Capítulo 2

O DIA SEGUINTE

 

No dia seguinte, e durante os meses seguintes, dedico-me à escrita deste livro. Em todos os minutos livres que tenho, após o término do trabalho no emprego que mantenho em Portugal, sou totalmente dedicada ao livro.

Pego no meu computador portátil e escrevo onde quero. Não tenho limitações de espaço como sucedia com os ensaios para cantar ou de tempo, como no estúdio de gravação.

Consigo escrever mesmo quando estou adoentada ou com sono ou, mesmo que exista barulho de fundo ou música alta... Gosto de escrever.

Também escrevo mentalmente quando estou às voltas na cama para adormecer, quando estou no duche, quando estou no ginásio, quando estou no emprego, quando estou numa fila de espera…Aproveito e revejo o que me falta dizer no livro.

Estamos em vésperas da Páscoa e tenho alguns dias de férias. Não posso ficar sozinha em casa entre quatro paredes, não consigo escrever em casa, necessito esquecer aquelas paredes e também Londres…

Saio para um sítio onde hajam pessoas alegres, descontraídas...vou para a praça alimentar do hipermercado onde comprei o tal ketchup para as batatas fritas…

O meu portátil vai sempre comigo.

Entretanto os meses passaram. A Páscoa já lá vai. Estou agora no mês de novembro. O meu aniversário foi há semanas atrás, em finais de setembro.

Todos os capítulos do livro já estão concluídos exceto um. O livro terá cinco capítulos. Falta o capítulo 2. Recomecei-o a escrever ontem pois tinha parado no último parágrafo: “...vou para a praça alimentar do hipermercado onde comprei o tal ketchup para as batatas fritas… O meu portátil vai sempre comigo.”

Essa fase da “praça alimentar” também já lá vai. Agora escrevo no portátil mas dentro do meu carro, no parque automóvel do mesmo hipermercado.

O parque tem música ambiente! Ouço as mesmas músicas que alguém que esteja na praça alimentar! O parque não é fechado lateralmente e ar vindo de lá de fora entra por aqui dentro abundantemente. Traz o oxigénio dos montes que se veem lá longe. Portanto, não há o perigo de eu ficar intoxicada com o monóxido de carbono dos muitos carros que por aqui estacionam. Eu estou bem.

Em agosto, mês de férias, estive mais por casa. Quando digo casa, refiro-me à casa de campo dos meus pais com uma pequena bouça cheia de arvoredo, uma fonte, imenso terreno, vinhas e árvores de fruta. Também tenho cães brincalhões e gatinhos. Estes últimos sentam-se em cima da mesa da cozinha, mesmo junto ao meu prato quando estou a comer.

Agora é novembro e tal como antes, o meu prato da comida nunca é inteiramente para mim pois é dividido por três: eu, os gatinhos e os cães brincalhões.  

Quanto estou a comer eles todos fazem-me uns olhinhos queridos e dizem: “Nós já comemos bastante às 19h, hora em que os teus pais jantam habitualmente. Tu chegas a casa por volta das 23h. Sais do emprego, andas por aí de portátil na mão a escrever o livro, depois às 22.30h pegas no carro e vens para casa, não é? São 23 h! Temos fominha! Deixa-nos a provar do comer que tens no teu prato! Gostas de nós, não é verdade? Repara nos nossos olhinhos bonitos! Olha só esses dois gatos chatos que estão a miar junto ao teu prato! Enxota-os! Um dos gatos está a arrastar, com uma pata e unhas, alguma comida para fora do teu prato para a boca dele! Mal educado! Posso perguntar se a comida está boa? Dás-me um pouco? Quantas páginas do livro já escreveste hoje dentro do teu carro no parque automóvel?”

A música que se ouve no parque, por vezes sinto-a com um volume demasiado alto. Fecho os vidros do carro para reduzi-la mas não é suficiente. Hoje, eu estava particularmente sensível, acho que é excesso de trabalho no emprego.

Peguei em pequenos pedaços de lenços de papel e enfiei-os nos ouvidos!

