dava as suas piadas para eu me rir. Eu gostava dele. Voltando a esse sábado: o único dia em Londres, dos muitos que eu lá estive, em que eu me senti relaxada! Uma verdadeira turista que estava ali apenas para passear a cidade! Andei sorridente todo o dia!

- Estou curiosa para saber exactamente o que se passou em Londres…

- Tudo o que veio a suceder posteriormente ao mês de agosto, deixa-me triste e apetece-me vomitar em cima. Mas aquele sábado, foi um belo dia de sol! Ainda hoje quando quero pensar nas coisas agradáveis que me sucederam naquela cidade, penso naquele dia de sábado, nas atuações open mic ao lado do meu amigo guitarrista e em coisas engraçadas que ele fazia, ou dizia, durante as nossas andanças juntas nesse mês.

- Manda as más lembranças que vieram depois de agosto, comerem bosta! Tu serás sempre tu! É isso que tem de estar presente na tua memória. Ok?

- Nesse sábado de manhã, apanhei o metro e fui até à estação de metro de Liverpool. Andei a passear a pé nas proximidades da estação de metro deslocando-me até à praça onde o cantor britânico, do capítulo 3, no dia anterior tinha estado a filmar o seu novo videoclip. No entanto, para desânimo meu, constato que as filmagens já não estavam a decorrer mas sim, uma feira artesanal. Os traços arquitetónicos da praça lembravam um pouco a época medieval. Eu sentia-me feliz por estar no mesmo local que esse cantor. Anos antes, eu tinha feito esforços para que umas letras de canção, que eu tinha escrito para ele, lhe chegassem às mãos mas nunca consegui que tal ocorresse.

- Ficaste por lá ou foste a outro local?

- Andei por lá quase duas horas. Depois apanhei novamente o metro e fui até ao “Piccadilly Circus”, por onde passeei bastante! É um sítio bonito. Andei a pé pelas ruas, totalmente à deriva! Quando dei por mim, estava numa espécie de bairro “Chinatown”. Descobri que eu estava numa parte de Londres denominada “Soho”. Continuei a passear e à deriva. Subitamente, vejo-me numa praça que prometia ação! Eu estava a ficar intrigada tal como muita gente, que por lá se começava a amontoar! A curiosidade acentuou-se quando apareceram helicópteros a voar por cima de nós!

- Em que local estavas?

-Estava em “Leicester Square”. Eram aproximadamente 3h da tarde e encontrava-me numa praça que albergava teatros com imensas salas de cinema, além de ser um espaço amplo reservado exclusivamente a pedestres. Nessa praça, em frente a um palco montado e que prometia “ação”, vejo um pequeno espaço verde com árvores e bastantes turistas espalmados ao sol sobre a relva. Possivelmente à espera que a “acção” começasse para abrirem os olhos. Até lá, que nem gatos deitados ao sol, preguiça total!

- Qual era essa “acção” afinal?

- Intrigou-me ver a uns dez metros de onde os turistas dormiam ao sol, um palco montado com enormes colunas de som, um grande ecrã de projeção de vídeo e um tapete vermelho comprido que começava lá diante e terminava numa escadaria até este palco! Observei que estavam a montar agora um perímetro de segurança que demarcaria aquele espaço do público. Viam-se, dentro do perímetro de segurança, bastantes homens vestidos de negro de óculos escuros, sempre em constante comunicação via telemóvel. Pareciam ultimar preparativos.

-Isso parece-se com a cerimónia de entrega dos Óscares em Hollywood!

-Algumas pessoas foram perguntar aos tipos de óculos escuros, o que se iria passar ali. Responderam que iria decorrer uma estreia cinematográfica de um filme norte-americano numa sala de teatro daquela praça mas antes, os atores principais desse referido filme iriam dirigir-se em pessoa ao palco, para darem uma entrevista!

- Foi interessante vê-los chegar?

- Os atores principais chegaram em limusines várias e desfilaram pelo tapete vermelho até ao palco, fazendo previamente pose para os fotógrafos. Uma vez chegados ao palco eram aguardados por um jornalista que os entrevistaria acerca do filme. Quando os atores começaram a falar, a multidão lentamente foi-se dispersando pois o climax já tinha sido atingido. A entrevista não estava a conseguir dar ao público presente a mesma emoção de todo o aparato que a antecedeu e que tinha incluído helicópteros, tapete vermelho, fotógrafos, homens vestidos de preto de óculos escuros, grandes écrans…

            - E depois disso onde foste?

