Capítulo 2

 

 

A MINHA AMIGA AO TELEFONE

 

- Ele desejou-te boa sorte?

-Não, ele não saberia o que dizer. Optou pelo silêncio.

- Ele já sabia que ia aparecer no livro?

- Quando o contatei em fevereiro sobre a sua disponibilidade para a atuação de março e abril, esta última em particular, tocava-me emocionalmente. Era no local onde estivemos ambos a matar tempo, por duas horas, antes da minha primeira atuação ao vivo que ficava a 15 minutos a pé dali! Ele dizia-me que tudo iria correr bem, que ele estava ali para me ajudar. Depois falámos sobre o apoio de amigos em horas mais difíceis. Ele pergunta-me se eu tinha amigos de verdade com quem falar. Eu disse que tinha uma amiga. Acerca dele, confidencia-me que os amigos músicos, a maioria estrangeiros como ele, estavam sempre a chegar e a partir da universidade mas mesmo assim, tinha dois bons amigos. Pergunto-lhe depois como se via dali a dez anos. Diz-me que pretende concentrar-se na sua carreira, criar um nome e ser um músico de talento reconhecido. Eu por sua vez, confidencio-lhe que gostava de alcançar o sucesso e estar ao lado de um homem de carácter forte mas dócil comigo e que me apoiasse totalmente pois, a vida de uma mulher na música é difícil para o seu namorado/marido. Principalmente se ele não é do meio, dado o carater de mobilidade entre locais e países a que as atuações obrigarão e por vezes, por longos períodos! E concluo dizendo que os homens eram pouco propensos a sacrifícios por amor... que a classe masculina gostava de se tratar bem, fazendo o contato físico parte desse tratamento!

- Qual foi a opinião dele acerca disso?

 -O meu amigo “open mic” considera que eu estou a fazer um filme e decide simplificar o enredo! “Não é nada difícil! Por exemplo, se ele gosta de ver futebol, tu gostas de música! Tu não te vais importar que ele veja futebol e ele não se vai importar que tu te dediques à tua carreira artística!” –argumenta ele.  

- Eu gostaria de estar na música e fazer muitas atuações ao vivo em várias partes do mundo, passar pelo cinema participando como atriz em dois filmes e ainda, além de concluir a escrita do actual livro, escrever uma trilogia.

- Ainda vais escrever mais três livros?! Fantástico! Qual o género literário desta vez, dado que não será autobiográfico?

- Deixa-me primeiro finalizar o relato da conversa entre eu e o meu ex guitarrista…. São quase horas da nossa primeira atuação. Caminhámos em direcção ao pub. Confidencio-lhe que anos antes tinha escrito um livro e que ficara inacabado. Ele pergunta-me se ele irá aparecer no livro. Vendo-o todo sorridente e expectante pela minha resposta, digo-lhe: “Prometo-te que se um dia finalizar aquele livro te coloco lá! Mas por enquanto não, uma vez que o livro é autobiográfico preciso de aguardar para ver o que me vai acontecer. Ver em que é que a minha vinda a Londres contribuiu para o meu desenvolvimento artístico. Preciso de material para o livro!” A vida é irónica…naquele dia eu não sabia que precisamente um ano depois eu estaria a enviar-lhe uma sms a falar-lhe deste dia da nossa primeira atuação e a informar-lhe que o livro já tinha sido concluído e, a dizer-lhe adeus para sempre.

- Tu regressarás à música porque as luzes de néon gritarão pelo teu nome...

- Se as luzes gritarem por mim ficarei contente. No entanto, eu sei que é a partir da terra que nasce o alimento: foi tombada na terra que escrevi as canções, o livro e a trilogia que escreverei ainda. Tombada no chão, eis que vejo o sol brilhar mais que luzes de néon. O sol é quente! Preciso de pôr protector solar!

- Tu tens mesmo veia poética! Uma pergunta de carácter pessoal: odeias o teu ex guitarrista?

- Como já te disse há bocado: ele está perdoado. Nada guardo para além do livro, tudo o resto joguei ao lixo. O que sucedeu não foi grave. Se houvesse uma guerra ou um abate extensivo de árvores era grave pois afectaria a mim e a muitos outros, a curto e a longo prazo. Nesta história, a única magoada fui eu e, somente eu. Portanto, o que sucedeu não foi grave. Queres que eu chafurde em rancor?! Para quê?! Para eu estar sempre a lembrar-me do mesmo? Se pudermos, convém optarmos por gestos nobres pois esses curam-nos bem como transformam aqueles que nos rodeiam. Devo a ele, e a outros que ficaram lá atrás, um grande obrigada. Todos eles me mostraram que o facto de eu lhes ter dado importância não significa que fossem realmente importantes; embora todos eles me fossem importantes para eu tomar as decisões que tomei: tiveram força para mudar o rumo da minha vida. Espero que eles tenham a mesma força para mudar o rumo da vida deles.

- Após a tua autobiografia vais escrever a tal trilogia?

- Sim.

 - Adoro a tua ideia! Qual será o género literário e o tema?

- Remontará a uma época bem distante no tempo onde a magia paira no ar! E o clarão das fogueiras na noite traz à memória lendas fascinantes, histórias de amor, encantamentos, feitiços, lutas heróicas e vitórias assombrosas. Tudo ontinua a existir…

- Quero ler essa trilogia! Depois envias-me?

- Claro!

- Um brinde à tua super banda! 

- Qual super banda?!

- A tua hora chegará e a teu lado terás multidões, um grande amor, muita gente a gostar de ti e uma banda cheia de músicos talentosos e amigos! Vocês todos serão magnéticos em palco! Vamos festejar já a vitória! Champanhe!

- Quantas taças vamos beber consecutivamente e agora? Eu aguento duas e tu?