Um condutor acaba de passar por mim. Sorriu e voltou a olhar para mim! O que é que eu tenho assim de tão especial?! Mirei-me no espelho retrovisor.

Esqueci-me…tenho pedaços de lenços de papel enfiados nos ouvidos que se prolongam para o exterior do canal auditivo. Parecem a cauda de um vestido de noiva! Ainda bem que faço sorrir quem olha para mim…Eu sorrio de volta: “Estou linda, concorda?”

As lágrimas caíram enquanto eu corri à chuva naquela noite…A tal noite em que eu usava umas botas que deixavam entrar toda a chuva existente sobre o alcatrão…Uma noite escura, cheia de mau tempo…e quando tudo parecia que eu iria mostrar àqueles sacanas, que me deixaram para trás, que eu venceria sem eles, eis que tudo desaba em cima de mim!

No mesmo dia, após a minha chegada a Portugal vinda de Londres, envio um email à Cristina, uma luso-americana de Nova Iorque agora a residir em Portugal, a perguntar se ela estaria disponível para fazer uma retroversão para inglês de um livro meu que iria ter, segundo a minha previsão, aproximadamente 400 páginas. A Cristina já tinha feito a revisão de algumas letras minhas para canção, em inglês.

As canções foram um projeto à qual eu dei vida: eu trabalhei! eu batalhei!

Todas as minhas horas livres, todo o meu amor, toda a minha esperança, toda a minha fé, todo o meu dinheiro, toda a minha paixão, todos os meus pensamentos, toda a minha dedicação…foram para as canções. Eu ganhei dinheiro, no meu emprego, para dar vida às canções! Elas ainda não têm a capacidade de me dar sustento algum!

Mas elas dão sustento à minha alma portanto, a dívida está saldada! 

Mas agora, eis-me aqui à volta de um livro intitulado “Eu, Ninfa Artemis”.

Sem as peripécias que o destino me aprontou, eu nunca teria pensado em retomar este livro, um projeto muito anterior às canções.

O livro em causa, iniciado muitos anos antes, descrevia o “romance” e a forte paixão “vivida” com o tal músico com contactos internacionais, referidos no capítulo anterior.

Esse livro passou a ser o capítulo 4 do livro que actualmente escrevo.

Em Londres, eis-me na última viagem de metro do hotel para a Victoria Station para aí apanhar um autocarro para o aeroporto de Stansted com destino a Portugal.

O bilhete do avião afirma 18h mas às 06.30h já eu estou a sair do hotel e a dirigir-me, sob um céu cinza escuro, para o metro.

Deixo tudo para trás. Não tenho outra opção, nem dinheiro e, estou exausta.

Veem-se algumas pessoas na rua estando o ar demasiado fresco apesar de ser março. As pessoas ainda usam camisolas quentes lembrando o inverno. Eu usava uma t-shirt preta de algodão de meia manga. A raiva e a revolta, aqueciam-me.

Eu e a mala de viajem com rodas, caminhávamos em passo acelerado.

Pouco tinha dormido, tendo a televisão ficado ligada toda a noite para me fazer companhia. Não olhei para ela pois não me interessava as suas imagens mas sim, a companhia do seu som que me convencia que eu tinha ali alguém que falava comigo, que eu não estava só no mundo.

Eu tanto tinha desejado mudar a minha vida…estou bem pior que antes…

A claridade projetada pelo ecrã da televisão afastava os meus pensamentos ansiosos que sabiam que lá fora eram 2h da madrugada, que não havia ninguém na rua, que no hotel as paredes estavam silenciosas e que todos dormiam.

Eu observava a luz dos lampiões a reflectir-se na estrada húmida pelo orvalho da madrugada e, no chão preto da estrada, círculos de sol amarelo projectados pelos lampiões da rua.

Onde estão os estores das janelas em Londres? Não existem! Tudo cortinas enormes de pano que facilmente permitem espreitar para o exterior e deixam que a luz do dia da manhã, espreite para dentro do quarto!

Quando o dia nasce, este irrompe pelo quarto e lixa-me os nervos! Muitas vezes dormia eu com a almofada, que era suposto estar debaixo da cabeça, em cima da cara para não ver a claridade!

 

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