            - Depois fiz o que havia feito antes de dar de caras com os tipos de óculos escuros: andei à deriva. Mais adiante avisto uma enorme e larga avenida, ladeada por enormes edifícios altos e modernos que albergariam escritórios nos andares superiores e lojas de roupa de marca no piso inferior, bem como cafés com esplanada. Os turistas abundavam!

- O que fizeste?

- Via muitos turistas a comerem um sorvete de gelado, apeteceu-me o mesmo e comi três enquanto andei por ali! Três horas depois regressava à estação de metro para o meu quarto de hotel.

            - Foi esse o teu dia especial em Londres?! Nos ensaios, alguma peripécia engraçada?

            - Nada de especial. Tirando o primeiro ensaio, todos os restantes ensaios foram feitos, gratuitamente, numa das muitas salas de ensaio da universidade do guitarrista. Tive sorte dado que assim economizei algum dinheiro. Ele por ser ainda estudante tinha direito a uma hora diária numa dessas salas. Como muitos estudantes estavam de férias, excetuando os do curso intensivo como ele, deixavam-nos prolongar o ensaio até uma duração de duas horas. Quando eu lá chegava, por vezes tinha de esperar que ele terminasse as aulas. Ficava a aguardá-lo numa pequena sala de estar.

- Gostaste de conhecer a universidade dele?

- Não cheguei a conhecê-la. Apenas fiquei a conhecer uma das salas de espera! Aí eram exibidos, de forma contínua, vídeos de atuações ao vivo dos estudantes daquela universidade, principalmente dos alunos finalistas. As estudantes cantoras faziam pose: com uma mão seguravam o microfone, com a outra elevavam o braço até lá cima porque estavam a cantar uma frase com uma dada carga emotiva, depois rodavam o corpo, depois caminhavam ao longo do palco, depois faziam gestos de raiva controlada, depois eram olhares que se transformavam em olhares felinos ou esgazeados.

- Pois…têm de transmitir emoção, certo?

- Pois, se não são emotivos têm de pelo menos parecer que o são! Prosseguindo o relato: ora os seus olhares se direcionavam para a câmara de filmar, ora o seu olhar semicerrava-se como se o mundo cá fora precisasse de desaparecer, ora o seu olhar ficava cabisbaixo…Tudo aquilo era o fruto de horas de ensaio intensivo. Não penses que a música é sinónimo de brincadeira e descontração.

- Como sabes que os ensaios de canto eram assim tão intensivos?

- Um exemplo: uma tarde, no espaço de ensaio, ouvi uma cantora a ensaiar mesmo em frente à minha sala. Tinha aberto a minha porta da sala  de ensaio para arejar um pouco e descansar a voz e ela lá estava ao piano, tentando cantar uma dada nota que ela sentia ser-lhe mais difícil. A porta de ensaio dela tinha um postigo de vidro e eu podia vê-la. Eu estava a ouvi-la cantar exatamente a mesma parte da canção que ouvira há 50 min atrás, quando eu chegara à minha sala em frente à dela. Ela insistia e trabalhava até à exaustão para atingir a perfeição. Ela olhava ora para um ponto distante perdido no ar acima da cabeça dela ora, para as teclas do piano. Em palco não sei para onde irá olhar…talvez faça aquelas poses “artísticas” tal como as outras do vídeo que vi na sala de espera enquanto aguardava pelo guitarrista. Eu não tive tempo suficiente para desenvolver a minha ”pose”. Eu era amadora e era tudo ao natural! Por sua vez, o músico do estúdio, que também é cantor, em palco canta muitas vezes de olhos semicerrados, conforme o vi fazer nos seus vídeos dando-lhe um ar muito expressivo, quando no seu dia-a-dia é, na maioria das vezes, facialmente inexpressivo.

- Artistas, poses e futilidades! Tu és diferente. Tu és uma anjinha fofa!

- Achas? Ok, sou uma anjinha fofa! Uma vez quando o guitarrista saía das aulas e passou pela sala de estar onde eu o aguardava,  citei-lhe os nomes dos famosos que eu tinha acabado de ler num placard enorme ali próximo. Eram nomes, que além de famosos, tinham igualmente estudado na universidade dele. Ele mostrou-se surpreendido. Nunca tinha reparado no placard! Dentro da sala de ensaio, ele pousava as duas guitarras, que ele levava para as aulas, e com um elástico prendia o cabelo.

- Que tipo de guitarras eram?

- Uma acústica e uma eléctrica.