- Eu consigo 6 taças! Vamos então beber? Prepara-te: 1, 2, 3, agora! Bebeste?

- Sim. Estou a ficar super alegre!

- Foi complicado formar aquela última banda em março?

- Foi ligeiramente complicado. Antes de te relatar o que sucedeu, deixas-me ler mais um dos poemas excluídos? Para rirmos um pouco!

- Vamos a isso!          

- Chama-se “Tu” e diz: “Tu magoaste-me, Um dia depois disso vi-te caminhar sobre uma prancha, Caíste e gemeste, Magoaste-te nos testículos, Sentes dor? Não tenho pena de ti e não tenho pena de mim, Uma semana depois vi-te com muitas ideias e planos, Tinhas tudo calculado, O tempo foi passando, Olhas para trás e vês perdas, Agora calculas o pânico, É grande? Não tenho pena de ti e não tenho pena de mim, Um mês depois vi-te a beber coca-cola, Vinha com cubos de gelo, Lembraste-te de trincar o gelo, Os dentes começaram-te a doer, Doem muito? Não tenho pena de ti e não tenho pena de mim, Um ano depois deixaste cair o teu telemóvel à sanita, O telemóvel já não funciona, Estás triste? Não tenho pena de ti, não tenho pena de mim e nunca mais te vi! Uma década depois estou numa ilha tropical! Está calor! Está-se bem! Sinto-me bem!”

- O poema acabou? Eu continuo a dizer que tens uma forma bizarra de terminar os teus poemas. Porque não acrescentaste algo do género: “Comprei a ilha, estou bronzeada e com um tipo todo jeitoso e musculado a meu lado”?

- Fica para a minha próxima vida! Quanto à tua questão, se foi complicado formar uma nova banda, a resposta é sempre sim para qualquer um que tente tal. É sempre complicado formar uma banda! No meu caso, e apesar de tudo, até tive alguma sorte. Por ironia do destino, quer nesta banda quer na anterior, tive sorte graças ao baterista. No entanto andei nos anúncios dez semanas consecutivas. Até escolhi a opção mais cara de “urgente” para o anúncio surgir mais no topo da lista dado que, havia sempre novos anúncios a emergirem a cada minuto. Os músicos iam respondendo e havia desde geniais a medianos. O meu anúncio desta vez, além de dizer que se tratava de um trabalho contratado, indicava explicitamente o preço que eu poderia pagar a cada músico, apontando eu no mesmo algumas restrições monetárias: eu era uma cantora estrangeira que efectuava deslocações a Londres para atuações não remuneradas e além de pagar aos músicos, também teria de pagar o meu bilhete de avião, o hotel, o aluguer de sala de ensaio, a minha comida etc.

-Mesmo assim tiveste quem te lixasse o juízo no item financeiro, acertei?

-Sim. Um baterista estrangeiro a residir em Londres há já muitos anos, trabalhava em vários estúdios de gravação, inclusive em bandas sonoras de filmes, jingles para spots publicitários etc, responde-me. Diz aceitar a remuneração. O músico do estúdio acha-o bom baterista mas não entende o que leva um músico com o curriculum dele, a responder ao anúncio de uma cantora desconhecida. Aceito este baterista e continuo à procura dos restantes músicos para a formação da banda. Algum tempo depois este baterista contra argumenta com o facto de que um amigo seu, guitarrista, lhe dissera que a sua remuneração terá de se ajustar à qualidade de músico que ele é! Ou seja, caso eu queira que ele fique na banda, tenho de lhe pagar mais. Dispenso-o! Outros que respondiam ao anuncio davam-se ao trabalho de me perguntar qual era a minha lógica de eu ir a Londres atuar de graça, se tal me era dispendioso!

- A tua lógica é o amor ao teu sonho, certo?

- Sim é. Outros estipulavam o seu preço afirmando que até era modesto se comparado com o habitualmente praticado. “Noventa  libras por músico! A profissão de músico tem de ser dignificada!” –afirmavam alguns. “Claro! Se trinta minutos de atuação lhes der aquela quantia, a dignificação é garantida!” -filosofava eu. Uma única atuação nos moldes em que alguns me impunham, juntamente com o pagamento da mensalidade de amortização ao músico do estúdio, faria com que eu não tivesse sequer dinheiro para comer, sempre que houvesse uma atuação! Os meus dias continuaram interessantes e cheios de pasmo, passando eu a ler as respostas ao meu anúncio com um copo de bebida alcoólica na mão… Assim tudo ficava bem mais divertido dentro da minha cabeça!

- Por falar em bebidas, apetece-me comer algo. Talvez coma um pouco de pudim que ainda resta no frigorífico de há dois dias atrás. As peripécias prosseguiram?

- Sim. Estrangeiros ainda a residirem no seu país natal, que tencionavam brevemente fixarem residência em Londres, embora não soubessem dizer para quando, ofereciam-me os seus serviços como músicos. Também tive, em momentos diferentes, a peripécia de dois excelentes guitarristas ao estilo “Eddie Van Halen”, que até guitarra com a boca tocavam! Um deles tinha até vivido algum tempo em Los Angeles, EUA. Mas estes dois respondiam afirmativamente a vários anúncios e depressa debandaram para outras bandas -suponho que eu não lhes fosse útil dado que procuravam, deduzo eu, uma banda com quem compor, escrever músicas, gravarem canções, beberem uns copos após os ensaios, socializarem etc. Excelentes bateristas de rock de quem o músico do estúdio gostara, também desapareceram -tinham preferência por um rock bem mais agressivo que o meu! Mais um golo de bebida!

- O meu pudim está excelente!

- Eu continuava sem banda. O músico do estúdio, que me ajudava na selecção dos candidatos, rejeitava todos aqueles que fossem abaixo de “Bom” bem como, todos aqueles que eram “Muito Bom” mas nada a ver com o meu estilo! A peripécia de um guitarrista profissional, em que a idade não lhe tinha dado maturidade nem resolvido o problema do ego hipersensível, também houve. O EGO para o qual eu muitas vezes ouvira o músico do estúdio alertar-me! “O ego é o problema de muitos músicos e da classe artística em geral, bem como de muita gente por aí” –alertava-me ele.

- Tem toda a razão!

- Na minha terra, em vez do termo chique “ego”, usa-se o termo “tem-a-mania-que-é-muito-importante”. Esse tal era bom guitarrista. Dizia que, por gostar das minhas canções, aceitava o preço estipulado no anúncio. Contudo, algum tempo depois afirma que não é qualquer sala de ensaio que lhe servirá pois tem de ser uma que lhe permita ir com o carro até à mesma. Tudo bem! Uns dias depois, impõe também a condição de a banda ter um, e um só, guitarrista: ele somente!

- Porquê só ele como único guitarrista?!

- Uma banda habitualmente tem dois guitarristas mas ele alegou ter tido más experiências de trabalho com outros. Tento-lhe fazer ver que as minhas canções ficam empobrecidas dado que não haverá teclista. Não aceita! Lembrando-me eu que no seu primeiro email me havia informado ter um irmão guitarrista, caso fosse necessário substituí-lo em alguma ocasião, pergunto-lhe se não poderá inquirir o seu irmão guitarrista para substituí-lo, já que se ia embora. Não se digna sequer a responder-me!  

- Mais um idiota! Deixa essa gente toda ir-se embora!

- Decido procurar músicos na rede social e esquecer os anúncios.

- A rede social na internet foi-te útil?

-Pouco útil. Em todo o caso, um músico em Manchester simpatizou com as minhas dificuldades de formação de banda e, nesse mesmo dia, dá-me o contacto de um amigo seu guitarrista em Londres. Constato depois que o seu amigo além de músico, é também produtor musical veterano mas predominantemente voltado para “world música” do médio oriente. Ó músico de Manchester, eu tinha dito rock!

- Só apareceu esse?

- Houve outros. Esbarro com um outro guitarrista também disposto a ajudar-me. Ouve as canções a partir do meu website enquanto estamos no chat online. Diz gostar particularmente do tema “Sky” e pergunta-me em seguida, se eu sei quem ele é. Faço uma pesquisa rápida na internet mas continua-me tão desconhecido quanto antes e penso que sou ignorante. Devolvo-lhe a pergunta: “Se eu sei quem tu és?!” Explica-me que trabalha exclusivamente na gravação de álbuns, ou em atuações ao vivo, como guitarrista de artistas/bandas de editoras multinacionais, em Londres e Nova Iorque! Partilha também que, naquele preciso momento, estava a fazer uma pausa numa gravação no estúdio e que tinha aproveitado para ir à rede social descomprimir e, relaxar um pouco. No dia seguinte informa-me não poder ajudar-me! Diz que lamenta o facto; diz que se esforçou por pensar em nomes de músicos a preços acessíveis, mas infelizmente os que conhecia eram do mesmo nível que ele.

- Isso quer dizer o quê?

- Ele diz que todos os guitarristas que conhece são muito bons mas que cobravam bastante caro porque, segundo ele, por preços baixos nenhum músico está interessado em aprender as canções dos outros! Ainda na mesma rede social, um outro guitarrista diz-me que todos os artistas que estão em Londres, ou que vão para lá, têm a mania que são especiais e que um dia serão famosos!

- A que propósito fez ele tal observação?

- Não sei. Tinha-lhe dito apenas que tinha algumas atuações em Londres, que precisava de músicos e eis que ele começa a conversa dessa maneira: “Todos os artistas que estão em Londres, ou que vêm para cá, têm a mania que são especiais e que um dia serão famosos!” E prossegue no chat dizendo que eu estava a fazer tudo errado! Que o correto seria eu arranjar um músico para fazer parceria na escrita e composição de canções. Depois gravaria algumas dessas canções e apresentá-las-ia a uma editora multinacional. “Aí, tudo é mais fácil pois eles arranjam-te os músicos, levantam-te às rádios, televisão e a grandes concertos!” –diz ele.

- Mas tu não lhe disseste que já tinhas muitas canções compostas e gravadas?

- Disse. Mas a conversa dele foi aquela: que eu estava a fazer tudo errado! Em todo o caso, por aquilo que li em artigos na internet, não sei se é a verdade, as editoras multinacionais já não nadam em dinheiro. As vendas de CD´s têm decaído colossalmente pelo acesso gratuito a milhares de canções através da pirataria e como o dinheiro deles escasseia, as editoras calculam cautelosamente os investimentos que fazem nos seus artistas. Preferem aqueles cuja popularidade já está afirmada nas redes sociais por mérito próprio e com uma cara bonita, não longe dos 18 anos de idade. Tal ajudará às vendas uma vez que uma boa parte do mercado consumidor são adolescentes.

- Que se lixem as regras, as estatísticas, o senso comum e aquilo que os outros querem de nós, e para nós! Se as regras não se ajustam a nós, fazemos novas regras! Não temos que seguir normas ou padrões usuais!

- Estava eu quase a terminar o copo de bebida quando encontro um fulano baixista que afirma ter uma vasta gama de contactos. Constato que os músicos por ele propostos além de caros, também ele cobrava uma comissão pelo trabalho de formação da banda! Terminei de beber a minha bebida e decidi que era melhor regressar aos anúncios!

- Quando surge aquela banda com a qual foste ensaiar em março?