- O que se passava na sala de ensaios?

- Ensaiava-se. Ele por vezes nem almoçava! Sempre num frenesim entre a frequência das aulas na universidade, aulas privadas que leccionava e os ensaios com as suas duas bandas. E agora eu, também ali pelo meio! Comecei então, a levar-lhe pequenos bolos embalados, bolachas ou mini barras vitaminadas. Queria que ele tivesse forças para se aguentar e que tudo corresse bem nos ensaios comigo.

- És mesmo um anjo…

- Quando ele me avisou naquele sábado que não iria poder comparecer ao ensaio fiquei aflita pois, a minha primeira atuação era já no domingo e havia pequenas coisas que eu ainda precisava melhorar! Eu tagarelava demais no ensaio -ele era o único ser humano que eu conhecia em Londres! Ficava tão contente quando o via! Deveria ter estado calada e ensaiado mais.

- Quantas canções estavam a ensaiar?

- Reduzimos a minha listagem inicial de seis canções apenas a três. Isto porque vim a saber que era esse o número máximo de canções permitidas no open mic, para cada artista. Nos intervalos de ensaio, quando eu não cantava, ele prosseguia na guitarra desenvolvendo as suas linhas melódicas a serem apresentadas como composição original na sua tese. Às vezes ele parava subitamente e começava a tocar os acordes rockeiros da sua banda que iria atuar à Suécia; depois apetecia-lhe mudar de género e ia para o punk! Eu adorava ouvi-lo tocar vários géneros e ele sabendo disso, mudava bruscamente o género musical só para me impressionar! Por vezes eu incitava-o dizendo que podia ser algo ainda mais “pesado”! Aí ele juntava, aos seus acordes de guitarra, uma voz cavernosa que ele roubava ao género “Death Metal”.

- Divertiste-te nas atuações ao vivo?

- Sim diverti-me. O guitarrista era bom músico e um amigo. A audiência por sua vez foi meiga, acolhedora, apoiante e simpática! Inicialmente os três temas tocados no open mic eram: “Times”, “Destiny” e “Technofoolishness”. Depois o guitarrista achou que seria conveniente trocar aquele último pelo “Too Much”. Neste, ele gostava particularmente do refrão. Na rua ele, além de cantarolar o “Destiny”, passou também a cantarolar o “Too Much”. Ele não sabia a letra da quadra, então eu cantava-a, entrando ele no refrão.

- Gostava de ter estado lado para ver essa cena…

- Ele era divertido. Um dia ,começou a cantarolar outra coisa enquanto nos dirigíamos para mais uma atuação. Cantarolou aquilo durante todo um percurso de 55 minutos de viagem feitos a pé, de autocarro e metro! Calava-se e logo retomava aquilo, achando graça à minha expressão de saturada! Quase que o estrangulava!

- O que é que ele cantarolava?

- Não se podia chamar àquilo cantarolar…Ele saiu das aulas da universidade e fomos para a sala de ensaio. Quando eu parava para descansar um pouco, ele concentrava-se e gravava de imediato, no seu telemóvel, executada à guitarra para não a esquecer, a sua nova ideia musical!

- O tal trabalho para a tese, não é?

 -Sim. Depois ouço-o fazer uma contagem ritmada qualquer, que eu considerava esquisita: ele contava repetitivamente de 1 até 11! No exterior, ao atravessar a estrada, ele abusa dessa contagem e começa a contar alto, vezes sem conta, aquela sequência rítmica! Sabes quantas vezes é que em 55 min ouvi aquela contagem dele seguindo uma dada cadência? Centenas de vezes! Por vezes calava-se com aquilo, falava alguma coisa comigo, sorria-me e quase que lhe lia o pensamento: “Achas que me calei com a minha contagem que tanto te está a fazer revirar os olhos? Cá vou eu outra vez! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11”. Inclusive dentro do metro! A dada altura fechei os olhos e pus-me a dormir, aí ele sentiu-se-se ignorado e calou-se. Eu sorri!

- Vocês tinham atuações todos os dias?

- Sim, todos os dias e em locais diferentes. Embora, às sexta-feiras e sábados, os locais para tal escasseassem por os fins-de-semana estarem reservados habitualmente a concertos com bandas tendo estas, maior capacidade para atrair público. Mas por vezes, sucede passarem-se meses sem que uma banda tenha concerto algum. Londres uma gigante oferta de bandas e por isso, os promotores fazem questão de as diversificar para não saturar o público e assim, garantir a novidade junto ao mesmo.

 

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