- O baterista dessa banda respondeu-me em início de janeiro, três dias após eu ter colocado o anúncio. Afirmou ter uma banda que podia fazer o cover das minhas músicas; que eles eram uma banda de covers e que portanto estavam habituados a tocarem temas de outros artistas. O baterista tinha website. Aí comprovo, preocupada, que a sua banda tinha uma agenda de atuações que por vezes ocupava as sextas-feiras e sábados. Pergunto-lhe qual a solução quando eles tiverem atuações sobrepostas às minhas; como se resolverá o problema? Ele esquiva-se dizendo que se afirmava que podiam atuar comigo, é porque podiam. Não acreditei e não mais pensei nesta banda. Além disso, eu queria formar a minha banda para eu assim, ter a certeza que era constituída por músicos com os quais me identificaria. Precisava sentir-me à vontade com a banda, sentir-me confortável, expandir-me e não limitar-me ou diminuir-me, por factores psicológicos.

- Os anúncios decorrem durante dez longas e penosas semanas?

- Correto. Durante esse tempo todo, ouvi o músico do estúdio teimar comigo que formar uma banda por anúncio, conforme eu estava a fazer, nunca iria resultar pois estaria a reunir músicos que nunca tinham trabalhado juntos, podendo as personalidades e egos de cada um inviabilizar o projecto, por mais competentes que os músicos fossem. Ao fim de dez semanas de anúncios, eu tinha um baixista apenas! Estávamos em março tendo eu uma atuação no final desse mês! Regresso ao baterista da tal banda de covers que aceita outra vez mas, agora muda o bico ao prego: diz-me que tendo em conta que eu cantaria as canções em género rock, ele teria de procurar de entre os seus inúmeros amigos músicos, dois guitarristas do género.

- Tu deparas-te com cada palerma…mas o teu anúncio não mencionava rock quando ele te contatou pela primeira vez em janeiro, dois meses antes?!

- Sim, mencionava. Entretanto, os dias passavam e ele não dava sinal de vida. Quando me deu resposta, foi apenas para me informar que ainda andava à procura. “Puta de vida!” –refilava eu.

- O baterista formou a banda?

- Sim. No dia 21 de Março rumei a Londres. Tal como em dezembro, acordo às 3h da madrugada. Mas desta vez acordo adoentada, andando já com fortes sintomas de gripe há pelo menos três dias. Acordo e não tenho vontade alguma de sair da cama. Ao obrigar a levantar-me ouço a tal voz dentro da minha cabeça que te relatei há bocado: “Eu devia era escrever um livro…” Chego a Londres. Tenho de ir para uma sala de ensaio referenciada pelo baterista situada em Deptford, na zona sudeste. O ensaio terá uma duração de três horas: das 1.30h até às 4.30h da tarde, sendo essa a única disponibilidade da banda.

- Tu com esta banda também não irias longe: mais uma banda armada em VIP.

- Dias antes o baterista afirmara-me que no fim-de-semana anterior tinha estado com a sua banda de covers a ensaiar cinquenta e duas canções, para uma boda de casamento, tendo bastado para tal quatro horas. Portanto, três horas para as minhas seis canções seria mais que suficiente, dizia ele. Chego a Deptford perto do meio-dia. Apesar de março, Londres não é quente e sou uma latina adoentada a tremer de frio. Procuro um local aconchegado para aguardar pela hora do ensaio. Entro num pequeno restaurante asiático com apenas três pequenas mesas e todas redondas. Peço uma sopa e um copo de leite. Queria ambos bem quentes, a ferver! O empregado ao balcão não fez reparos à minha estranha combinação de leite com sopa. Eu era visivelmente estrangeira, não inglesa e não asiática. Isso explicaria o meu estranho pedido.

- Sopa e leite? Em Portugal não temos esse hábito!

- Eu sei que não mas, o empregado não o sabia. A sopa era abundantemente água fervente na qual boiavam alguns pedaços de cebola crua, juntamente com salpicos de salsa e alguns ralos vegetais cozidos pelo meio. A sopa não a comi, bebi-a. Bebi a sua água quente e o copo de leite para me aquecerem o corpo. Continuava com fome. Vou a outro restaurante, também com características asiáticas, e pergunto como é a sopa da ementa. Pergunto se é não esquisita. A funcionária sorri e diz-me que é um creme de sopa. Sento-me e aguardo que ma tragam. Quando a provo, aquilo não sabe a coisa alguma. Deixo-me lá estar sentada pois o local está com o ar condicionado ligado no modo “bem quente”. Durante mais de uma hora, o tempo que lá estive, fico com aquele enorme prato de sopa, que é uma papa branca, com a colher lá dentro a tomar banho, à minha frente. Devem ter pensado que depois da sopa bem fria eu a iria comer. Gosto de comida asiática mas aquele dia foi todo ele, assaz esquisito. Vou à casa de banho pôr um pouco de maquilhagem. Quero ter um aspeto agradável aquando da minha entrada, em breve, na sala de ensaio. A casa de banho tem uma iluminação tão fraca que nem sei se a base foi igualmente distribuída e se o baton não terá patinado para fora da linha labial! A gripe estava a dar cabo de mim. O facto de eu não ter tido qualquer versão instrumental deles, também me matava e corroía-me as esperanças de eu vir a ter uma boa prestação. Como se não bastasse, a afonia que eu tivera no dia anterior, causada pela gripe, apesar de ter melhorado, havia mazelas e fraqueza na voz. “Puta que pariu!” – resmungava eu.

- Porque não tinhas as versões deles?

- Não as pedi por serem uma banda formada a poucos dias da minha partida para Londres. Não havia tempo para tal. Aliás, já fora difícil obtê-las na primeira banda de dezembro. Parece que não tinham gostado de o fazer, além de eu ter sentido que haviam achado o meu pedido estranho! Eu precisava de ter acesso a uma gravação do instrumental para me habituar aos novos arranjos, ensaiar em casa e assim adquirir à vontade com as versões. Eles não viam a necessidade de tal! Para eles um ensaio rápido, era suficiente!

- Um baterista que toca bateria nos ensaios, em casa tem uma outra para ensaiar, certo? Por sua vez o cantor precisa dum instrumental para ensaiar, certo?

- Eu preciso. Nem que gravem a versão, com a banda a tocar ao vivo, directamente para o telemóvel! Voltando a Londres: em frente ao edifício da sala de ensaio, coloco-me num canto junto a uma vedação para a aragem fria, ao descer a estrada, não me ver. O baterista acaba de me telefonar e diz estar ligeiramente atrasado. Vejo três indivíduos a entrar no edifício com sacos de guitarra ao ombro. Serão os dois guitarristas e o baixista da banda? Não sei. O baterista não me enviou qualquer link na internet para a rede social dos elementos da banda recém formada. Não lhes conheço o rosto nem sequer o nome, com exeção do baterista. Há um loiro platinado com cabelo de tamanho médio, fantasticamente espetado no ar, que fala alto, muito sorridente, extrovertido e o único com ar roqueiro. O baterista chega de carro às 14h ou seja, meia hora atrasado. É magro. Não tem ar rockeiro. Tem o cabelo muito curto, é pálido, está todo arrepiado de frio e tem um ar calculista. Um ar de quem se move por objectivos que servem os seus interesses de ganho imediato. Conheço o género, vira-o várias vezes, fora e dentro do mundo música. A maioria dos idealistas possivelmente nem artistas serão. O idealismo que o cinema e as séries de televisão gostam de retratar na classe artística, aplica-se apenas a alguns. É verdade que o idealismo existe na música mas não significa que a maioria dos envolvidos cessem os cálculos enquanto sonham com a música, se apaixonam e lutam por ela. Não significa que irão até ao fim do mundo, até raiar a loucura, apenas alguns fazem isso.

- Como decorreu o ensaio?

- O músico do estúdio desaprovou totalmente a minha opção por este baterista argumentando que este pertencia a um género mais pop além de, em termos de personalidade, pela sua performance nos seus vídeos, parecíamos ter pouco em comum. O baterista está a tocar à campainha do edifício. Aproximo-me dele e apresento-me. Na sala, antes do início do ensaio, noto algum nervosismo nos músicos, que acredito lhes vá passar rapidamente quando virem as minhas lacunas. O nervosismo dever-se-á a uma preparação apressada dos temas pois, o baterista tinha-lhes encaminhado as canções somente dois dias antes.

- Olha, o meu pudim acabou! Acho que vou comer uma mousse de ananás!

- Voltando à história: o guitarrista loiro escreve, relativamente à primeira canção do ensaio que será “Times”, alguns acordes num quadro visível a todos. O baterista, enquanto tira o seu sobretudo e se senta junto à bateria, afirma que acabara de ouvir o tema “Times”, e restantes canções, no seu carro à vinda para cá. O baterista da banda de dezembro chegara ao ensaio com anotações de forma a ser fiel à estrutura das canções enquanto este, acaba simplesmente de as ouvir no seu carro! “Este baterista não é mau mas não é tão bom conforme se julga. Tem a mania! Você não vai gostar.” –avisara-me o músico do estúdio.

- Devias ter-lhe dado ouvidos…

- Bem…pelo menos teve o mérito de se ter esforçado na formação da banda. Tal demonstra espírito empreendedor e isso merece ser louvado. A execução dos guitarristas estava Ok. Imprimiam um ritmo e um som agradável ao ouvido; não tão “indie rock ácido” como a banda de dezembro. Infelizmente, as minhas suspeitas estavam corretas relativamente às minhas lacunas ou seja, eu não acertava nos tempos de entrada das quadras e refrões com o baterista. Eu estava dessincronizada por não saber fazer a contagem dos tempos. Além disso, das sete canções que lhes indiquei para escolherem seis, tendo eu referido no email ao baterista que o “Destiny” era escolha obrigatória, o baterista diz-me hoje que ensaiar-se-iam apenas três temas. Que os temas restantes ficariam para o ensaio agendado para a véspera do concerto mas que “Destiny” estaria excluído!!

- Destiny, a tal canção que é o teu amuleto da sorte?

- Sim. Fiquei mesmo dessincronizada com o baterista, melhor dizendo, lixada! Por sua vez o guitarrista loiro diz-me que o tema Moonlight, género “electro pop”, é complicado de se transpor para rock mas que iriam tentar. Damos início ao ensaio. Começamos então com o tema Times. A dada altura o guitarrista loiro, que era quem mais interagia comigo, interroga-me sobre o significado de “feign rape” e pergunta-me se eu quero dizer “fake rape”. Mais tarde percebi que deveria talvez ter dito “feigned rape”, pois a palavra “feign” era um verbo e não um adjectivo. E interrogo-me se no open mic, quando recebia aplausos, as pessoas me teriam compreendido e saberiam o que era um “feign rape”. Por sua vez o baterista acha a canção longa e simplesmente decide omitir a última quadra. “Fica melhor e é assim que nós fazemos” –diz ele. “Nós? Quem é “nós”?! Omitir a quadra que pergunta se queres fazê-lo (sexo) no chão, num Porshe ou no chuveiro? Nem penses magricelas!” –refilo eu mentalmente.

-O baterista julgava-se o líder da banda?

-Acho que sim. Ele já tinha bebido até àquele instante um litro de leite achocolatado duma garrafa de plástico que tinha trazido consigo. Bebeu-o enquanto tocava bateria, enquanto desatinava comigo e enquanto se julgava o líder daquela banda. Além disso, também se julgava perdido comigo –palavras do próprio. Eu não atino com os tempos de entrada nas quadras. Ele farta-se de beber leite achocolatado de forma enervada. Por sua vez, os guitarristas fazem os possíveis para ver se eu sincronizo e até se aproximam de mim enquanto tocam. Penso que era suposto, por o som estar mais próximo de mim, eles conseguirem aliviar o meu problema. Sem uma versão instrumental prévia deles para eu me familiarizar de antemão, não havia fuga possível para o desastre que eu estava a ser. Como se não bastasse, eu continuava adoentada. Os meus esforços e os deles, estavam a ser em vão. Eu não me estava a sentir nada bem…

-Pois não! Gripada, quase sem voz e a desatinares com o baterista…

-Eu estava doente também de alma. Sentia-me desorientada, sentia-me só, desmotivada, tinha medos, tinha traumas, tinha memórias intrusivas vindas do passado que surgiam repentinamente no presente, como se os eventos tivessem ocorrido instantes antes… Como se não bastasse, tudo o que eu fazia para tentar mudar a minha vida para melhor, levava-me a nenhures.

- Define-me o que é o “nenhures” para ti.

- Nenhures é o lugar onde lutas muito e tudo fica igual ou pior. Nenhures não é um planeta desabitado como a Lua. Os sonhadores começam todos por viver no mundo da Lua e mais tarde, a maioria é deslocada para o planeta “Nenhures”. Será por isso que a Lua está desabitada? Eu sou uma ninfa dos bosques. Quero fugir de “Nenhures” e do ensaio. Dias antes, num teste de personalidade online, acusava eu ter traços de assertividade e de fuga passiva.

- Concordas com esse teste?

- Talvez. O baterista tenta acalmar a situação dizendo-me que não preciso saber os tempos de entrada, que basta simplesmente eu esperar pelo sinal da bateria que indicará a entrada das quadras e dos refrões. “Qual sinal?” – interrogo-me eu. O baterista tenta beber mais um pouco de leite achocolatado da sua garrafa plástica mas ao pegar nela, vê que esta já está vazia. O seu leitinho acabara há pouco e fica com cara de mal fodido! Ele alça a perna que nem um cão a urinar contra uma árvore e com o pé faz martelar o bombo como quem diz: “Eis a merda do sinal! Não vês?” Começou agora a executar o “Times”, que é um blues, em género “reggae” dando simultaneamente gargalhadas desdenhosas.

- Ele podia simplesmente mudar o género da canção de blues para reggae, só porque lhe apetecia?!

- Claro que não! Eu medito: “Brincas? Achas que te vou aturar? Não vale a pena aturar porque um dia o rompimento surge à mesma. Às vezes até é o agressor o primeiro a fazê-lo para se antecipar à vítima e dar a última bofetada. O agressor acha-se sempre o magoado, ele ama-se e acha que a vítima não tem outro papel idiota senão o de vítima.”

- Ou será a vítima que acha que não tem outro papel idiota senão esse…

- Mas naquele dia não se tratava de uma vitimização. Eu assumo as culpas do

que se estava a passar, assumo a responsabilidade do fracasso do ensaio.

- Em vez de meditares, não achas que deverias ter simplesmente encerrado o ensaio, ter-lhes virado as costas e teres tido aulas de música?

- Talvez. Entretanto o baterista diz que faltam 40 minutos para o ensaio terminar pois às 16.30h tem de arrancar para dar uma aula particular. Sugere que se passe para o ensaio do “Too Much”. Eu, ao querer tirar uma teima com o baterista relativamente a esta canção, ouço-a no portátil do baixista. A canção estava em anexo ao email enviado pelo baterista a cada um dos elementos da banda, dois dias antes, a dar a conhecer os temas a ensaiar da cantora portuguesa. Os meus ouvidos ignoram a canção. Estou focada na leitura do email.

- O que dizia o email do baterista?

- Nele o baterista refere que uma artista portuguesa tinha vários espetáculos marcados em Londres e, embora ele não perceba nada do que ela canta em Inglês (suponho que se referisse à minha dicção), ela comprometia-se a pagar aos músicos, inclusive os ensaios! Em vista disso, eles nada teriam a perder –dizia ele. O baterista inflacionava ligeiramente o número dos espetáculos e os preços que eu pagaria. Percebi que tinha sido esta a forma encontrada para conseguir a formação rápida da banda rock.

- Ele também quis encurtar o “Too Much”?

-Sim. O baterista cisma que também esta canção é longa e repete os seus gracejos desdenhosos. Afirma que esta lhe faz lembrar as longas canções dos “Dream Theater” -curiosamente esta era uma banda que o músico do estúdio apreciava imenso. Após o seu gracejo, o baterista fica por alguns segundos calado e pensativo. Depois abre a boca e diz que este tema lhe lembra uma espécie de um “rock-blues”! Bem, são 16,30h e o ensaio termina. Pelas caras de cada um de nós parecemos estar a interrogar-nos como nos iremos safar, naqueles moldes, no concerto dali a 6 dias se não se conseguiu sequer ensaiar devidamente duas canções! Naquele instante falo comigo própria e coloco a hipótese de cancelar as atuações. O baterista e os outros vestem os seus respectivos sobretudos e casacos. Perturbada pela hipótese de cancelamento, pego na minha mala de viagem para arrancar dali para fora esquecendo-me que lhes tenho de pagar o ensaio. Reparo que estão reunidos em semicírculo e de costas para mim, eu já estou junto à porta. Eles de mãos nos bolsos parecem estar a trocar impressões subtis entre eles.

- O que é que eles estavam a falar?

- Não os conseguia ouvir por estarem um pouco afastados da porta onde eu me encontrava. Eles olham para mim por cima do ombro. Ainda há minutos atrás o guitarrista loiro dizia-lhes, querendo transmitir-lhes alguma tranquilidade: “Nós iremos habituar-nos a ela e ela a nós”, mas eu já estava em contato íntimo com as reacções de fuga passiva e agora junto à porta. O baterista lembra-me em tom imperativo que eu tenho de pagar a cada um deles e menciona a quantia. Tal valor, a meu ver, seria para um ensaio intensivo. Obviamente que ele acha que o foi. Puxo do dinheiro que considero ser justo pagar e pouso em cima dum instrumento musical na sala junto à porta. Faço-o de forma exasperada. Estava farta! Farta da minha vida! Tinha adorado escrever as letras de todas as minhas canções e vibrado de excitação com os arranjos, refilado com o músico do estúdio quando o arranjo não me eletrizava e até esse refilar adorava! Agora, detestava tudo! Tinha ido para a música para não me sentir só mas eu estava a sentir-me só como nunca me havia sentido antes. Sentia-me terrivelmente só! Queria desaparecer. Como fora possível ter-me acontecido tudo aquilo após o open mic? Como fora possível eu ter sido apunhalada por quem confiava?

- Precisas ter calma…

- Além disso, sinta-me como uma curandeira no meio de ilustres doutores! Consegui concretizar muitas canções mas os músicos fazem-me sentir uma ignorante! Um sapateiro que quer tocar violino! Eu junto à porta procuro não sei o quê dentro duma bolsa da minha mala de viagem quando, me saltam para o chão pensos higiénicos! “Puta que pariu! Que anedota!” –penso eu. Pego na mala de viagem e abro a porta com um tal intenso ímpeto de fuga que quase arranco a porta. No entanto, esbarro com um homem que parece que estava a escutar atrás da mesma. Agarra-me, empurra-me para dentro, fecha a porta e pergunta-lhes se posso sair.

- O tipo empurra-te?!

- Sim. Eu de olhos vidrados fixo este homem. Fico imóvel e nem respiro como se o meu cérebro quisesse silêncio total para ouvir o mais ligeiro sinal de perigo que fosse, se sim: “Desata aos gritos e passa à agressão física!”. Eu estava prestes a entrar em modo “cão raivoso”. A situação resolveu-se rapidamente tendo o guitarrista loiro, embora num tom desapontado comigo, lhe dito: “Deixa…deixa-a ir…”.  Saio da sala de ensaio a correr escadas abaixo e tento alcançar a estrada principal que se avista numa transversal mais adiante. Onde estou a rua está deserta e quero sair dali. Corro rua acima com uma mala de viagem cujas rodas parecem uma senhora idosa que me pede para ir com calma. Ouço um homem atrás de mim a chamar-me. Eu que avançava a toda a velocidade, tendo inclusive perdido o frio, retirado do corpo dois casacos e até a gripe se tinha subitamente desvanecido, paro e volto-me na sua direção. Ele afirma que a banda não lhe paga a sala de ensaio alegando que tal é incumbência minha. Tenho pena deste fulano. Que diabo de amigos eram aqueles que se recusavam a ajudar este seu amigo que minutos antes, lhes tinha impressionado empurrando-me para dentro da sala de ensaio?

- O fulano empurra-te e depois tem a lata de ainda vir atrás de ti?!

- Respondi-lhe que o dinheiro chegava para a banda e para pagar a sala de ensaio! Apanho o combóio e chego transtornada ao hotel. Tinha despedidas a fazer. Despeço-me mentalmente do quarto de hotel, da cidade e por uns tempos, da música. Telefono ao músico do estúdio onde seis meses antes todas as minhas canções tinham sido concluídas. Diz-me para eu não me impressionar com os meus erros e peripécias, que tal faz parte do meu processo de aprendizagem. Prossigo com as despedidas: o baixista que ficou do meu lado, aguardando pacientemente enquanto eu procurava guitarristas para completar a banda. O baixista, um indiano que chegara a Londres anos antes, trabalhava numa empresa de telecomunicações e é um cristão muito devoto. Diz-me repetidamente para eu não desistir, que Jesus estará do meu lado para me ajudar nas horas difíceis; diz ainda que eu tinha talento e que não serei mais um tijolo na parede; para eu retornar a Londres assim que puder. A simpatia dele toca-me e emociona-me mas, é fácil gostarem de mim enquanto me imaginam fantástica.

- Tu és fantástica! Quando é que te convences disso?

- Achas que eu sou fantástica? Obrigada! Tu também és fantástica! Continuando o relato: interrogo-me se devo também despedir-me do guitarrista “open mic”. Cinco minutos antes tinha-lhe enviado uma sms a dizer que sentia a falta da minha antiga banda pois a nova tinha-me retido na sala de ensaio por quererem mais dinheiro.

- O que é que ele te respondeu?

- Ele nada diz, aliás nem sequer lhe tinha dito que eu iria a Londres. Já não mantínhamos contato portanto, nem valeria a pena ele saber da minha ida. Mas acabo por fazer a chamada telefónica não obstante, em número anónimo. Ele atende. Por instantes quis perguntar-lhe se ele tinha visto a minha sms. Ouço no meu ouvido esquerdo, onde está o telemóvel e ele, imensos risos masculinos de fundo, possivelmente algum jantar entre amigos. Entrando pelo meu ouvido direito, sentada no chão do quarto do hotel, ouço o som de fundo da televisão e a ideia de que em Portugal a minha vida também não estava divertida. Pouco passa das 20h. É noite. Cá fora, Londres, a grande cidade cheia de pessoas e eu ali sozinha. “Hello?” – insiste ele. Eu continuo em silêncio total. Não sei se desconfia que sou eu. Desligo. Eu decido iniciar a travessia do deserto sozinha até que melhores dias existam e mentalmente, digo-lhe adeus.

- É com essa frase da travessia do deserto que irás finalizar o livro que estás a escrever?

- Não. Sabias que durante longos meses, após o desastre de março, acompanhei a evolução profissional de todos aqueles que conheci em Londres através das respectivas redes sociais, vendo os seus vídeos de atuação ao vivo e lendo os seus comentários sobre os bastidores? Também me mantive atenta à movimentação de alguns dos amigos músicos do meu ex guitarrista e respectivas bandas. Virou até vício na rotina nos meus dias! O meu adorado “reality show”! Observava tudo com muita atenção. Às vezes de sandes e bebida na mão, em frente ao computador. Há novidades! Deixa-me ver!

- Como foram os teus primeiros dias em Portugal após aquele fiasco em março?

-Na primeira semana o raciocínio esteve paralisado, a mente turva e sentia-me pessimamente -comecei a ter insónias que duram até hoje. A minha rotina era: acordar, ir para o emprego, sair do emprego, regressar a casa, jantar, pegar numa cerveja e ficar a ver filmes, ou documentários, na internet até altas horas da noite. Pelo meio repetia a mim própria que no dia 28 de março iria retomar a escrita do livro de há 11 anos atrás. Frequentemente adormecia em frente ao computador. Às 7:00h acordava ensonada e assim chegava ao emprego. Era esse o estado que me agradava: o adormecimento. Não podia evitar a existência dos dias e as suas muitas horas, mas podia andar ensonada. Dormia somente 4 horas por noite para eu ter a certeza que no dia seguinte andaria muito ensonada. Para obter um sono profundo até adormecia semi alcoolizada, a bebida põe-me sonolenta. Os colegas, logo na primeira hora da manhã, no mini-bar enchiam-se de café. Eles bebiam café, eu ensonada bebia chá calmante. Estar acordada para quê?

- Um ano após o teu concerto 7 de dezembro, o que é feito da malta de Londres?

- Relativamente à banda de março: o baterista continua com a sua banda de covers em que a vocalista canta todos os temas, penso eu, do agrado de todos. Também é baterista em uma ou outra banda. O guitarrista loiro era irlandês e além de músico também era cantor e ator de teatro continuando a conciliar essas actividades -atualmente a fazer uma pós graduação na escrita e composição de canções. O outro guitarrista continua a trabalhar num bar e é o único, sem formação musical superior. O baixista, talvez o mais culto e o mais viajado deles todos, já andou pelos EUA e Canadá, está a fazer uma formação a nível de produção e engenharia de som. O baterista duas semanas após a minha partida, constituiu com os restantes três músicos que conheci naquela sala de ensaio, uma nova banda de covers. Numa foto deles em atuação ao vivo algum tempo após, eis o visual deles em palco: o guitarrista loiro platinado canta com ar punk, cabelo fantasticamente espetado no ar, eyeliner preto e unhas pintadas em preto; o outro na bateria, com um ar formal, veste um blazer branco; o outro à guitarra está como quem acaba de sair de um bar e o outro no baixo, como quem acaba de sair de um escritório.

- Parece um quadro ornamentado com um grande colorido!

- Acerca da banda de dezembro: o guitarrista “incompatível”, não sei nada acerca dele pois nada consta nas redes sociais. O baixista, que também tem formação/curso em pintura feita em Espanha, continua a frequentar o curso de baixo em Londres -últimas fotos suas mostram-no a uivar com uns amigos seus, algures nos perineus espanhóis e na sua cabeça, uma caveira de uma vaca como se um capacete fosse. O baterista que dizia não mais poder atuar para mim por ter encontrado um outro “empregador”, fez apenas duas atuações com a sua banda em um ano inteiro. Escrevia ele na sua rede social que a sua banda estava a gravar novos temas mas, nunca os deu a conhecer. Acerca da namorada, ela é mesmo uma mulher mas que por brincadeira, ela afirmava-se ser do género masculino. Ele está no último ano do curso de bateria. Recentemente começou a trabalhar num bar/restaurante como DJ, ao fim de semana. Relativamente ao guitarrista “open mic”, ele tem a rotina habitual típica de um músico profissional e tem agora o seu próprio website de músico. Entretanto colocou anúncios oferecendo os seus préstimos para mais aulas particulares e pelo novo código postal da morada indicada, vejo que saiu da residência dos seus familiares e viverá num quarto espaçoso com o qual sonhava. O músico do estúdio dizia que o guitarrista “open mic” iria ter futuro no jazz e de facto, este último está a prevalecer nele: atualmente está a ter uma presença assídua em “jam sessions” com uma vertente de jazz fusion, onde tem sido notado. Entretanto tem atuado em bandas associadas a editoras com algum destaque e inclusive, feito duos -ora com cantores ora com cantoras, que se fazem acompanhar apenas por um músico à guitarra (ele) e feito algumas digressões, nestes moldes, ao estrangeiro. Em véspera de gravação de um novo álbum com a sua banda que se deslocava à Suécia, abandonou a mesma -talvez por quezílias internas. Permanece com a sua outra banda de Heavy Metal, onde além de guitarrista também é compositor. Aqui, ele gravou um solo de guitarra que lembra os acordes de guitarra que surgem na introdução da minha canção “Thing”. Esta gravação surge pouco tempo após a minha fuga de Londres em março e nesta mesma altura,  esta sua banda de Heavy Metal grava um videoclip: no enredo uma mulher é retida dentro de uma sala por homens.

- Achas que ele confidenciou o teu episódio?

- Não sei. Pode ter sido apenas coincidência.

- Mas vais regressar à música, não vais?

- Claro!

- Um brinde ao teu sucesso e à felicidade! Champanhe!

 

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